Oncoclínicas (ONCO3): quais os impactos da recuperação extrajudicial para acionistas?

Oncoclínicas aprovou nesta semana pedido de recuperação extrajudicial para dívidas de R$ 5,1 bi

Felipe Moreira

Ativos mencionados na matéria

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A Oncoclínicas (ONCO3), que atravessa um período de forte pressão financeira e vem adotando medidas jurídicas, financeiras e estratégicas para preservar liquidez e manter a continuidade operacional, protocolou um pedido de reestruturação extrajudicial para reorganizar cerca de R$ 5,1 bilhões em dívidas financeiras.

A proposta pode incluir aporte de capital pelos acionistas, conversão de dívida em ações (debt-to-equity), substituição das obrigações atuais por novas dívidas e alongamento dos cronogramas de amortização.

Na avaliação do JPMorgan, o pedido de reestruturação busca resolver de forma estrutural os problemas de alavancagem e geração de caixa da companhia.

No entanto, embora as operações estejam sendo preservadas, especialmente os pagamentos a fornecedores, o banco avalia que o potencial de diluição para os atuais acionistas é significativo caso a empresa tenha sucesso nas negociações com os credores.

Nesse contexto, o JPMorgan afirma que a eventual participação da IG4, como especulado recentemente, pode facilitar as negociações e fornecer novo capital. Entretanto, a instituição destaca que a estrutura de debêntures conversíveis estaria sendo negociada dentro de um passivo de R$ 5,1 bilhões, enquanto o valor de mercado da companhia é inferior a R$ 1 bilhão.

Assim, mesmo uma solução bem-sucedida provavelmente exigirá concessões relevantes dos credores e poderá resultar em forte diluição dos acionistas atuais, segundo o banco.

Em resumo, o JPMorgan ressalta que os ativos da Oncoclínicas continuam tendo valor estratégico para o setor, dada sua escala em infusões oncológicas. Contudo, o banco acredita que pouco valor residual poderá sobrar para os acionistas da companhia após o equacionamento das obrigações financeiras.

Diante desse cenário, o JPMorgan mantém recomendação underweight (exposição abaixo da média, equivalente à venda) para as ações da companhia.

ONCO3: o que levou a essa situação?

Segundo a XP, a situação financeira da Oncoclínicas é resultado de uma combinação de fatores que pressionaram a geração de caixa e elevaram a alavancagem da companhia nos últimos anos.

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Entre os principais fatores está o ciclo agressivo de expansão, marcado por diversas aquisições de clínicas concorrentes e investimentos relevantes na construção de grandes hospitais. Esse movimento gerou um volume expressivo de compromissos financeiros futuros, incluindo pagamentos relacionados às aquisições, além de elevados custos com contratos de aluguel e operações built to suit (BTS).

A corretora também destaca que a rentabilidade da empresa foi impactada pela implementação, a partir do terceiro trimestre de 2024, de uma nova política comercial. A estratégia priorizou a redução da exposição a determinados planos e operadoras de saúde com prazos mais longos de recebimento, em uma tentativa de preservar o capital de giro. No entanto, a transição levou a uma menor escala operacional, reduzindo a diluição dos custos fixos e pressionando as margens.

Além disso, o cenário de juros elevados manteve as despesas financeiras em patamar elevado, superando a geração de caixa operacional e aumentando os desafios para o cumprimento das cláusulas financeiras (covenants) da dívida.

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A situação se agravou ainda mais com um evento de crédito envolvendo o Banco Master. A Oncoclínicas possuía mais de R$ 430 milhões aplicados em CDBs da instituição financeira e, com a liquidação extrajudicial do banco no fim de 2025, perdeu acesso imediato a esses recursos.

Parte dessa exposição, equivalente a R$ 217 milhões, já havia sido provisionada no terceiro trimestre de 2025, enquanto a exposição contábil líquida remanescente somava cerca de R$ 216 milhões.

Para a XP, a indisponibilidade desses recursos provocou uma deterioração abrupta da liquidez de curto prazo da companhia, reduzindo significativamente sua capacidade de absorver obrigações financeiras no curto prazo e adicionando pressão adicional sobre sua estrutura de capital.

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Resultados pressionados

No quarto trimestre de 2025, a Oncoclínicas apresentou resultados ainda pressionados pelos efeitos da reestruturação operacional e financeira. A receita líquida somou R$ 1,4 bilhão, queda de 12,6% na comparação anual, refletindo o encerramento do atendimento à Unimed FERJ e a adoção de uma política comercial mais seletiva, voltada à redução da exposição a operadoras com maior inadimplência e consumo de capital de giro. No acumulado do ano, a receita recuou 7,8%, para R$ 5,74 bilhões.

O EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) ajustado atingiu R$ 238,8 milhões no trimestre, com margem de 17,4%, enquanto o prejuízo líquido ajustado alcançou R$ 582,4 milhões. Em 2025, a companhia registrou prejuízo ajustado de R$ 945 milhões, impactado também pelas perdas relacionadas às aplicações no Banco Master, que totalizaram cerca de R$ 430,9 milhões ao longo do segundo semestre.

Apesar de um fluxo de caixa operacional positivo de R$ 510 milhões no trimestre, sustentado por antecipação de recebíveis e renegociação com fornecedores, a estrutura de capital permaneceu bastante pressionada. A alavancagem para fins de covenants alcançou 4,3 vezes ao final de 2025, acima do limite contratual, levando à reclassificação de grande parte das dívidas para o curto prazo.

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Com isso, a dívida bruta atingiu R$ 3,3 bilhões, dos quais aproximadamente 98% passaram a vencer no curto prazo, intensificando a pressão sobre a liquidez e levando a companhia a iniciar negociações com credores e buscar medidas judiciais de proteção.

Além disso, o auditor independente destacou incerteza relevante quanto à continuidade operacional da empresa, citando o prejuízo líquido consolidado de R$ 3,67 bilhões em 2025 e o capital circulante líquido negativo de R$ 2,3 bilhões ao fim do ano.