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Com a inflação dando sinais de resistência, incertezas fiscais e conflitos no exterior, a curva de juros no Brasil tem registrado frequentes altos e baixos. A sessão de quinta-feira (21) ilustrou bem isso: as taxas do Tesouro IPCA+ chegaram a cair 10 pontos-base em questão de minutos, em meio aos rumores de acordo entre Estados Unidos e Irã.
Nesse ambiente, quem investe em títulos públicos se depara com um mecanismo que pode surpreender: a marcação a mercado, que atualiza diariamente o valor dos papéis e pode gerar ganhos ou perdas expressivos para quem precisar vender antes do vencimento.
Isso porque, se os juros sobem, o papel desvaloriza, já que títulos com juros mais gordos ficam disponíveis para os investidores. Se caem, o papel se valoriza. Quem mantém o título até o vencimento recebe sempre a remuneração contratada, mas quem se desfaz antes fica sujeito a essas oscilações.
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Para compreender o impacto real dessa dinâmica, basta olhar para os números. Imagine um aporte de R$ 10 mil em um título atrelado à inflação pagando uma taxa de IPCA + 7,3% ao ano. Pelos cálculos de Michael Viriato, estrategista e sócio-fundador da Casa do Investidor, se o investidor decidir vender esse papel no dia seguinte e o Tesouro oferecer uma taxa maior, de IPCA + 7,8%, o saldo resgatado encolheria para R$ 9.365,49.
Por outro lado, caso ocorra um fechamento na curva e a taxa exigida caia para IPCA + 6,8%, a mesma posição saltaria para R$ 10.690,91 brutos em apenas um dia.
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Na conta, Viriato considera um título com prazo médio de aproximadamente 14 anos e estima que uma variação de meio ponto percentual na taxa corresponde a uma perda ou ganho de 7%. Se os juros oscilarem 1 ponto percentual, o impacto no bolso do investidor chega à casa dos 14%. Ele esclarece que o cálculo é complexo, mas os valores calculados devem ficar próximo da realidade.
Vale a pena investir contando com a marcação a mercado?
Atraídos por saltos expressivos de rentabilidade como o demonstrado na simulação, alguns investidores podem alocar recursos mirando um lucro rápido.
Adrian Carvalho, planejador financeiro e CEO da Quartavia, alerta que o principal perigo é justamente confundir a função do instrumento. Ele explica que o Tesouro IPCA+ longo foi desenhado como ferramenta de proteção patrimonial para horizontes de vinte ou trinta anos. Quando o investidor tenta usá-lo para lucrar em meses, está “usando uma ferramenta de carrego para fazer uma aposta direcional de curto prazo”.
Essa aposta cobra seu preço na prática. O executivo pontua que a curva pode abrir e gerar perdas, ou pode demorar para fechar e testar a paciência do investidor, forçando uma venda em um momento ruim.
Otavio de Almeida, planejador financeiro, reforça o coro: “tentar prever a direção da curva de juros no curto prazo é muito difícil, e acredito que o mercado costuma errar mais do que acertar esse tipo de movimento de forma consistente”.
A relevância de entender essa mecânica ganha peso diante das pressões atuais. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, contextualiza que o mercado voltou a cobrar prêmios elevados nos títulos longos justamente pelas expectativas de inflação desancoradas e pela cautela fiscal. “Na minha percepção ainda existe espaço para volatilidade relevante na curva brasileira”, diz.
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Mapeando o cabo de guerra entre os fatores que influenciam os juros brasileiros, Carvalho nota que, embora o ciclo de corte da Selic puxe as taxas para baixo, há pressões reais para a alta: o recente choque do petróleo que pressiona a inflação, o insistente risco fiscal e o cenário externo volátil. Apostar exclusivamente no timing perfeito da curva, segundo ele, é “ uma posição com prêmio de risco implícito”.
O que fazer diante da marcação negativa?
Diante dessa montanha-russa, o que fazer ao abrir o aplicativo da corretora e ver o saldo no vermelho? Para quem está “perdendo” dinheiro, a orientação dos especialistas é respirar fundo e resgatar o motivo original da compra. “A marcação é volatilidade de superfície, não destruição de valor”, resume o CEO da Quartavia.
Se a tese era o longo prazo, a taxa segue garantida. O desastre real, como ressalta Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, ocorre apenas quando a venda antecipada é realizada, transformando “oscilação contábil” em perda realizada. “Antes de tomar qualquer decisão, o investidor precisa se perguntar: eu preciso desse dinheiro agora? O prazo do título ainda faz sentido para o meu objetivo? A taxa contratada continua adequada para o meu plano financeiro?”.
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Já para aqueles que observam uma forte valorização dos papéis, a prudência deve ser a mesma. “Vender para ‘realizar o lucro’ significa abrir mão de uma taxa real contratada por uma taxa atual que provavelmente é menos atrativa – e ainda incorrer em imposto e custo de transação”, alerta Adrian.
Otavio de Almeida sugere que a venda só faz sentido se o potencial de fechamento adicional ficar muito limitado, ou se, como lembra Carvalho, a operação foi montada de forma tática com um cenário de saída predefinido.