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O Brasil parece um carro de corrida preso no acostamento da própria história. O motor ruge como um V10 em Interlagos, o combustível é abundante, a pista é longa, mas o país continua parado, queimando pneus e fazendo fumaça para impressionar a arquibancada. Falta potência? Não. Falta coragem para soltar o freio de mão.
Talvez essa seja a metáfora mais dolorosa de 2026. Enquanto o mundo acelera, o Brasil continua discutindo se é perigoso demais tirar o pé do freio. É como se Ayrton Senna tivesse passado a vida inteira ouvindo um burocrata explicar que ultrapassar na chuva exige autorização em três vias, reconhecimento de firma e parecer de um conselho regulador.
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O Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation apenas confirmou o óbvio que insistimos em não enxergar. O Brasil caiu para a 134ª posição entre 176 países. É o 28º entre os 32 países das Américas e registra sua pior nota em anos. Não é apenas um ranking. É um exame de consciência.
A ironia é cruel. A Argentina, que durante décadas foi o carro quebrado da vizinhança, resolveu trocar o motor e acelerar. Tornou-se o país que mais avançou no índice em 2026. Nós, especialistas em comentar o acidente alheio, continuamos debatendo se vale a pena destravar as próprias rodas.
A prova está no cotidiano. Abrir uma empresa no Brasil exige mais resistência emocional do que talento. Investir exige mais coragem do que capital. Produzir virou uma peregrinação por licenças, certidões, alvarás e interpretações contraditórias.
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Em vez de preparar a pista para que a sociedade corra, insistimos em ocupar o cockpit, segurar o volante e distribuir instruções para todos os pilotos. O resultado é previsível: a corrida atrasa, os competidores desistem e o público vai embora sem entender por que o espetáculo fracassou.
Os números escancaram esse desequilíbrio. O gasto público equivale a quase metade do PIB, o déficit permanece elevado e a dívida se aproxima de 80% do PIB. Nenhum país enriquece consumindo mais riqueza do que produz. Não existe truque contábil capaz de transformar endividamento em prosperidade.
O Brasil possui praticamente tudo o que as grandes economias gostariam de ter: território, população, recursos naturais e uma capacidade impressionante de inovar apesar das dificuldades. Imagine o que poderíamos fazer quando começarmos a inovar sem elas.
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A 134ª posição da Heritage não define quem somos. Apenas revela as escolhas que fizemos até aqui. E escolhas, ao contrário do destino, podem ser revistas.
O Brasil continua conduzindo uma das economias mais fechadas do Ocidente. Mantemos uma tarifa média de 5,8%, convivemos com mais de 600 barreiras não tarifárias e nossa corrente de comércio representa apenas cerca de 30% do PIB.
Somos um país que parece disputar uma corrida com os boxes fechados, enquanto os adversários já completaram várias voltas. Depois reclamamos da velocidade.
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Pagamos esse isolamento diariamente: produtos mais caros, menos inovação e menor produtividade. Empresas protegidas da concorrência tornam-se como filhos que nunca saem da casa dos pais: envelhecem sem amadurecer.
No crédito, repetimos o mesmo roteiro. Mais da metade do financiamento ao setor privado continua passando pelos bancos públicos. É uma corrida em que a direção da prova decide quem larga na frente, quem recebe combustível e quem deve esperar nos boxes. Não existe competição verdadeira quando alguém distribui vantagens antes mesmo da largada.
Não por acaso, nossa liberdade de investimento e nossa liberdade financeira permanecem estacionadas em apenas 40 pontos.
Resta, portanto, fazer o mais difícil para um país que passou décadas confundindo proteção com isolamento: abrir a pista.
A boa notícia é que não precisamos inventar o caminho. Ele já foi percorrido por quem decidiu crescer. Abrir a economia, derrubar barreiras, simplificar regulações, devolver espaço ao investimento privado e confiar mais na concorrência do que na proteção estatal não é uma aventura liberal. É o manual de instruções das economias mais prósperas do planeta.
Os países que chegaram ao pódio entenderam uma verdade simples: ninguém melhora um carro mantendo-o eternamente dentro da oficina. É preciso colocá-lo na pista, enfrentar a competição e evoluir a cada volta.
Livre mercado não significa uma corrida sem regras. Significa uma corrida com regras claras, em que o vencedor não é escolhido pelo organizador, mas pelo talento, pela eficiência e pela capacidade de entregar o melhor resultado.
Por isso, subir no Índice de Liberdade Econômica não é conquistar uma medalha. É retirar o peso desnecessário de um carro que nasceu para ser veloz. O índice mede apenas uma coisa: quantos quilos de Estado ainda repousam sobre o capô da economia.
Ayrton Senna dizia que correr, competir, estava no seu sangue. Mas nenhum piloto genial vence uma corrida com o freio de mão puxado, quatro passageiros no porta-malas e alguém segurando o volante do banco de trás.
É justamente isso que o Brasil precisa construir: um ambiente em que as decisões econômicas sejam guiadas por evidências, em que o Congresso tenha acesso a informações de qualidade, em que o diálogo com quem produz ajude a revelar os problemas reais da pista e em que instituições independentes façam a ponte entre conhecimento e políticas públicas.
Porque a burocracia já tem seus engenheiros. Os privilegiados já têm seus estrategistas. Há décadas.
A defesa do livre mercado existe justamente para mudar essa lógica. Não para escolher quem deve vencer a corrida, mas para garantir que todos possam competir. Não para entregar vantagens a alguns pilotos, mas para retirar os obstáculos que impedem novos talentos de chegar à pista.
Um país próspero não é aquele em que o fiscal segura o volante. É aquele em que a pista é segura, as regras são claras e o melhor piloto pode vencer.
Falta apenas o que sempre faltou: a coragem de escolher a liberdade.