Canetas emagrecedoras ainda estão fora do SUS; queda de preços pode mudar o jogo?

Decisão da Justiça reforça que medicamentos não incorporados ao rol de sistema público dificilmente são concedidos

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Apesar de terem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e estejam revolucionando o tratamento da obesidade na medicina privada, as chamadas canetas emagrecedoras continuam fora da lista de medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na prática, isso também limita o acesso pela via judicial. Em decisão tomada no final de julho, a 12ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) negou o fornecimento gratuito de semaglutida a uma paciente com obesidade, reforçando que, como regra geral, medicamentos não incorporados ao rol do SUS não podem ser concedidos pela Justiça.

O entendimento foi baseado em parecer do Núcleo de Apoio Técnico do Judiciário (NatJus), segundo o qual ainda não existem evidências suficientes de que a semaglutida seja indispensável em relação aos tratamentos já disponibilizados pelo SUS. O relator do caso, desembargador Edson Ferreira, também destacou que o relatório médico apresentado não comprovava a imprescindibilidade do medicamento específico.

A decisão ocorre justamente quando o governo federal começa a preparar o terreno para uma possível mudança dessa realidade. Em resposta ao InfoMoney, o Ministério da Saúde informou que já solicitou prioridade à Anvisa para o registro de medicamentos nacionais à base de semaglutida e liraglutida, utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Somente em 2026, a agência concedeu oito novos registros dessas terapias.

Segundo a pasta, a expectativa é que a entrada de medicamentos genéricos e similares amplie a concorrência e reduza significativamente os preços, um dos principais fatores que serão considerados em uma futura decisão sobre a incorporação desses medicamentos ao SUS.

Custo ainda impede incorporação

Tudo isso porque hoje o maior obstáculo não é regulatório, mas financeiro. No ano passado, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) emitiu parecer desfavorável à inclusão da semaglutida e da liraglutida para tratamento da obesidade. Entre os motivos apontados estava o elevado impacto orçamentário, estimado em mais de R$ 8 bilhões.

Diante disso, o Ministério da Saúde informou que uma nova solicitação de incorporação envolvendo a semaglutida encontra-se atualmente em análise, cenário que poderá ser influenciado pela redução dos preços provocada pela chegada de novos fabricantes.

Paralelamente, a pasta iniciou, em junho deste ano, um projeto-piloto no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre. Cerca de 250 pacientes com obesidade grave ou indicação de cirurgia bariátrica passarão a receber tratamento com semaglutida para que o governo avalie não apenas a eficácia clínica, mas também o custo da terapia dentro da realidade do SUS.

Entre janeiro e maio deste ano, o sistema público realizou 1.502 cirurgias bariátricas, procedimento considerado padrão para os casos mais graves da doença. O número é muito baixo perto dos mais de 6 milhões de brasileiros que apresentam indicação clínica para o procedimento, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM).

Judicialização

Na avaliação do advogado Columbano Feijó, sócio do escritório Falcon, Gail e Feijó Advogados, o simples fato de o medicamento possuir registro na Anvisa não garante seu fornecimento pelo SUS nem o sucesso de ações judiciais.

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Segundo ele, quem busca esse tipo de tratamento precisa comprovar, inicialmente, que não possui condições financeiras para custear o medicamento. “Além disso, quando existe uma alternativa terapêutica já disponibilizada pelo SUS, será necessário demonstrar tecnicamente que ela não produz os resultados esperados naquele paciente específico.”

O especialista lembra que o SUS já disponibiliza medicamentos à base de semaglutida para determinadas situações relacionadas ao tratamento do diabetes. Para conseguir judicialmente terapias mais modernas, como a tirzepatida, será necessário comprovar que o tratamento atualmente disponível não atende às necessidades clínicas do paciente.

Para Feijó, a discussão tende a migrar gradualmente do campo jurídico para o econômico. Segundo ele, a perda das patentes e a entrada dos medicamentos genéricos poderão reduzir significativamente os preços das canetas emagrecedoras, alterando a relação entre custo e benefício para o sistema público.

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“Se o tratamento medicamentoso conseguir evitar parte das cirurgias bariátricas, reduzindo internações e possíveis complicações, ele passa a representar uma alternativa menos invasiva e potencialmente mais econômica para o SUS”, afirma.

Especialistas, porém, ressaltam que os medicamentos não devem substituir completamente a cirurgia bariátrica, indicada para pacientes com obesidade grave e determinadas comorbidades. A tendência é que ambas as estratégias convivam, ampliando as opções terapêuticas disponíveis.

