US$ 1 trilhão! Conheça o “retardatário” que virou o maior ETF do mundo

O ETF da Vanguard chegou atrasado à disputa pelo S&P 500, mas conquistou a liderança apostando em custos menores e eficiência

Leonardo Vasques

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Publicidade

Quem acompanha ETFs e o mercado financeiro em geral se deparou nos últimos dias com a notícia de que o VOO, ETF de S&P500 da Vanguard, se tornou o primeiro ETF a atingir US$ 1 trilhão de valor de mercado.

O que talvez muitos não saibam é que ele não foi o primeiro, ou mesmo o segundo, ETF de S&P500 lançado e, ainda hoje, não é o mais líquido. 

Mais de 15 anos separam o lançamento do VOO, ocorrido em setembro de 2010, do lançamento do SPY, concorrente gerido pela State Street e primeiro ETF de S&P500 do mercado, ocorrido em janeiro de 1993.

Continua depois da publicidade

Uma década antes, em maio de 2000, foi lançado o IVV, então gerido pela Barclays Global Investors, hoje da Blackrock.

A Vanguard, pioneira em fundos indexados e já um gigante no mercado à época, demorou a lançar seu ETF por inicialmente não acreditar que esse tipo de instrumento se alinhava a sua filosofia. Isto porque alguns viam ETFs como instrumentos de trading e não veículos de longo prazo.

O pioneiro sempre vence?

Quando o VOO foi lançado, o SPY e o IVV, já contavam, respectivamente, com mais de US$70 bilhões e US$20 bilhões de patrimônio. A indústria de ETFs nos EUA tinha cerca de US$992 bilhões, ou pouco menos de 10% do mercado de fundos de investimento, segundo dados da Investment Company Institute. 

Continua depois da publicidade

Fonte: XP Asset Management | Bloomberg


No fechamento de 2025, essa mesma indústria respondia por quase 35% do mercado americano, com US$13,4 trilhões, segundo a própria ICI. Um crescimento de mais de 13x em cerca de 15 anos.

Em termos de liquidez, o SPY negociava em 2010 em torno de US$16 bilhões ao dia, mais do que o próprio VOO negocia hoje (média de US$4 bilhões em maio de 2026).

O SPY é o ativo de bolsa mais líquido nos EUA e no mundo, porém desde 2025 é superado em patrimônio tanto pelo VOO quanto pelo IVV.

Continua depois da publicidade

Fonte: XP Asset Management | Bloomberg

Apesar de ser uma fração do que é hoje, o mercado de ETFs americano à época do lançamento do VOO já era um mercado bem estabelecido, com instrumentos eficientes, bastante líquidos e pulverizados. 

O que explica então o sucesso do VOO, que o levou a superar esses gigantes a se tornar o maior ETF do mercado em apenas 15 anos?

Busca por eficiência

Como empresa, a Vanguard se posiciona como uma gestora eficiente e de baixa custo.

Continua depois da publicidade

Com os ETFs, não tem sido diferente. O VOO foi lançado com uma taxa de administração de apenas 0,06%, menor do que os 0,0945% e 0,09% cobrados respectivamente por SPY e IVV naquele momento.

Além de uma taxa menor, a estrutura do VOO — e do próprio IVV — é mais moderna que a estrutura de Unit Investment Trust do SPY, o que permitiu sucessivas reduções no custo destes ETFs até os 0,03% atuais cobrados por ambos.

Além disso, a estrutura do VOO permite ao ETF o reinvestimento dos proventos até que o ETF os repasses aos cotistas, o que melhora marginalmente sua aderência e retorno em relação ao SPY. 

Assim como outros produtos da Vanguard, o ETF também atua ativamente alugando as ações de sua carteira, o que gera renda adicional aos seus cotistas.

Essas diferenças fizeram com que o VOO acumulasse, até o fechamento de maio, uma rentabilidade de 586,4%, frente a 582,9% e 582,0% do IVV e do SPY nesse período.

