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O plano de recuperação extrajudicial da Oncoclínicas é mais um capítulo na crise financeira e de governança que vive a rede de clínicas oncológicas. A empresa tenta reestruturar um passivo de R$ 5,1 bilhões. No auge dos problemas, pacientes de câncer chegaram a ter atendimentos e sessões de quimioterapia, radioterapia e imunoterapia suspensos por falta de medicamentos. Agora, porém, a empresa descarta impactos aos usuários em meio ao processo de reestruturação financeira.
Ao todo, o plano inclui 795 credores. A lista de dívidas da rede de clínicas oncológicas inclui principalmente operações de financiamento via bancos e mercado de capitais, faturas em aberto com fornecedores de medicamentos e também valores relativos a fusões e aquisições, um dos caminhos que a empresa seguiu nos últimos anos para crescer.
Débitos vencidos
A recuperação não abrange custos operacionais atuais da rede de clínicas, ou seja, apenas débitos já vencidos com fornecedores de medicamentos e insumos foram incluídos no plano. Valores relativos a médicos, enfermeiros e outros funcionários também ficaram de fora. Desse modo, segundo a empresa, os atendimentos aos pacientes continuam normalmente durante o processo.
— A empresa ganha fôlego com a recuperação, que cobre só a dívida financeira, sem a operação do dia a dia. A empresa sinaliza ao mercado que continua funcionando, e que não quer repetir o que aconteceu em março — ressalta Caroline Sanchez, analista Caroline Sanchez, da Levante Inside Corp, lembrando quando, no auge da crise, os atendimentos aos pacientes que foram suspensos por falta de medicamentos.
A companhia formalizou o processo de reestruturação na segunda-feira. Em fato relevante enviado ao mercado ontem, a empresa destacou que credores donos de 37% da dívida abrangida aderiram ao plano.
Aprovação dos credores
O patamar é suficiente para a abertura do processo. Nos próximos 90 dias a empresa terá que alcançar a aprovação de 50% dos credores para que o plano de reestruturação seja homologado pela Justiça.
Juntos, a securitizadora Opea, a corretora Pentágono DTVM e a administradora de fundos Oliveira Trust concentram mais de R$ 3 bilhões em créditos. Já entre os fornecedores, a distribuidora de medicamentos OncoProd tem o maior montante a receber, R$ 1,02 bilhão, enquanto Santander, Itaú e Banco Votorantim se destacam entre as instituições financeiras.
A fatia de 37% das dívidas cujos credores já concordaram com o plano de recuperação é devida a três credores financeiros que operacionalizaram operações de financiamento à Oncoclínicas. A securitizadora Opea lidera a lista, com R$ 1,68 bilhão pela emissão de debêntures.
O Santander aparece em seguida, com R$ 114 milhões de um empréstimo concedido à rede oncológica. Há ainda um fundo de investimentos, representado pela Pentágono S.A DTVM, que é dono de R$ 64,8 milhões em debêntures da Oncoclínicas. Já com o Banco Votorantim, os débitos somam R$ 44, 3 milhões em títulos de dívida emitidos pela instituição financeira.
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‘Fatores internos e externos’
A recuperação extrajudicial foi a solução adotada pela empresa “antes que medidas individuais e descoordenadas por parte de credores pudesse agravar a situação econômico-financeira” da companhia, argumentou a Oncoclínicas no processo levado ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).
Entre as causas para a crise de caixa, a empresa elenca “fatores internos e externos”, como a expansão acelerada das atividades e a “deteriorização do ambiente macroeconômico”, como taxas de juros em patamar elevado.
O plano de recuperação, segundo a companhia, poderá envolver medidas como a injeção de recursos pelos acionistas, a conversão de parte das dívidas em ações da empresa, a renegociação de alguns dos débitos por novos empréstimos e a ampliação do prazo para pagamento aos credores.
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— O que foi proposto, na realidade, não são medidas específicas, mas um plano ainda a ser negociado com os credores e que deverá ser apresentado detalhadamente nos próximos 45 dias — explica Felipe Corrêa, sócio do escritório Basilio Advogados.
O grupo também informou que, como parte da reestruturação, rescindiu contratos que previam a abertura de uma clínica em São Paulo e a construção de um hospital em Goiânia.
Proteção
Em meados de junho, terminou o período de 60 dias de proteção contra credores que a companhia conseguiu na Justiça em abril, após divulgar que encerrou 2025 com um prejuízo de R$ 3,67 bilhões e com a dívida fora das condições previstas em contrato com os credores.
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O tolerado era uma alavancagem de até 3,5 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, imposto, depreciação e amortização). O indicador mostra o quanto uma empresa depende de dívida para financiar suas operações: quanto mais elevado, maior o risco financeiro. Na Oncoclínicas, a alavancagem ficou em 4,3 vezes.
Na época, direção da Oncoclínicas falou em “incerteza quanto à continuidade operacional”. Uma das causas citadas para o agravamento do quadro foi a inadimplência da Unimed Ferj, que somou R$ 861 milhões. Segundo a operadora, esse valor já foi negociado. Outro fator apontado foi a liquidação extrajudicial do Banco Master. Isso porque a empresa investiu cerca de R$ 478,2 milhões em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) do banco de Daniel Vorcaro.
— Houve eventos extraordinários como esses, mas também problemas de gestão, uma série de decisões ruins, um crescimento agressivo muito alavancado e uma dependência grande de poucas operadoras (de planos de saúde) — pondera Caroline, da Levante.
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Briga por oferta pública de ações
Paralelamente, acionistas minoritários pressionam por uma oferta pública de aquisição (OPA) de cerca de R$ 6 bilhões. O pedido é para obrigar a gestora americana Centaurus a pagar aos acionistas um valor superior a R$ 16 por ação, que hoje vale R$ 0,77 na Bolsa.
A origem do caso foi a reorganização da fatia do Goldman Sachs na Oncoclínicas, concluída em novembro de 2024. O fundo da Centaurus passou a deter mais de 15% da companhia, um dos gatilhos para a realização da OPA, segundo o estatuto da empresa.
Como mostrou a coluna Capital, do Globo, os técnicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) são contra a OPA, mas a decisão caberá ao colegiado do órgão.
— Se a CVM entender que a OPA precisa ser feita, isso não interfere na recuperação extrajudicial, e vice-versa, mas obviamente há um impacto financeiro, porque a empresa terá que encontrar recursos para pagar os minoritários — analisa o advogado João Basilio.