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Desafio da política pública

Para o médico sanitarista Gonzalo Vecina, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e um dos criadores da Anvisa, a discussão sobre as canetas emagrecedoras vai muito além da incorporação de um novo medicamento. Segundo ele, a obesidade tornou-se um dos maiores problemas de saúde pública do país por estar diretamente associada ao aumento das doenças cardiovasculares e de diversos tipos de câncer.

“O entendimento de que a obesidade é uma doença mudou completamente a forma de tratar esses pacientes. Hoje sabemos que combater a obesidade significa reduzir infartos, AVCs e diversos tipos de câncer, que hoje matam a maioria da população”, afirma.

Na avaliação do especialista, a redução dos preços provocada pela chegada dos genéricos abre espaço para uma nova discussão: demonstrar, com base em evidências científicas, que investir nesses medicamentos pode gerar economia ao sistema público no longo prazo.

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Vecina defende, porém, que as canetas não sejam tratadas como uma solução isolada. “O futuro do tratamento da obesidade não é uma caneta. É um projeto”, resume. Segundo ele, o SUS precisará estruturar ambulatórios especializados, reunindo médicos, nutricionistas, psicólogos e profissionais de educação física, nos moldes da política pública criada para o tratamento da AIDS na década de 1990. “A caneta é apenas uma parte do tratamento. Sozinha, ela não resolve o problema.”

Para o professor da USP, uma política dessa natureza exigirá investimentos iniciais, mas poderá reduzir gastos futuros com cirurgias cardiovasculares, tratamentos oncológicos e outras complicações associadas à obesidade. Antes disso, porém, será necessário produzir evidências que comprovem essa relação de custo-benefício dentro da realidade do SUS.

Leia Mais: Anvisa pode aprovar 8 novas canetas de liraglutida e semaglutida até o fim do ano

Quanto custa não tratar a obesidade?

Foi justamente essa lógica que norteou parte das discussões realizadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Desde 2020, quatro medicamentos para tratamento da obesidade foram avaliados pela comissão: orlistate, sibutramina, liraglutida e semaglutida. Todos receberam parecer desfavorável à incorporação.

Segundo Maria Edna de Melo, coordenadora do Departamento de Advocacia da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e integrante da Comissão de Relações Institucionais e Políticas Públicas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a própria Abeso participou da proposta apresentada à Conitec para inclusão da liraglutida em 2025.

Na avaliação econômica elaborada para a comissão, o tratamento anual com liraglutida foi estimado em cerca de R$ 7.390 por paciente, enquanto o custo direto de um episódio de infarto agudo do miocárdio foi calculado em aproximadamente R$ 7.207.

“O valor de apenas uma complicação aguda já se aproximava do custo de um ano de tratamento medicamentoso”, explica. Ela ressalta, porém, que esse cálculo ainda subestima o impacto financeiro da obesidade, pois considera principalmente despesas médicas imediatas.

“É muito mais difícil contabilizar todos os custos relacionados ao acompanhamento de diabetes, hipertensão, dores articulares, fisioterapia, próteses, cirurgias ortopédicas e medicamentos utilizados durante décadas. Também ficam parcialmente fora das contas os custos sociais da doença, como afastamentos do trabalho, perda de produtividade, aposentadorias precoces e mortes prematuras.”

Para Maria Edna, os medicamentos têm potencial para reduzir complicações e evitar parte das internações e procedimentos de alta complexidade, embora ainda não existam estudos suficientes para afirmar que possam substituir automaticamente a cirurgia bariátrica. “Para determinados pacientes com obesidade grave, a cirurgia continua sendo uma opção terapêutica necessária e altamente eficaz.”

A possível chegada dos medicamentos genéricos, a produção nacional incentivada pelo Ministério da Saúde e os resultados do projeto-piloto em andamento poderão alterar os cálculos econômicos que hoje impedem a incorporação dessas terapias ao SUS.

Em entrevista recente ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o endocrinologista Bruno Halpern afirmou que compreender a obesidade como uma doença crônica é fundamental para acelerar o tratamento e mudar a forma como o tema é encarado pelas políticas públicas. “Defender que medicamentos modernos para obesidade estejam disponíveis no SUS não é defender privilégio. É defender o direito à saúde”, disse.

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Anna França
Minhas Finanças | Carreira | Consumo

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro