Brasil segue longe de crise sistêmica e Bolsa do país está atrativa, diz Bradesco BBI

Estudo de 30 anos do mercado acionário brasileiro indica que crises costumam dar sinais com antecedência; cenário atual mostra Bolsa barata, crédito sem excessos e risco sistêmico baixo, segundo o banco.

Lara Rizério

Gráfico sobre investimentos do Brasil (Foto: Adobe Stock)
Gráfico sobre investimentos do Brasil (Foto: Adobe Stock)

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O temor de parte do mercado em relação a uma possível recessão no Brasil em 2027 ainda não encontra respaldo nos dados históricos do mercado acionário brasileiro. É o que conclui um novo estudo do Bradesco BBI, que analisou mais de três décadas de informações macroeconômicas e de mercado para desenvolver um modelo capaz de antecipar crises econômicas e financeiras no país.

Segundo o banco, a probabilidade de uma crise ter início nos próximos 12 meses é de apenas 0,5%, bem abaixo da média histórica de 11%.

Batizado de “Two Clocks, One Alarm” (“Dois relógios, um alarme”), o relatório elaborado pelos estrategistas Pedro Grimaldi e Ben Laidler testou a capacidade de diversos indicadores de prever recessões e períodos de estresse. A base do estudo reuniu informações mensais entre 1995 e 2026, abrangendo 1.419 ações listadas na bolsa brasileira, incluindo empresas que já fecharam capital ou deixaram de existir.

A principal conclusão é que crises no Brasil raramente chegam sem aviso prévio. Segundo o banco, os sinais mais importantes costumam surgir na combinação entre indicadores de valuation e de expansão do crédito, complementados por gatilhos de curto prazo, como aumento do risco-país e deterioração da amplitude do mercado.

“Os ingredientes para uma crise sistêmica simplesmente não estão presentes neste momento”, afirmam os estrategistas.

O que torna o cenário atual diferente

Na avaliação dos estrategistas do BBI, a principal diferença entre o momento atual e períodos que antecederam crises importantes, como a recessão de 2014, está no ciclo de crédito. O indicador de crédito em relação ao PIB, apontado pelo estudo como um dos melhores antecedentes de crises, encontra-se atualmente em território negativo, muito distante dos níveis observados antes dos episódios mais severos do passado.

Além disso, o banco argumenta que o mercado brasileiro continua negociando a preços atrativos. O CAPE, métrica que ajusta os lucros ao longo do ciclo econômico, está 1,4 desvio-padrão abaixo da média histórica. Já as small caps seguem deprimidas, situação oposta ao comportamento típico dos momentos de euforia que costumam preceder crises.

O relatório também destaca que o Brasil permanece entre os mercados mais baratos do mundo, oferecendo uma margem de segurança para os investidores.

Apesar da visão positiva, o Bradesco BBI identifica alguns pontos de atenção, destacando como principal a inadimplência das famílias, que segue elevada e em trajetória de alta. Outro fator monitorado é a baixa participação das ações na tendência positiva do mercado, um sinal técnico que indica fragilidade interna da bolsa.

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Ainda assim, os estrategistas ressaltam que esses fatores, isoladamente, não são suficientes para indicar uma crise iminente. Segundo o modelo, seria necessário observar uma deterioração persistente dos indicadores ligados ao crédito e aos gatilhos de curto prazo para que o risco aumentasse de forma relevante.

Um dos achados mais relevantes do estudo é o papel do setor bancário como indicador antecedente de crises. O BBI verificou que o múltiplo preço sobre valor patrimonial (P/B) dos bancos apresentou capacidade preditiva superior à do mercado como um todo, elevando significativamente a precisão do modelo.

A análise mostra que os retornos sobre patrimônio projetados para os bancos atingiram níveis muito elevados antes da crise financeira global de 2008, refletindo um excesso de otimismo. Hoje, porém, a situação é inversa: as expectativas para o setor já incorporam boa parte do estresse do crédito, reduzindo o risco de uma surpresa negativa sistêmica.

Exposição mantida

Diante desse cenário, o Bradesco BBI reafirmou sua recomendação overweight (exposição acima da média, equivalente à compra) para o Brasil, classificando o país como sua principal aposta entre os mercados latino-americanos.

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O banco avalia que investidores ainda subestimam o potencial de valorização decorrente do ciclo de juros e das perspectivas para o ambiente político-eleitoral à frente.

A instituição acrescenta que a recente melhora dos lucros corporativos, a redução das saídas de recursos dos fundos locais e um posicionamento mais neutro dos investidores estrangeiros podem ampliar a sensibilidade da bolsa a novos fluxos de capital externo.

Por isso, o portfólio recomendado pelo banco permanece concentrado em empresas ligadas à queda dos juros, beneficiárias da atividade do mercado de capitais e estatais, combinadas com teses de crescimento estrutural e de geração de dividendos.

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Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.