Quando o dinheiro vai embora: o alerta para gestoras menores no Brasil

Saques em fundos reduzem patrimônio, afetam bônus e podem acelerar perda de talentos e fusões no setor

Osni Alves

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Para gestoras menores, uma sequência de resgates pode ser o início de uma espiral difícil de reverter. Com patrimônio menor, os bônus encolhem, a retenção de talentos fica mais difícil e o caminho pode terminar em cortes, fusões ou perda de competitividade.

Esse é o cenário descrito por especialistas do mercado financeiro para gestoras independentes que enfrentam resultados fracos, saques crescentes e dificuldade para manter equipes bem remuneradas. Em casas com menos de R$ 1 bilhão sob gestão, a pressão tende a ser ainda maior, pela menor escala para atravessar ciclos adversos.

O alerta veio durante o programa Carteiros do Condado, apresentado por Lucas Collazo e Davi Fontenele. Eles receberam Felipe Relvas, CIO da MMZR Family Office, para discutir o estado atual das gestoras independentes brasileiras. O diagnóstico foi duro: quando a performance piora e os resgates se aceleram, o patrimônio diminui, os bônus desaparecem e começa uma espiral difícil de interromper.

Oportunidade com segurança!

O debate ganhou força com exemplos concretos do setor. A SPX foi citada como uma das gestoras que passaram por mudanças societárias relevantes nos últimos tempos — evidência de que nem mesmo casas com histórico sólido estão imunes à pressão. Para Relvas, a raiz do problema é simples: “É um negócio de pessoas. Você está terceirizando para que pessoas tomem decisões para você.”

Para monitorar esse risco, Relvas descreveu uma prática própria: em períodos favoráveis, ele registra qual seria o tamanho ideal da equipe e o custo necessário para mantê-la bem remunerada — e usa esse parâmetro quando o cenário muda.

Gestoras com menos de R$ 1 bilhão sob gestão, segundo os participantes, já enfrentam naturalmente um processo de enxugamento de pessoal quando o ciclo fica mais adverso.

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Fusões atraem interesse, mas esbarram no ego

O movimento de fusões entre gestoras, nesse sentido, tem se intensificado no Brasil, mas os especialistas recomendam cautela antes de celebrar qualquer acordo. O principal obstáculo nem sempre é financeiro — muitas vezes, é humano.

“A gente está falando de pessoas que são muito capazes. Cada um tem o seu ego para lidar no dia a dia”

— Felipe Relvas, CIO da MMZR Family Office.

A comparação com o mercado americano revelou diferenças profundas de cultura. Collazo observou que, nos Estados Unidos, a lógica de sociedade entre sócios — bastante valorizada no Brasil — praticamente não existe nas grandes gestoras. Lá, o controle costuma estar nas mãos de uma única família ou de um gestor principal, e o que segura os talentos são dois fatores objetivos: remuneração e autonomia.

“Lá fora, importa dinheiro e performance”, reforçou Relvas.

Esse contraste sugere que o modelo brasileiro de gestoras construídas sobre relações societárias complexas pode ser, ao mesmo tempo, um ponto de diferenciação e uma fonte de fragilidade — especialmente quando o cenário de mercado piora, os resgates aumentam e as tensões internas ficam mais evidentes.

Crédito privado se recupera, mas preço de entrada importa

O mercado brasileiro de crédito privado tem mostrado recuperação nas taxas e nos preços nas últimas semanas. Ainda assim, o segmento exige atenção, especialmente nos títulos de empresas consideradas de menor risco, presentes em fundos com liquidez diária ou resgate em 30 dias — justamente a parcela mais acessível ao investidor comum e que ainda concentra volume expressivo de recursos.

Fontenele trouxe à tona uma reflexão da gestora Roots Capital, que questiona uma visão simplista bastante difundida sobre esse tipo de ativo. Segundo essa leitura tradicional, no crédito privado o investidor ganha apenas o que foi combinado quando tudo corre bem, mas pode perder muito quando algo dá errado — ao contrário de ações ou títulos públicos de longo prazo, que podem render acima do esperado em cenários favoráveis.

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Para a Roots Capital, essa caracterização ignora variáveis fundamentais, como o preço pago na entrada, a liquidez disponível e o posicionamento do mercado naquele ativo.

A síntese veio do próprio apresentador: “Não basta o ativo ter esse potencial de ganho extra se você pagou caro por ele.” O recado é direto: em crédito privado, assim como em qualquer outro investimento, o ponto de entrada define boa parte do resultado final.