Ou seja, quem investiu US$1.000 no lançamento do VOO, obteve cerca de US$44 a mais de retorno em relação a quem ficou no SPY.

Fonte: XP Asset Management | Bloomberg

A diferença pode parecer pequena, frente a impressionante valorização do S&P500, mas foi suficiente para motivar milhares de investidores a adotar um ETF mais novo e menos líquido.

Ainda hoje, o SPY mantém uma grande distância em termos de liquidez, tanto do ETF em si, como das opções baseadas nele, porém VOO e IVV tem crescido seus patrimônios em ritmo mais acelerado.

Isso motivou o lançamento do SPYM (antigo SPLG) pelo State Street, com custo de apenas 0,02% para os investidores.

Paralelo local

A história do VOO pode parecer distante da realidade brasileira, mas ela oferece pistas sobre qual pode ser o futuro do mercado local de ETFs. Assim como nos EUA, aqui também há uma grande concentração em poucos produtos.

Se o VOO responde por cerca de 7% do patrimônio em ETFs, a realidade brasileira é ainda mais concentrada. Os 10 maiores ETFs locais respondem por mais de 50% do patrimônio total dos quase 200 ETFs existentes no fechamento de abril.

O BOVA11 sozinho, primeiro ETF de Ibovespa e maior ETF do mercado, tinha no fechamento de abril R$14bi de patrimônio, que corresponde a cerca de 13% do patrimônio de toda a indústria. Em relação ao volume negociado em bolsa, essa concentração é ainda maior.

No entanto, a penetração dos ETFs é ainda muito inferior à do mercado americano atual ou mesmo a de 2010, quando o VOO foi lançado. Mesmo tendo dobrado nos últimos 2 anos, hoje apenas 1% dos recursos alocados em fundos estão em ETFs!

Isso explica em grande parte o surgimento de vários novos produtos, muitas vezes com estratégias similares a dos maiores ETFs, porém com menor custo ou estruturas diferentes.

Os próprios ETFs de Ibovespa são um exemplo; com 8 alternativas disponíveis, o BOVA11 que segue sendo a mais conhecida, mas apenas a quarta em custo e em rentabilidade acumulada nos últimos 36 meses. 

TickerTaxa AdmPL (brl MM) YTD12M24M36MQuantidade de Cotistas 
BOVX110,02%*1.272,67 8,0%26,2%42,1%60,7%11.837
BOVV110,10%6.795,11 8,0%26,1%42,1%60,5%9.488
BOVA110,10%13.854,47 8,0%26,1%42,0%60,2%100.430
BBOV110,02%2.047,10 7,9%26,0%41,9%60,1%2.469
IBOB110,03%1.085,88 7,6%25,6%41,5%60,1%1.017
BOVB110,20%1.911,37 7,9%26,0%41,7%60,0%1.404
BOVS110,25%26,80 7,7%25,3%35,9%58,1%122
XBOV110,50%42,39 7,6%24,9%39,7%56,9%391
*Taxa ponderada do BOVX11, dado que a taxa de 0,1% é cobrada apenas sobre o que excede R$1 bilhão de patrimônio. Fonte: XP Asset Management | Quantum

A baixa penetração dos ETFs locais, tanto em termos de patrimônio como de quantidade de cotistas, abre a possibilidade de, nos próximos anos vermos mudanças na concentração de patrimônio e no nome dos maiores ETFs.

Talvez aquele que venha a ser o maior ETF daqui a 15 anos ainda nem tenha sido lançado. A dúvida é se o investidor brasileiro, assim como o americano, vai privilegiar a busca por eficiência ou se prender a quem foi lançado primeiro?

Autor avatar
Leonardo Vasques

É Portfolio Manager na XP Asset Management, onde integra a equipe responsável por estratégias de ETFs e fundos indexados. Ele ingressou na XP Asset após concluir um ciclo profissional de 25 anos na indústria de investimentos, período no qual desenvolveu expertise robusta em gestão, ETFs e produtos beta