Colunista InfoMoney: Corrosão do comércio mundial

É esperado um período de aumento do protecionismo em escala global, buscando a preservação de empregos
Os números de comércio externo da economia chinesa divulgados recentemente apontam os impactos advindos da crise – inicialmente financeira – sobre o comércio mundial. Sabe-se também que os ganhos de produtividade advindos do comércio mundial nos últimos anos (com grande destaque para a economia chinesa) foram responsáveis por permitir um longo período de crescimento do produto mundial concomitante com baixas taxas de inflação.

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A despeito disso, é esperado um período de aumento do protecionismo em escala global, buscando a preservação de empregos e, consequentemente, capital político que deverá diminuir a velocidade da retomada da economia global.

No mês de janeiro as exportações da China apresentaram recuo de 17,5% em relação ao número observado em 2008. Já as importações retraíram impressionantes 43,1%, também em relação ao mesmo período do ano anterior. Esses números mostram os impactos advindos da crise mundial sobre um dos principais motores do comércio mundial dos últimos tempos.

“A lentidão na retomada pode ser ainda maior caso o protecionismo aumente”

De um lado as exportações chinesas podem servir como uma espécie de termômetro sobre o apetite da economia global em relação aos produtos chineses – os quais contribuíram para um período de baixa inflação com alto crescimento econômico mundial (em parte garantido pelos baixos custos de produção naquele país: mão-de-obra barata e frouxas restrições ambientais).

De outro as importações estão vinculadas diretamente ao importante apetite chinês em relação ao que é produzido no resto do mundo, sobretudo por commodities – insumos para a sua produção.

Esse abalo no comércio chinês constata o que os preços das commodities já apontavam desde agosto de 2008: o comércio mundial irá se retrair fortemente neste ano. Em grande parte devido aos efeitos da crise financeira sobre a demanda destes países, via congestionamento do mercado de crédito em escala global. Porém, outro importante ingrediente deverá pesar sobre a retomada do comércio mundial nos próximos anos: o protecionismo.

Já fazem parte do noticiário os milhares de postos de trabalhos destruídos pelos efeitos da crise. O exemplo notório é o da indústria automobilística – quase todas as grandes montadoras, principalmente as norte-americanas, já anunciaram vastos cortes no número de empregados. E o peso político deste setor, muitas vezes ineficiente, em vários países é significativo.

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Obviamente há outros setores que passam pelo mesmo processo, seja por conta da crise ou por puro oportunismo de se reduzir o custo da produção – já que o cenário atual não é mais aquele pujante observado até meados de 2007, embora constatado por todos apenas um ano depois.

A justificativa pela perda do emprego fica encarregada da crise, a qual teve início, sobretudo para os países emergentes, nas principais economias mundiais e, portanto, ajuda a reforçar o discurso protecionista: incentivar a produção local na tentativa de preservar mais empregos. O sentimento de volta ao nacionalismo econômico fica patente, vide a discussão observada no EUA em relação ao pacote de estímulo econômico aprovado na semana passada: usar ou não produtos importados nas obras contempladas no pacote.

O fato é que não se pode esquecer o papel que o comércio mundial teve até então. Mas sabe-se que, sobretudo na área política, não será a bandeira levantada nos próximos anos. Pois a sustentação política de quem agora está no comando depende e muito de aplacar os anseios, provocados ou não pela crise.

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E todas as instituições (públicas e privadas) estimam uma retomada, ainda que lenta, do crescimento econômico em meados de 2010 – mesmo porque a economia não vai desaparecer. Contudo, essa lentidão na retomada pode ser ainda maior caso o protecionismo aumente bastante nos próximos anos.

Raphael Castro é economista e escreve mensalmente na InfoMoney, às quartas-feiras.
raphael.castro@infomoney.com.br