Você provavelmente é mais rico do que pensa. E isso é um problema

Se você quitou um imóvel e fez uma reserva financeira, talvez já pertença aos 5% mais ricos do país. A notícia não é tão boa quanto parece

Daniel Carraretto

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Se eu te perguntar quanto é preciso ter para fazer parte dos 5% mais ricos do Brasil, qual número vem à sua cabeça? R$ 10 milhões? R$ 5 milhões? A resposta real é bem mais desconfortável: cerca de R$ 550 mil em patrimônio líquido.

Os dados vêm do Relatório Global de Riqueza do UBS, com base no fim de 2025. E eles contam uma história que pouca gente quer encarar.

A mediana do patrimônio dos adultos brasileiros é de aproximadamente US$ 6 mil, algo em torno de R$ 33 mil ao câmbio atual. Isso significa que metade da população adulta do país, somando imóveis, veículos, investimentos e dinheiro em conta e descontando as dívidas, possui menos do que isso. Subindo um pouco a régua, cerca de 69% dos adultos brasileiros têm patrimônio inferior a R$ 55 mil.

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Agora aplique essa régua a você. Com R$ 55 mil em patrimônio, você já está no terço superior da distribuição. Com cerca de R$ 210 mil, entra no grupo dos 10% mais ricos. Ao atingir R$ 550 mil — aproximadamente US$ 100 mil — passa a integrar os 4,4% dos brasileiros que superam essa marca. O 1% mais rico começa em torno de R$ 2 milhões. Já o seleto clube dos milionários em dólar — cerca de R$ 5,5 milhões — reúne apenas 386 mil pessoas, ou 0,3% da população de um país com mais de 200 milhões de habitantes.

Um exemplo ajuda a dimensionar esses números. Uma família de classe média que quitou um apartamento de R$ 400 mil e mantém R$ 150 mil aplicados em renda fixa já está, estatisticamente, entre os 5% mais ricos do Brasil. Sem carro importado, sem viagens em primeira classe e, provavelmente, sem jamais se considerar rica.

A comparação internacional torna esse contraste ainda mais evidente. Nos Estados Unidos, existem 23,6 milhões de milionários em dólar — quase um para cada onze adultos. No Brasil, a proporção é de aproximadamente um para cada quatrocentos. A mediana do patrimônio do americano gira em torno de US$ 69 mil, o equivalente a mais de R$ 380 mil. Em outras palavras, o patrimônio do americano mediano seria suficiente para colocá-lo entre os 10% mais ricos do Brasil. Enquanto 1,5% dos adultos do mundo são milionários em dólar, no Brasil essa proporção é de apenas 0,3%.

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A conclusão imposta por esses números é desconfortável para o debate público brasileiro: o problema do país não é o excesso de ricos, mas a escassez deles. Quando ouvimos propostas para aumentar a tributação sobre “os mais ricos”, vale perguntar quem realmente faz parte desse grupo. Na prática, os 5% do topo raramente são donos de iates. Em grande medida, são famílias de classe média que passaram décadas poupando, quitaram um imóvel e conseguiram formar uma reserva financeira.

Há ainda outro dado que merece atenção. Os Painéis Públicos do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) de 2026 mostram que o topo do ranking de patrimônio médio por profissão é dominado por carreiras ligadas ao Estado. Titulares de cartório lideram com patrimônio médio de R$ 3,28 milhões, seguidos por membros do Judiciário e do Ministério Público. Empreendedores e produtores aparecem apenas depois. Em uma economia saudável, a riqueza tende a nascer da produção, da inovação e do investimento. Quando ela se concentra ao redor do aparato estatal, há sinais claros de distorção.

Para o investidor, ficam duas lições práticas. A primeira é que patrimônio se constrói com disciplina e constância. Como a maior parte dos brasileiros acumula muito pouco, cada real poupado e investido faz você avançar na distribuição patrimonial mais rapidamente do que imagina.

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A segunda é que estar entre os mais ricos do Brasil diz pouco sobre riqueza em termos internacionais. O padrão de comparação do país continua baixo. Por isso, diversificar parte do patrimônio no exterior não é um luxo reservado aos milionários. É uma estratégia para construir riqueza em moeda forte e participar de economias mais produtivas, em vez de apenas ocupar uma posição elevada em um país que ainda acumula pouco patrimônio.

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Daniel Carraretto

Daniel Carraretto é consultor de Investimentos CFP® e sócio do Multi Family Office Zanella Wealth, com mais de R$ 2 bilhões sob gestão. Tem mais de 18 anos de experiência e gerencia o patrimônio financeiro de famílias de alta renda. Foi reconhecido pela Anbima com uma das principais vozes sobre investimentos no Brasil, com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram (@danielcarraretto)