IA devoradora de estrelas? Kinea questiona se US$ 1 tri investido terá mesmo retorno

Para a gestora, a dúvida não é se a inteligência artificial vai gerar valor, mas em qual camada da cadeia esse valor será capturado. E a resposta varia bastante conforme o elo analisado

Leonardo Guimarães

(Divulgação)
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Se há alguns anos havia quem duvidasse da utilidade da inteligência artificial, hoje já existem argumentos suficientes para mostrar que a tecnologia é, mesmo, revolucionária. Mas se consumidores já estão convencidos, os investidores ainda têm muitas perguntas sobre a capacidade das empresas que desenvolvem ferramentas de IA de transformar aportes bilionários em retornos consistentes. 

O ciclo de investimentos em IA se aproxima de US$ 1 trilhão por ano, enquanto as receitas ligadas direta ou indiretamente à tecnologia somam algo em torno de US$ 120 bilhões anualizados, segundo estimativas da Kinea Investimentos. 

Em relatório, a gestora se propõe a responder se as empresas do setor vão conseguir monetizar esses investimentos ou se vão apenas consumir caixa sem devolver dinheiro aos acionistas. “Os consumidores ganham ferramentas melhores, mas o acionista precisa responder à pergunta mais difícil: quem vai pagar a conta e quem ficará com os retornos?”, questiona a Kinea.

No documento, a gestora faz uma analogia entre o setor de IA e “Devoradores de Estrelas”, filme em que um microrganismo consome a energia do Sol. Para a Kinea, o paralelo descreve o momento atual: “a IA está consumindo o caixa das empresas de tecnologia e dos investidores”.

Onda de investimentos

O ciclo de investimentos nasceu da combinação de duas inovações, segundo o relatório: o uso massivo de GPUs – chips capazes de realizar milhares de cálculos complexos e simultâneos, considerados os motores da IA – e a arquitetura Transformer, apresentada em um artigo científico do Google em 2017. 

A dupla permitiu que os modelos de linguagem crescessem em ritmo acelerado e criou uma espiral de gastos. “Modelos cada vez maiores exigem mais chips; mais chips exigem mais data centers; mais data centers exigem energia, refrigeração, memória e, consequentemente, capital”, resume a Kinea.

Os números dão a dimensão da espiral. Apenas as quatro maiores fornecedoras de computação em nuvem – Amazon, Alphabet, Microsoft e Meta, as chamadas hyperscalers — devem investir cerca de US$ 900 bilhões em 2027, calcula a gestora. 

Somando Oracle e os novos entrantes, o ciclo ultrapassa US$ 1 trilhão e já é “de longe, uma das maiores ondas de investimento corporativo da história moderna”. Desde setembro de 2025, quando a Kinea publicou outro relatório sobre o tema, as previsões de investimento para 2026 subiram em quase US$ 300 bilhões.

Quem captura o valor?

Para a gestora, a dúvida não é se a inteligência artificial vai gerar valor – programação já mostra ganhos de produtividade, e o efeito começa a aparecer em finanças, advocacia, contabilidade e atendimento ao cliente –, mas em qual camada da cadeia esse valor será capturado. E a resposta varia bastante conforme o elo analisado.

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Na camada dos modelos – das empresas que criam os sistemas de IA – o risco apontado é de comoditização: as trocas de liderança são frequentes e os modelos de código aberto chineses, como DeepSeek e Qwen, encurtaram a distância para os líderes, derrubando o preço médio cobrado pelo uso da tecnologia nos últimos meses. 

Nesse ambiente, diz a Kinea, empresas fora da liderança “podem continuar crescendo muito em receita e ainda assim ter dificuldade de gerar retorno adequado”. 

A gestora vê uma exceção: a Anthropic, dona do Claude, que viu sua receita saltar de cerca de US$ 9 bilhões no fim de 2025 para a casa dos US$ 70 bilhões, segundo a YipitData. “A mensagem do mercado é clara: é Anthropic ou nada”, afirma a Kinea.

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Nas hyperscalers, o problema é outro. A computação em nuvem, que funcionava como um oligopólio rentável de Amazon, Microsoft e Google, ganhou novos concorrentes: Oracle, CoreWeave, Nebius e xAI. E a oferta pode crescer mais rápido que a demanda. 

Além disso, o investimento vem antes da receita: estimativas de mercado citadas no documento apontam queda relevante na geração de caixa das big techs em 2026, com a Amazon possivelmente em terreno negativo. 

A CoreWeave ilustra o problema: a receita cresceu cerca de 170% em 2025, para US$ 5,1 bilhões, mas a empresa registrou prejuízo líquido de US$ 1,2 bilhão no ano. “Se os modelos são a camada mais sujeita à comoditização tecnológica, os hyperscalers podem ser a mais exposta à comoditização do capital”, diz a gestora.

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É na infraestrutura física – chips, memória, energia, refrigeração e equipamentos para fabricação de semicondutores – que a Kinea enxerga o elo mais forte da cadeia. Isso porque, enquanto modelos e provedores de nuvem precisam provar que vão monetizar os investimentos no futuro, os fornecedores de infraestrutura recebem o dinheiro hoje. 

A demanda por computação cresceu mais rápido do que a capacidade de resposta da indústria, e o resultado é alta de preços em praticamente todos os gargalos. A memória é o exemplo citado no relatório, com expansão de margens e melhora de retorno no setor. “Vendem para a corrida, capturam os gargalos e se beneficiam da inflação de capacidade”, escreve a gestora, que reconhece, porém, o risco de reversão caso a oferta chegue rápido demais ou a monetização da IA decepcione.

Quem será devorado?

“Cedo ou tarde, ou a receita acelera, ou aparecerão perdedores em alguma camada da cadeia”, afirma a Kinea, que diz preferir posições nos gargalos “que já capturam o caixa do sistema” a apostas em modelos e provedores de nuvem, onde o retorno segue incerto.

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“A pergunta final não é se a IA será importante. Ela será”, conclui o documento. “A pergunta é: quem vai capturar o valor e quem será devorado no caminho?”