Por que um El Niño intenso deixa safras tropicais vulneráveis

O avanço do fenômeno climático eleva temperaturas e altera o regime de chuvas, gerando riscos de seca no Vietnã e na Índia e precipitações excessivas no Brasil e no Equador a partir do segundo semestre

Reuters

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LONDRES/NOVA YORK, 17 Jun (Reuters) – É cada vez mais provável ⁠que um forte fenômeno climático El Niño se desenvolva no segundo semestre do ano, elevando as ⁠temperaturas, alterando o regime de chuvas e representando riscos para as safras em todo o mundo.

O que é o El Niño e por ‌que algumas safras em regiões tropicais, conhecidas como ‘soft commodities’, estão especialmente expostas?

El Niño

O El Niño é um aquecimento periódico das temperaturas da superfície do mar no Pacífico oriental, causado pelo enfraquecimento dos ventos alísios. Ele ocorre naturalmente a cada dois a sete anos e tende a durar entre 9 ‌e 12 meses.

Esse fenômeno climático geralmente resulta em temperaturas mais altas em todo o mundo, secas em regiões como o Sul e Sudeste da Ásia, Austrália e África Austral, e chuvas intensas em outras, incluindo as regiões do sul da América do Sul e dos Estados Unidos.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) declarou a chegada do El Niño na semana passada. Além disso, informou que o padrão climático provavelmente se intensificará, com 63% de probabilidade de um El Niño muito forte ou ‘super El Niño’ se aproximando em 2027.

A seca, o calor ou as chuvas excessivas causados pelo El Niño são um duro golpe para os ⁠agricultores, ‌que já enfrentam este ano os choques nos preços dos fertilizantes e do diesel provocados pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.

Os preços ⁠das commodities agrícolas têm apresentado ganhos consistentes durante os episódios anteriores do El Niño.

Cacau

Todos os El Niños fortes dos últimos 55 anos reduziram a produção de cacau, de acordo com a empresa de investimentos WisdomTree.

Durante o último El Niño, que durou de meados de 2023 a meados de 2024 e foi considerado de moderado a forte, a África Ocidental — principal produtora — foi inicialmente atingida por chuvas duas vezes maiores do que o normal, o que deixou as árvores de cacau expostas a uma doença fúngica.

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Em 2024, o padrão climático se inverteu e a África Ocidental foi ​atingida por calor intenso e pelos ventos Harmattan, que estavam excepcionalmente secos e fortes para a época, fazendo com que as árvores enfraquecidas pela doença perdessem suas flores.

‘Todo mundo acha que o El Niño está associado apenas a secas na África Ocidental. Isso não é necessariamente verdade. Devido ​às mudanças climáticas… o resultado, às vezes, (é) chuva (inicial) em excesso. No momento, essa é minha maior preocupação’, disse Jim Roemer, da consultoria Best Weather.

Cerca de metade do cacau mundial é cultivado na Costa do Marfim e em Gana, o primeiro e o segundo maiores produtores de cacau do mundo. O Equador, o terceiro maior produtor normalmente, enfrenta chuvas excessivas durante os episódios de El Niño.

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Os preços do cacau quase triplicaram em 2024 após a quebra da safra na África Ocidental. Eles subiram para níveis recordes acima de US$12.000 por tonelada métrica no final de 2024, tornando o ingrediente do chocolate mais caro ‌do que muitos metais industriais.

Café

O El Niño é especialmente problemático para o café robusta, pois costuma trazer ​temperaturas mais altas e redução das chuvas para o Vietnã — maior produtor — e para a Indonésia — terceiro maior produtor — a partir de meados do ano.

As condições climáticas adversas afetam os dois países — que, juntos, respondem por cerca de 50% da produção mundial de robusta — durante a fase de desenvolvimento da cultura. Seus impactos são sentidos a partir do quarto trimestre, durante ⁠a colheita.

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‘A seca no Vietnã e na Indonésia pode reduzir significativamente ​a produtividade do café robusta’, afirmaram analistas ​do Citi.

No caso do café arábica, cuja produção é quase metade proveniente do Brasil, o impacto do El Niño é mais sutil.

Carlos Santana, diretor comercial da Eisa, subsidiária da trading Ecom, disse ⁠que o El Niño poderia inicialmente ser positivo para a safra que o Brasil ​está colhendo atualmente, já que temperaturas mais altas poderiam impedir geadas prejudiciais no inverno.

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A longo prazo, porém, o El Niño costuma trazer seca e calor às regiões cafeeiras do Brasil no quarto trimestre, quando a próxima safra está se desenvolvendo, o que deve prejudicar a produção em 2027.

Açúcar

No caso do açúcar, uma das commodities agrícolas mais negociadas, o ​El Niño costuma trazer chuvas excessivas no segundo semestre do ano, o que pode atrapalhar e reduzir a qualidade da safra no Brasil, principal produtor mundial.

Na Índia, segundo maior produtor de açúcar, e na Tailândia, segundo maior exportador, por outro lado, o padrão ​climático costuma reduzir as chuvas durante a monção ⁠de verão.

A Índia espera que a monção de 2026 traga o menor volume de chuvas em 11 anos, com precipitações durante o período de desenvolvimento da safra, de junho a setembro, estimadas em 90% ⁠da média.

Carlos de Mello, diretor de açúcar da corretora Hedgepoint, estima que mesmo um El Niño moderado poderia reduzir a produção da Índia em cerca de 1 milhão de toneladas métricas.

A longo prazo, as chuvas acima da média que o El Niño costuma trazer para as regiões açucareiras do Brasil poderiam ajudar a safra do próximo ano.

Mello, da Hedgepoint, afirmou que, de modo geral, é ‘difícil imaginar um cenário de alta no mercado com o El Niño’ devido aos seus potenciais benefícios para a safra de açúcar brasileira de 2027.

O Brasil é responsável por cerca de metade das exportações mundiais de açúcar.

(Reportagem de May Angel, em Londres, e Marcelo Teixeira, em Nova ​York)

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