Entenda “guerra” Fla X Palmeiras: por que clubes vivem em rota de colisão desde 2025

Troca de notas sobre arbitragem é apenas o capítulo mais recente de uma disputa que já envolveu embates entre Bap e Leila Pereira, a Libra, gramado sintético, a SAF do Vasco e os rumos do futebol brasileiro

Agência O Globo

Foto: Adriano Fontes/Flamengo
Foto: Adriano Fontes/Flamengo

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A nota oficial divulgada pelo Flamengo neste sábado, em que o clube afirmou existir uma “percepção” de favorecimento da arbitragem ao Palmeiras e cobrou maior responsabilização dos árbitros, não representa um episódio isolado. O comunicado é o mais novo capítulo de uma disputa institucional que se intensificou desde 2025 e transformou a rivalidade entre os dois clubes em um embate permanente também nos bastidores.

Nos últimos dois anos, além da disputa pelos principais títulos do país, Flamengo e Palmeiras passaram a trocar críticas públicas por meio de notas oficiais, entrevistas e manifestações sobre arbitragem, direitos comerciais, gramados sintéticos, governança do futebol e até questões empresariais envolvendo outros clubes.

O estopim mais recente surgiu após a vitória do Palmeiras por 4 a 0 sobre o Vitória, na última quarta-feira, pelo Campeonato Brasileiro. A partida ficou marcada por decisões da arbitragem, especialmente a expulsão de dois jogadores do clube baiano ainda no primeiro tempo. A atuação do árbitro Alex Gomes Stefano e do VAR, comandado por Marco Aurélio Augusto Fazekas Ferreira, provocou forte reação do Vitória e repercutiu nacionalmente.

Na sexta-feira, o Palmeiras publicou uma nota oficial em defesa da arbitragem. Sem citar diretamente seus rivais, o clube afirmou que falsas narrativas estavam sendo criadas para pressionar os árbitros em partidas da equipe e declarou que sua capacidade de competir em alto nível “incomoda”. Também pediu que fossem respeitadas as decisões da arbitragem e criticou o que chamou de tentativas de influenciar futuras escalas e julgamentos.

A resposta rubro-negra veio menos de 24 horas depois. Em um comunicado de mais de três mil caracteres, o Flamengo afirmou que há entre torcedores, profissionais do futebol e parte da opinião pública a percepção de que o Palmeiras vem sendo “reiteradamente beneficiado” por decisões da arbitragem. O clube utilizou estatísticas produzidas pelo Espião Estatístico, do ge, para argumentar que o adversário acumula, desde a implantação do VAR em 2020, o maior saldo positivo de decisões revisadas entre os principais clubes brasileiros.

 O Flamengo também citou números do Campeonato Brasileiro de 2026 para reforçar sua argumentação. Segundo o clube, o Palmeiras figura entre as equipes que mais precisam cometer faltas para receber cartões amarelos, enquanto seus adversários aparecem entre os que mais são advertidos quando enfrentam o líder da competição. O comunicado ainda defende que árbitros sejam responsabilizados por erros capazes de influenciar diretamente a classificação do campeonato, a disputa por títulos, vagas em competições internacionais e até o rebaixamento.

Uma rivalidade que saiu do campo

Apesar do novo atrito girar em torno da arbitragem, a rivalidade institucional entre os dois clubes começou a ganhar contornos mais duros em 2025. Naquele ano, Flamengo e Palmeiras passaram a divergir praticamente em todos os principais debates do futebol nacional, como a criação da liga, a negociação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, a distribuição de receitas, a relação com a CBF e o uso de gramados sintéticos. A cada novo desacordo, as divergências deixavam os bastidores para serem expostas publicamente.

 Um dos episódios mais marcantes ocorreu em setembro de 2025, quando o Flamengo conseguiu uma liminar na Justiça suspendendo temporariamente o repasse de cerca de R$ 77 milhões da Libra aos clubes integrantes do bloco. A decisão provocou forte reação do Palmeiras, que publicou uma das notas oficiais mais duras da rivalidade. No texto, o clube paulista classificou a postura do Flamengo como “predatória”, “torpe” e “arrogante”, além de acusar o rival de tentar “asfixiar financeiramente” os demais associados para obter vantagens nas negociações comerciais.

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O comunicado do Palmeiras afirmava ainda que a diretoria rubro-negra agia de maneira incompatível com o espírito coletivo que motivou a criação da Libra e lembrava que o Flamengo havia se recusado, meses antes, a aderir a um manifesto da liga em defesa do combate ao racismo no futebol sul-americano. Dias depois, a própria Libra divulgou uma nota rebatendo os argumentos apresentados pelo clube carioca e defendendo a condução do processo de negociação dos direitos comerciais.

