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Durante décadas, o CDI ocupou um lugar central nas decisões de investimento no Brasil.
Em um país marcado por períodos de inflação elevada, sucessivas crises econômicas e juros historicamente altos, aplicações atreladas a esse indicador passaram a representar, para muitos investidores, o conceito de segurança.
Afinal, a ideia de que “o dinheiro está rendendo o CDI” tornou-se sinônimo de uma decisão prudente.
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Essa percepção não surgiu por acaso. Durante muitos anos, o cenário econômico brasileiro favoreceu aplicações pós-fixadas, que conciliavam baixa volatilidade com rentabilidades expressivas quando comparadas a outros mercados.
Nesse contexto, o CDI consolidou-se como uma importante referência para investidores e profissionais do mercado financeiro.
Nos últimos anos, no entanto, uma discussão ganhou espaço: será que um indicador amplamente utilizado para medir o desempenho de investimentos também pode ser considerado, por si só, um parâmetro adequado para objetivos de longo prazo?
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Recentemente, li um estudo escrito por Artur Wichmann, que propõe justamente essa reflexão ao analisar o conceito de “ativo livre de risco” sob a perspectiva do mercado brasileiro.
Mais do que questionar a importância do CDI, o estudo convida investidores a revisitar um conceito que, durante décadas, foi amplamente aceito no país.
Segurança vai além da baixa volatilidade
Quando se fala em risco, é comum que a primeira associação seja a oscilação dos preços. Um investimento que varia pouco tende a ser percebido como seguro, enquanto ativos sujeitos a maiores flutuações costumam ser vistos como mais arriscados.
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Essa lógica faz sentido em algumas situações, especialmente para quem pretende utilizar os recursos investidos no curto prazo. Nesse cenário, ativos pós-fixados continuam exercendo um papel relevante.
À medida que o horizonte de investimento aumenta, porém, outros fatores passam a influenciar a preservação do patrimônio.
Um dos principais é a inflação, medida no Brasil pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), indicador que acompanha a variação dos preços de bens e serviços consumidos pelas famílias.
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Quando a rentabilidade de um investimento não acompanha essa evolução dos preços, o patrimônio pode até crescer em valor, mas perder poder de compra ao longo do tempo.
Ou seja, o saldo da aplicação aumenta, mas a quantidade de bens e serviços que aquele dinheiro é capaz de comprar diminui.
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Foi justamente essa diferença entre crescimento financeiro e preservação do poder de compra que ganhou destaque em um dos períodos mais desafiadores da economia recente.
Um exemplo recente dessa discussão
O estudo utiliza o período da pandemia como um exemplo dessa mudança de perspectiva. Naquele momento, muitos investidores se sentiram seguros porque seus recursos estavam aplicados em investimentos que acompanhavam o CDI e apresentavam pouca oscilação.
Ao mesmo tempo, a inflação acelerou de forma significativa. Com isso, ficou evidente que ver o dinheiro render não significa, necessariamente, manter seu poder de compra.
Em alguns períodos, mesmo com saldo maior na conta, o rendimento dessas aplicações não foi suficiente para acompanhar o aumento dos preços da economia. Na prática, o patrimônio cresceu, mas passou a comprar menos.
Esse episódio mostrou que o risco de um investimento não está apenas na possibilidade de perdas ou oscilações, mas também na capacidade de preservar o valor do capital investido ao longo do tempo.
Concentração e diversificação
Essa forma de enxergar a segurança também influenciou a maneira como muitos investidores brasileiros construíram suas carteiras ao longo das últimas décadas.
À medida que o conceito de risco passou a incorporar também a preservação do poder de compra no longo prazo, ganhou força a discussão sobre a importância da diversificação.
Isso porque diferentes classes de ativos respondem de maneiras distintas aos ciclos econômicos, à inflação e às variações das taxas de juros.
Esse movimento não reduz a importância do CDI nem das aplicações pós-fixadas. A discussão proposta é outra: compreender que diferentes objetivos podem exigir diferentes formas de avaliar risco e segurança e, consequentemente, diferentes composições de carteira.
Uma reflexão que acompanha a evolução do mercado
O mercado financeiro está em constante transformação. Mudanças no ambiente econômico, nos ciclos de juros e no comportamento da inflação fazem com que conceitos consolidados sejam, periodicamente, revisitados.
A discussão sobre o papel do CDI como referência de segurança é um exemplo desse processo.
Não se trata de substituir um conceito por outro, nem de concluir que estratégias adotadas no passado estavam equivocadas. Trata-se de reconhecer que diferentes cenários econômicos exigem novas formas de analisar os mesmos temas.
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O objetivo desse texto é servir como ponto de partida para uma reflexão que vai além de um único indicador: como definir risco quando o objetivo é preservar o patrimônio ao longo do tempo?
Em educação financeira, fazer boas perguntas é tão importante quanto encontrar respostas. Rever conceitos, compreender o contexto econômico e acompanhar a evolução do mercado são exercícios que ajudam investidores a tomar decisões cada vez mais conscientes, independentemente do perfil ou da estratégia adotada.