Inflação da alta renda roda acima do IPCA, diz índice inédito da Zeom

Os novos indicadores mostram que famílias com renda entre R$ 30 mil e R$ 100 mil enfrentam uma inflação bem acima da captada pelo IPCA, puxada por saúde, restaurantes, aluguel e eletrônicos

Mariana Amaro

Mansão e carrão: símbolos de riqueza (Foto: Unplash)
Mansão e carrão: símbolos de riqueza (Foto: Unplash)

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A Zeom, uma fintech fundada por brasileiros e sediada em Londres, decidiu medir uma inflação que os índices tradicionais não conseguem enxergar direito: a das famílias de alta renda no Brasil.

A empresa passa a divulgar mensalmente dois novos indicadores construídos com apoio de inteligência artificial: o Índice de Alto Padrão, que acompanha exclusivamente bens e serviços característicos desse público, e o Índice de Custo de Vida, que incorpora também despesas mais amplas, como energia, combustíveis e telefonia. Ambos focados nas famílias com renda mensal entre R$ 30 mil e R$ 100 mil.

Na primeira leitura, compartilhada com a equipe do InfoMoney, os números sugerem uma dinâmica de preços bastante diferente da registrada pelos índices oficiais.

Nos últimos 12 meses, o Índice Zeom de Alto Padrão acumulou alta de 8,1%, contra 4,6% do IPCA no mesmo período. Já o Índice Zeom de Custo de Vida avançou 6,3%. Na prática, isso indica que famílias de alta renda vêm enfrentando uma pressão inflacionária superior à média da economia.

Segundo a companhia, a diferença não está apenas na composição da cesta de consumo, mas principalmente nos preços efetivamente pagos por esse grupo. “Nosso ponto de partida era entender se bastava alterar a composição da cesta de consumo para explicar a diferença em relação ao IPCA,” disse Rafael Pereira, cofundador da Zeom. “Quando aplicamos os pesos das famílias de maior renda às séries oficiais, percebemos que a diferença era pequena. A principal descoberta do estudo está nos preços efetivamente pagos por esse público.”

Foi a partir dessa constatação que a empresa desenvolveu uma infraestrutura proprietária para reconstruir a evolução do custo de vida da alta renda desde janeiro de 2018.

Metodologia

A metodologia combina pesos da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF/IBGE) com informações obtidas em bases públicas e auditáveis — entre elas IBGE, ANS, Fipe e FipeZap — além de séries históricas monitoradas continuamente por inteligência artificial. A plataforma, segundo a Zeom, acompanha milhares de preços públicos, valida automaticamente as informações e preserva a comparabilidade dos produtos ao longo do tempo.

O histórico reforça que o descolamento em relação ao IPCA não é pontual.

Desde janeiro de 2018, o Índice Zeom de Alto Padrão acumula alta de 83,5%, enquanto o IPCA avançou 55,2%. Em termos práticos, uma família que precisava de R$ 100 mil por mês para manter seu padrão de vida em 2018 precisaria hoje de cerca de R$ 183,5 mil para consumir o mesmo conjunto de bens e serviços. Pela inflação oficial, esse valor estaria em aproximadamente R$ 155,2 mil — uma diferença próxima de R$ 28 mil por mês.

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O estudo também acompanha o comportamento do chamado público de Alta Renda, definido como o 1% mais rico do país, com rendimento superior a R$ 60 mil mensais. Segundo a Zeom, os resultados mostram que a pressão de preços é semelhante dentro das diferentes faixas desse universo, ainda que as cestas de consumo não sejam idênticas.

Entre os itens que mais pressionaram o custo de vida desde 2018 estão os planos de saúde de alto padrão, com alta acumulada de 145,5%; os restaurantes, com avanço de 92,4%; os aluguéis residenciais em São Paulo, que subiram 80,5%; e o preço nominal do iPhone de entrada, que dobrou no período.

Em comum, diz a empresa, esses mercados têm dinâmica própria de formação de preços e peso relevante no orçamento das famílias mais ricas — o que ajuda a explicar por que os índices gerais acabam subestimando a inflação sentida por esse grupo.

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A Zeom afirma que o objetivo não é substituir os indicadores oficiais, mas adicionar uma nova camada de leitura sobre o custo de vida no País.

Os relatórios do Zeom Research serão publicados sempre após a divulgação do IPCA pelo IBGE e trarão, além dos dois índices, análises por categoria, comparações entre perfis de renda e séries históricas.

“O IPCA continua sendo a principal referência para medir a inflação da economia brasileira,” disse Rafael. “O que mostramos é que diferentes perfis de renda convivem com dinâmicas próprias de formação de preços”, finaliza.

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Mariana Amaro

Jornalista com experiência na cobertura de negócios e empreendedorismo. Apresenta o podcast Do Zero ao Topo