A escola não te ensinou a enriquecer

Duas grandes empresas me procuraram com o mesmo diagnóstico: seus colaboradores estão endividados, não sabem como funcionam os juros compostos, e sentem o peso das apostas. Não é coincidência.

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Entre ontem e hoje, duas grandes empresas me procuraram para orientar seus colaboradores em educação financeira.

O que me chamou atenção não foi o pedido, foi o diagnóstico que apareceu nas conversas de briefing, idêntico nos dois casos.

Os funcionários estão se endividando. Têm dúvidas básicas, do tipo que a escola deveria ter respondido e não respondeu, como o que é IPCA, qual a importância de poupar, como um juro pequeno vira uma bola de neve enorme, qual o reflexo dos investimentos para a economia familiar.

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E as duas empresas apontaram, sem que eu perguntasse, para o mesmo acelerador do problema: as bets.

Quando o mesmo sintoma aparece em dois lugares diferentes na mesma semana, deixou de ser caso isolado. É a colisão de três forças que, juntas, estão empobrecendo o trabalhador brasileiro sem que ele perceba de onde vem o rombo.

A primeira força é o cenário econômico, que hoje pune com rigor quem não sabe o básico. A taxa Selic está em 14,00% ao ano, depois de bater 15% em 2025, o juro mais alto em quase duas décadas.

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A inflação segue acima do teto da meta, corroendo o salário. Traduzindo, o dinheiro parado perde valor e o dinheiro emprestado ficou caríssimo. E aqui está o número que deveria assustar mais que qualquer outro: o juro do rotativo do cartão de crédito passa de 435% ao ano.

É exatamente o juro composto, aquela conta que o funcionário não sabe definir, que está devorando o salário dele. Juro composto é uma força. Trabalha a favor de quem investe e contra quem deve.

A maioria dos brasileiros está do lado errado dessa conta, e não por acaso oito em cada dez famílias hoje estão endividadas, o maior nível já registrado.

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A segunda força é a que menos aparece nas manchetes e mais explica o resto. O brasileiro não foi ensinado a lidar com dinheiro. Apenas 35% dos adultos do país são considerados financeiramente alfabetizados, capazes de responder a perguntas simples sobre juro, inflação e risco.

Entre os jovens, o quadro não é melhor. E quase um terço da população não guarda nada para uma emergência. Quem não entende juro, probabilidade e risco não está preparado para dizer não a um produto desenhado justamente para explorar essa falta de noção.

A terceira força é a bet, que chegou como fósforo num paiol. Todo mês, entre 20 e 30 bilhões de reais saem das contas dos brasileiros rumo às casas de aposta, segundo o Banco Central.

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E o retrato de quem aposta é o retrato de quem menos pode perder. A maioria é homem, jovem e ganha até dois salários mínimos. O caso mais grave o próprio Banco Central mediu: cinco milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram 3 bilhões de reais para apostas em um único mês. A parte mais cruel aparece nos dados da Serasa.

Entre os endividados que apostam, mais da metade não estava inadimplente antes de começar. Muitos apostam enxergando ali uma renda extra para pagar contas, e afundam mais fundo na dívida que queriam quitar.

Vale entender por que a aposta é diferente de qualquer investimento. Na bolsa, o dinheiro vira um pedaço de uma empresa produtiva e pode crescer com ela.

Na aposta, a matemática é montada para a casa ficar com a sua fatia, e o retorno esperado de quem aposta é negativo por construção. Traduzindo, um país que mal poupa está mandando dinheiro real justamente para o único lugar desenhado para fazer esse dinheiro minguar.

As bets não competem com o bar nem com o cinema. Competem com a poupança e com o investimento de quem menos pode abrir mão deles.

E vale olhar para fora, porque não somos os primeiros a viver isso. O Reino Unido abriu seu mercado em 2005, viveu o boom da publicidade e das apostas pelo celular, mediu o estrago e hoje aperta as regras. Nos Estados Unidos, que liberaram a aposta esportiva em 2018, estudos de universidades já mostram que ela reduz a poupança das famílias e aumenta as falências, com o dano concentrado nos mais pobres.

A Itália proibiu toda a publicidade de apostas. A Índia simplesmente baniu o jogo online com dinheiro em 2025. O roteiro se repete em toda parte, sempre na mesma ordem. Abre o mercado, vem o boom, aparece o dano social, chega a regulação.

O Brasil é a bola da vez porque abriu no auge da tecnologia, com aposta ao vivo no celular e pagamento instantâneo por Pix, o que faz tudo acontecer mais rápido. E já entramos na fase da regulação.

O Supremo Tribunal Federal barrou o uso do Bolsa Família nas apostas e proibiu publicidade dirigida a crianças, e o bloqueio para beneficiários de programas sociais passou a valer no ano passado. Virão mais restrições, à publicidade, aos valores, ao acesso. É necessário.

Mas regular a aposta é construir a represa, não secar a enchente.

A represa que nenhum decreto constrói é a educação financeira. As duas empresas que me procuraram esta semana entenderam isso na prática. Elas não pediram uma palestra sobre apostas. Pediram educação financeira, porque perceberam, corretamente, que o antídoto da bet não é só a lei.

É a conta. O mesmo conhecimento que falta para o funcionário entender por que a dívida do cartão dobra sozinha é o que falta para ele enxergar que a aposta é um jogo perdido de saída.

São dois inimigos, o juro composto trabalhando contra ele e o retorno negativo da aposta, e ambos exploram exatamente a mesma lacuna.

No fim, a conta é simples. A bet não vende sorte, vende a ilusão de um atalho para quem nunca aprendeu o caminho. Enquanto o Brasil não ensinar a matemática dos juros, da inflação e do risco, vai continuar exportando salário para o cassino e importando dívida. Proibir ajuda.

Mas a única defesa que nenhuma casa de aposta consegue vencer, e que nenhum decreto precisa conceder, é um trabalhador que sabe fazer a conta.


Diogo França é Diretor da XP Educação, edtech que forma profissionais para o mercado financeiro, negócios e tecnologia. Economista pela UFPR, sua trajetória é pautada pela construção de produtos digitais e pela transformação estratégica de grandes empresas. É quem faz a ponte entre a visão de negócio e a execução tecnológica, garantindo que a educação entregue o que a economia real exige hoje