Gestor vê fraude, não inadimplência, como maior risco no mercado de FIDCs

Jean-Pierre Cote Gil, da Vinland, diz que conhecer o originador é decisivo para evitar perdas em crédito estruturado

Osni Alves

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No mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, os FIDCs, saber com quem se está negociando pode valer mais do que qualquer modelo matemático. Essa é uma das premissas centrais da Vinland Capital ao analisar o setor, que cresceu rapidamente no Brasil e atraiu tanto capital quanto episódios de perdas expressivas.

Para a gestora, os prejuízos históricos mais relevantes nesse mercado não vieram de carteiras que simplesmente deixaram de pagar além do esperado, mas de fraudes, desvio de recursos e falhas operacionais que nenhuma planilha consegue capturar sozinha.

“Normalmente não é o quantitativo que pega, é muito mais esse qualitativo do originador. Conhecer o cara, há quanto tempo ele opera, se você já fez coisa com o cara é mais fácil — esse, para mim, é o principal foco”, afirma Jean-Pierre Cote Gil, sócio e gestor da Vinland Capital.

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A declaração foi dada em entrevista ao Stock Pickers, programa apresentado por Lucas Collazo, em uma conversa que percorreu os bastidores da análise de crédito estruturado e o plano de expansão da Vinland para os próximos anos.

A postura da gestora diante de estruturas novas reflete essa cautela. Mesmo quando gosta do produto e da equipe por trás, a Vinland prefere aguardar seis meses antes de alocar recursos.

“Dá uns seis meses, vamos ver como o negócio opera, e depois a gente entra”, explica o gestor.

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O crescimento acelerado de uma gestora de crédito também está entre os alertas monitorados por Cote Gil. Quando um FIDC passa de R$ 300 milhões para R$ 1,5 bilhão em pouco tempo, ele inevitavelmente começa a atender empresas maiores e a reduzir taxas para competir por seus recebíveis — o que altera o perfil de risco da carteira.

“Essa transição de tamanho é importante que seja gradual”, destaca.

Há ainda uma regra que a própria Vinland impõe a si mesma: nunca entrar com mais de 3% a 5% do patrimônio líquido de um fundo em que investe.

“Quero ser importante, mas não quero ser o principal”, diz Cote Gil.

A lógica serve a dois propósitos: evitar concentração excessiva na própria carteira e estimular o originador a buscar outras fontes de financiamento, o que tende a produzir estruturas mais equilibradas.

Da liquidez ao ilíquido: a expansão em fases

Nos últimos quatro anos, a Vinland construiu uma linha de produtos que vai dos fundos com resgate mais ágil até o VINF11, seu primeiro fundo de infraestrutura com cotas negociadas em bolsa, lançado no ano passado.

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A estratégia foi deliberadamente faseada. A primeira etapa priorizou produtos mais líquidos; a segunda, estruturas fechadas.

“A fase dois era tentar desenvolver produtos que fossem caminhando para o mundo de menos líquido”, explica Cote Gil.

Em parceria com a XP Investimentos, a gestora lançou um produto voltado para infraestrutura, com cotas sênior e subordinada e prazo de três anos — uma alternativa às letras de crédito imobiliário e do agronegócio oferecidas pelos bancos tradicionais.

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A terceira fase, ainda em estágio inicial, aponta para fundos fechados com foco em crédito imobiliário, agronegócio e outros segmentos que exigem presença física e equipe especializada fora dos grandes centros.

Para o mercado imobiliário, a Vinland avalia montar estrutura própria ou buscar uma parceria ou fusão com outra gestora. Para o agronegócio, a cautela é maior.

“Tem que ter alguém em Ribeirão, em Sorriso, viajando pelo Brasil”

— Jean-Pierre Cote Gil, sócio e gestor da Vinland Capital.

A tecnologia entra como aliada para acelerar análises, mas não como substituta de pessoas.

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“Apesar de estar usando bastante ferramentas de inteligência artificial, base de dados, ter acesso rápido a conclusões — ainda assim, eu sinto que a gente precisa de equipe”, admite Cote Gil.

“Vida medíocre, mas que dá para ganhar dinheiro”

O gestor não alimenta ilusões sobre o ambiente econômico à frente. Juros abaixo de 10% ao ano parecem fora do horizonte, independentemente do resultado eleitoral de 2026. O crescimento seguirá limitado pelo distanciamento do Brasil das cadeias globais de tecnologia. E o ciclo de crédito continuará oscilando a cada três anos, como tem feito na última década.

O lado positivo dessa estabilidade monótona, na visão de Cote Gil, é que o mercado aprendeu a conviver com os ciclos. Quem viu seus fundos balançarem no período pós-pandemia e após o escândalo contábil das Americanas (AMER3) já sabe que a volatilidade é parte do jogo — e que os melhores gestores se revelam nos momentos ruins, não nos bons.

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“O ganho, na época boa, é restrito. Agora, na hora que vêm as perdas, se você não desviar bem delas, ela pode te comprometer um, dois anos de retorno”, alerta.

A conclusão que Cote Gil tira do cenário é ao mesmo tempo sóbria e encorajadora para quem opera no mercado de crédito.

“A gente vai nessa vida meio medíocre, mas que dá para ganhar dinheiro — essa é a verdade”, diz.

Para quem tem horizonte de médio prazo, o efeito composto dos retornos em uma carteira bem diversificada tende a compensar os períodos de turbulência.

“Não precisa nem ir muito longe: janelas de três anos para cima, a maioria dos fundos que acompanho vão bem.”