UBS rebaixa ações do Brasil para neutro e vê “três fatores adversos convergentes”

Aumento da incerteza política relacionada às eleições, um ciclo de afrouxamento monetário do BC mais curto e afrouxamento fiscal estão no radar

Lara Rizério

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Homem tira uma foto de um painel eletrônico que mostra o gráfico no pregão da Bolsa de Valores BM&F Bovespa, no centro de São Paulo, Brasil, em 21 de março de 2019. REUTERS/Nacho Doce
Homem tira uma foto de um painel eletrônico que mostra o gráfico no pregão da Bolsa de Valores BM&F Bovespa, no centro de São Paulo, Brasil, em 21 de março de 2019. REUTERS/Nacho Doce

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O UBS cortou a recomendação das ações brasileiras de “atrativas” para “neutra”, destacando uma mudança no perfil de risco versus retorno, mas acrescentando que a visão mais ampla para mercados emergentes continua construtiva.

A equipe do banco destacou que a reprecificação dos valuations, o afrouxamento monetário, fortes entradas de capital estrangeiro em meio à demanda por diversificação em mercados emergentes e um cenário macroeconômico resiliente já se materializaram amplamente no desempenho do Ibovespa desde meados do ano passado, impulsionado tanto pelo crescimento de lucros quanto pela expansão dos múltiplos.

“Três fatores adversos convergentes agora alteram, em nossa visão, o equilíbrio de risco-retorno: o aumento da incerteza política relacionada às eleições, um ciclo de afrouxamento monetário do BC mais curto e menos intenso, e a aceleração do afrouxamento fiscal no período pré-eleitoral”, pontuou. “Embora os fundamentos permaneçam resilientes, essas dinâmicas devem manter o equilíbrio entre risco e retorno até a eleição de outubro.”

Os três fatores adversos

Para os analistas, a eleição presidencial brasileira de 4 de outubro está se tornando um fator dominante no mercado de curto prazo, com o perfil de risco se alterando nas últimas semanas.

“A volatilidade das ações brasileiras permaneceu relativamente moderada em comparação com períodos pré-eleitorais anteriores, mas os recentes acontecimentos — incluindo maior cobertura da mídia, mudanças nas pesquisas e o surgimento de manchetes políticas de grande repercussão — trouxeram as eleições para o foco do mercado”, ressalta.

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Historicamente, a volatilidade implícita das ações brasileiras dispara antes das eleições e o desempenho pode ser instável; o UBS espera que essa dinâmica se intensifique à medida que outubro se aproxima.

O banco ressalta que o cenário político em evolução pode influenciar as expectativas para a futura política econômica. Uma vitória da oposição pode sugerir apoio ao ímpeto das reformas e uma reavaliação contínua do índice de preços sobre lucro (P/L), enquanto uma vitória do governo em exercício pode ser interpretada como continuidade da política e menor apetite por reformas macroeconômicas ou consolidação fiscal.

“É a direção política percebida do principal candidato, e não a data da eleição em si, que atua como o verdadeiro catalisador para o desempenho do mercado”, avalia. O banco aponta que ciclos passados mostraram que os mercados podem reagir rapidamente a mudanças no posicionamento dos candidatos e às mudanças políticas previstas, com a volatilidade normalmente aumentando à medida que a eleição se aproxima.

“Esperamos que os desdobramentos políticos importem cada vez mais para os investidores e, eventualmente, se tornem um fator-chave do sentimento e do desempenho do mercado nos próximos meses”, avalia.

Além disso, vê que o impulso da política monetária está diminuindo. O Banco Central realizou seu primeiro corte de juros em março, e as ações já haviam se valorizado em antecipação ao ciclo de afrouxamento monetário, então acredita que grande parte do potencial de alta já foi realizado.

“Embora as ações historicamente tenham apresentado retornos sólidos durante os ciclos de afrouxamento monetário, a diferença neste ciclo é a crescente preocupação com a inflação em meio a preços de energia elevados por um período prolongado”, aponta.

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A recente alta dos preços do petróleo em meio à guerra no Irã, por usa vez, mostra uma dinâmica dupla: beneficia os exportadores de energia e a economia do Brasil, mas também alimenta a inflação e as expectativas de inflação, complicando a trajetória de cortes de juros do BC.

Isso levou a uma abordagem mais cautelosa, reunião por reunião, o que resultou na reavaliação das expectativas de taxas terminais, sugerindo um ciclo de afrouxamento mais curto e menos gradual. “O mercado agora espera menos de 50 pontos-base de cortes na taxa Selic até outubro. A política monetária portanto permanece direcionalmente favorável, mas o vento favorável é significativamente menos favorável agora”, avalia.

Em terceiro lugar, o afrouxamento fiscal pré-eleitoral está se acelerando, aumentando as preocupações sobre a trajetória da dívida do Brasil e contribuindo para a incerteza macroeconômica.

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“Um real mais fraco aumenta o prêmio de risco sobre os ativos locais e pode rapidamente reduzir o apetite. Historicamente, o Brasil tem demonstrado alta sensibilidade ao sentimento de risco global e à dinâmica das taxas de juros dos EUA, tornando os recentes fluxos de capital estrangeiro vulneráveis ​​a reversão em um ambiente de aversão ao risco”, aponta.

Fundamentos e temas estruturais permanecem construtivos

Apesar do rebaixamento, o banco ressalta que os fundamentos continuam positivos.

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“Nosso rebaixamento reflete uma mudança no cenário macroeconômico e político, e não uma deterioração dos fundamentos corporativos. As avaliações permanecem razoáveis, com o índice P/L para os próximos 12 meses próximo ao meio de sua faixa de 10 anos, e os lucros superaram os preços nos últimos meses. A variação trimestral do lucro por ação (LPA) para os próximos doze meses no Brasil está entre as mais altas nos mercados emergentes (excluindo a Coreia), sustentada pela exposição a commodities e por um índice com baixa exposição ao setor de tecnologia”, avalia.

Mais além do ruído macroeconômico e político de curto prazo, o Brasil se destaca como líder estrutural em vários aspectos. O país oferece aos investidores globais exposição a minerais críticos, terras raras e infraestrutura — setores em alta demanda à medida que o mundo transita para novos sistemas energéticos, avalia o banco.

Como exportador líquido de energia, o Brasil está bem posicionado para se beneficiar de quaisquer interrupções no fornecimento em outros lugares, com o conflito no Oriente Médio ressaltando o valor de fornecedores confiáveis ​​de petróleo e gás. “É importante ressaltar que o mercado de ações brasileiro também atua como um diversificador com baixa exposição ao setor de tecnologia dentro de um índice de mercados emergentes cada vez mais dominado por gigantes da tecnologia, proporcionando equilíbrio setorial e fatores de ganhos diferenciados”, avalia.

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Neste cenário, os principais catalisadores a serem observados são o resultado das eleições e a trajetória do ciclo de afrouxamento monetário do Banco Central do Brasil.

“Uma clara vantagem para um candidato favorável ao mercado ou perspectivas renovadas para um afrouxamento monetário mais profundo poderiam nos levar a reavaliar nossa perspectiva. O aumento do ruído político, um banco central mais cauteloso e a aceleração do afrouxamento fiscal pré-eleitoral criam um ambiente de risco que sustenta uma visão neutra para as ações brasileiras neste momento”, aponta.

Mas, embora os fundamentos de médio prazo permaneçam atraentes, o potencial de alta no curto prazo provavelmente será limitado pela incerteza macroeconômica e política antes de outubro.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.