As divergências em torno da liga continuaram ao longo dos meses seguintes. Em 2026, o Palmeiras anunciou sua saída da Libra, alegando discordâncias em relação ao modelo de governança e ao rumo das negociações dos direitos de transmissão. Embora a decisão tenha sido justificada oficialmente por diferenças de entendimento sobre o projeto, ela aprofundou ainda mais o distanciamento entre as diretorias de Palmeiras e Flamengo, que passaram a defender modelos distintos para a organização comercial do Campeonato Brasileiro.

A escalada dessa tensão coincidiu com a chegada de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, à presidência do Flamengo. Desde que assumiu o cargo, no início de 2025, o dirigente adotou um discurso mais confrontador em relação ao Palmeiras e à própria Libra. Em entrevistas, passou a questionar a forma como as decisões eram tomadas dentro do bloco e sugeriu que havia influência excessiva do clube paulista nas negociações envolvendo o futebol brasileiro.

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Em outubro do ano passado, Bap chegou a afirmar que a Libra era “palmeirense”, em referência ao protagonismo do clube nas discussões sobre a futura liga. Na mesma ocasião, ironizou sua relação com Leila Pereira ao declarar que ela era “ótima quando você concorda com tudo que ela quer”. A fala teve ampla repercussão entre dirigentes e marcou uma mudança de tom nas relações entre os clubes.

Leila Pereira respondeu em diversas oportunidades. Em maio deste ano, afirmou que Bap tinha uma “alucinação pelo Palmeiras” e que o dirigente parecia falar mais do clube paulista do que do próprio Flamengo. Em outra ocasião, chegou a dizer que o presidente rubro-negro tinha um “hiperfoco” nela e no Palmeiras, sugerindo que boa parte das manifestações públicas do dirigente eram motivadas pela rivalidade entre os clubes.

Indiretas após a demissão de Filipe Luís

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Em março deste ano, um dia após a demissão de Filipe Luís do comando do Flamengo, Leila Pereira comentou o caso durante entrevista antes da final do Campeonato Paulista. Embora tenha evitado criticar diretamente o clube carioca, classificou como uma “falta de respeito absurda” a demissão de profissionais “no calor dos acontecimentos”, fazendo referência ao fato de o Flamengo ter anunciado a saída do treinador ainda durante a madrugada. Também afirmou que muitos dirigentes tomam decisões para “jogar para a torcida” ou “ficar bonito para alguns jornalistas”.

Questionada na mesma entrevista sobre uma publicação feita horas antes, em que escreveu que, no Palmeiras, os profissionais têm “tranquilidade para trabalharem”, Leila negou que a mensagem fosse uma indireta ao Flamengo. A dirigente afirmou que o objetivo era apenas destacar o ambiente de trabalho oferecido pelo clube e disse procurar transmitir estabilidade aos atletas e à comissão técnica. Apesar da explicação, a postagem e as declarações foram amplamente associadas à demissão de Filipe Luís pelo momento em que ocorreram e alimentaram mais um capítulo da rivalidade entre as diretorias.

Outro tema que alimentou a rivalidade foi o uso de gramados sintéticos. Em dezembro de 2025, o Flamengo apresentou à CBF uma proposta para extinguir gradualmente esse tipo de superfície na Série A. O Palmeiras reagiu imediatamente. Leila classificou a iniciativa como “clubista”, acusou o rival de disseminar informações falsas sobre o tema e afirmou que, antes de criticar o gramado artificial, o Flamengo deveria se preocupar com a qualidade do gramado do Maracanã.

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A dirigente também defendeu que não existem evidências científicas capazes de comprovar maior incidência de lesões em campos sintéticos e sustentou que o Allianz Parque atende aos padrões exigidos pelas entidades que organizam o futebol.

A SAF do Vasco ampliou o conflito

A disputa ganhou um ingrediente inesperado quando surgiu a possibilidade de Marcos Lamacchia, enteado de Leila Pereira, participar das negociações para a compra da SAF do Vasco. O assunto rapidamente extrapolou o mercado e virou mais um capítulo da rivalidade entre as diretorias.

Bap afirmou que, caso a operação fosse concluída, o Flamengo estudaria medidas judiciais por entender que poderia haver conflito de interesses caso pessoas do mesmo núcleo familiar passassem a exercer influência sobre clubes que disputam as mesmas competições nacionais.

Leila reagiu imediatamente. Negou qualquer participação na negociação envolvendo o enteado, afirmou que o presidente do Flamengo “não vê a hora” de sua saída do Palmeiras e chegou a dizer que avaliava processá-lo pelas declarações.