A reflexão que a eliminação do Brasil na Copa deveria causar no país todo

Não adianta achar que é tudo obra do acaso e que só o talento vai ser o suficiente para que o Brasil continue ostentando o posto de maior campeão mundial

Danilo Lavieri

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A eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo não deveria provocar apenas cobranças por mudanças de treinador ou debates sobre escalações. O momento exige uma reflexão muito mais profunda sobre os rumos do futebol brasileiro.

Afinal, quando a próxima edição do torneio começar, em 2030, o país chegará a 28 anos sem conquistar o título mundial. É tempo suficiente para que uma geração inteira tenha crescido ouvindo histórias sobre o pentacampeonato, mas sem nunca testemunhar a seleção levantar a principal taça do esporte.

Parte dessa discussão passa inevitavelmente pela formação de jogadores. O Brasil continua produzindo atletas de enorme qualidade técnica, mas há um desequilíbrio evidente no perfil dos talentos que chegam ao futebol profissional.

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O país revela pontas em quantidade, mas praticamente deixou de formar o tradicional camisa 10, aquele jogador responsável por organizar o jogo. A lógica do mercado ajuda a explicar esse cenário. Cada vez mais cedo, jovens promessas são deslocadas para os lados do campo, posição que desperta maior interesse dos clubes europeus e facilita transferências milionárias.

A consequência aparece também em outras posições. O Brasil, que já foi referência mundial na produção de laterais ofensivos e centroavantes decisivos, hoje sofre para encontrar jogadores consolidados nessas funções. Não é apenas uma questão de geração ou azar. Há um modelo de formação que passou a privilegiar determinados perfis em detrimento de outros, reduzindo a diversidade técnica que sempre caracterizou o futebol brasileiro.

Essa perda de identidade também se reflete na maneira como o esporte é administrado. Clubes, federações e CBF frequentemente atuam com interesses isolados, como se o fortalecimento coletivo fosse incompatível com os objetivos individuais. O resultado é um ambiente fragmentado, no qual decisões importantes costumam priorizar ganhos imediatos em vez de um projeto de longo prazo para o futebol nacional.

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Uma liga nacional mais forte beneficiaria todos os envolvidos. Clubes financeiramente mais sólidos investem melhor em categorias de base, qualificam a formação de atletas, elevam o nível das competições e, naturalmente, ampliam o número de jogadores preparados para defender a seleção. O fortalecimento do futebol brasileiro passa por uma visão coletiva, e não apenas pela disputa permanente entre diferentes grupos de poder.

Também é necessário repensar o trabalho desenvolvido na própria seleção. Não existe garantia de sucesso apenas pela manutenção de um treinador durante todo o ciclo, mas a continuidade oferece condições para construir uma identidade, testar alternativas e compreender melhor o grupo de jogadores disponível. As seleções que chegam mais preparadas às Copas costumam apresentar processos consistentes, e não apenas boas ideias implementadas às pressas nos meses que antecedem o torneio.

A eliminação na Copa não pode ser tratada como um acidente de percurso ou apenas mais uma decepção esportiva. Ela deve servir como ponto de partida para uma discussão sobre formação, gestão e planejamento. O Brasil continua produzindo talentos capazes de competir com qualquer seleção do mundo. Transformar esse potencial em um time campeão, porém, depende de mudanças estruturais que vão muito além dos 90 minutos em campo.

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Danilo Lavieri

Danilo Lavieri é jornalista experiente em cobertura de esportes, especialmente em bastidores e negócios do mundo do futebol. Atualmente, é colunista do UOL e comentarista do Canal UOL, com passagens por Abril, iG e Máquina do Esporte, com direito a coberturas de três Copas e outras importantes competições de futebol de clubes e seleções.