Do recrutamento ao desligamento: inteligência artificial muda a lógica do RH

Especialista afirma que o desafio deixou de ser adotar IA e passou a ser estabelecer critérios para integrar agentes aos processos corporativos

Vitor Oliveira

Jessica Ariane durante a Senior Experience, em São Paulo, na última quinta-feira (21). Foto: Divulgação
Jessica Ariane durante a Senior Experience, em São Paulo, na última quinta-feira (21). Foto: Divulgação

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A entrada da inteligência artificial na rotina corporativa está alterando uma premissa histórica da gestão de pessoas: a de que a força de trabalho é formada exclusivamente por humanos. Em empresas que já adotam agentes autônomos para executar tarefas administrativas e estratégicas, o desafio agora não é mais discutir se a tecnologia será incorporada, mas como governá-la.

Segundo Jéssica Ariane, head de produtos da Senior Sistemas, o mercado já vive uma transição para estruturas híbridas, nas quais pessoas e agentes digitais dividem responsabilidades operacionais.

“Quando a gente fala que esse agente está tomando decisão e influenciando alguma entrega, a gente está falando que a nossa equipe de trabalho não é mais só humana”, disse ela, em entrevista ao InfoMoney durante o Senior Experience 2026, em São Paulo (SP).

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Na avaliação da executiva, a mudança representa uma inflexão na lógica tradicional do software corporativo. Se antes sistemas eram ferramentas usadas para apoiar o trabalho humano, agora passam a atuar como parte ativa da execução.

“O sistema não é mais a ferramenta onde o trabalho é executado. Ele é parte do organismo que executa o trabalho.”

Essa transformação tem impacto direto sobre a área de recursos humanos, que precisará rever processos estruturados para pessoas físicas e adaptá-los a uma nova dinâmica organizacional.

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Da triagem ao processo admissional

Um dos exemplos citados por Ariane está no recrutamento. Segundo ela, agentes baseados em IA já conseguem elaborar descrições de vaga, localizar candidatos em bancos de talentos, cruzar competências com requisitos da posição, agendar entrevistas e conduzir etapas iniciais de avaliação.

“Eu não estou mais falando de várias pessoas que fazem partes do processo. Estou falando de uma inteligência que vai do início ao fim do processo”, diz.

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Nessa lógica, o papel do gestor deixa de ser operacional e passa a ser de supervisão crítica. “A decisão continua sendo do gestor. O papel humano é entender se as informações e as decisões tomadas fazem sentido.”

A mesma lógica já se aplica a processos admissionais. Segundo Ariane, interfaces conversacionais automatizadas conseguem coletar documentos, validar informações e conduzir admissões digitais com mínima intervenção humana.

Ela citou casos em que empresas reduziram equipes inteiras dedicadas à admissão após incorporar agentes especializados. “Tinha cliente que tinha dez pessoas para fazer esse processo. Hoje tem uma só.”

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O RH além da folha de pagamento

A transformação se soma a uma mudança estrutural no papel do RH nas empresas brasileiras.

Para Ariane, a área deixou de ser predominantemente operacional — focada no processamento da folha e em rotinas administrativas — para assumir papel estratégico na retenção e desenvolvimento de talentos.

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“O RH era cobrado por pagar o salário de todo mundo corretamente. Hoje ele precisa também mostrar para essa pessoa que ela pode evoluir, se desenvolver e construir carreira.”

Segundo ela, a pandemia acelerou esse movimento ao ampliar a centralidade de temas como saúde emocional, bem-estar e experiência do colaborador.

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Governança e risco de vieses

A ampliação do uso da IA também reacende discussões sobre vieses algorítmicos em decisões relacionadas à carreira.

Segundo Ariane, a tecnologia tende a refletir padrões presentes nos próprios dados organizacionais. Por isso, empresas com culturas excludentes podem reproduzir distorções nos sistemas automatizados.

“Ela só vai refletir o que talvez aquela empresa tem. Às vezes, a gente terceiriza para a tecnologia, mas ela só reproduz um comportamento que já era da organização.”

Para mitigar esse risco, a executiva defende transparência, supervisão contínua e limites claros para autonomia dos sistemas.

Na Senior Sistemas, afirma ela, a IA foi desenhada para atuar como ferramenta consultiva, e não decisória.

Isso significa que sistemas podem sugerir candidatos com maior aderência, identificar potenciais sucessores ou apontar necessidade de desenvolvimento, mas a decisão final deve permanecer sob responsabilidade humana.

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Carreira e adaptação

Para os trabalhadores, o avanço da IA deve exigir reconfiguração de competências e trajetórias profissionais.

Ariane afirma que o debate internacional sobre recursos humanos já se concentra em como preparar profissionais para um ambiente de trabalho em transformação acelerada.

“Agora a gente vai passar por um momento de mudança significativa. Como as pessoas vão remodelar suas carreiras e suas competências é uma pauta central.”

Na avaliação dela, a questão deixou de ser tecnológica e passou a ser organizacional.

“Todo mundo está muito preocupado em conhecer a inteligência artificial, mas existe uma mudança silenciosa dentro das organizações que muitas empresas ainda não estão priorizando.”

Para a executiva, o futuro da gestão de pessoas dependerá menos da adoção de novas ferramentas e mais da capacidade das empresas de estabelecer regras, supervisão e critérios claros para integrar agentes digitais às rotinas corporativas.

Afinal, como resumiu, “a inteligência artificial veio para ficar; a questão agora é como a gente traz governança e responsabilidade para esse processo.”

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