Quando a política entra na prateleira do supermercado

Casos como Ypê e Havaianas mostram como marcas passaram a ser rapidamente capturadas por disputas políticas nas redes sociais

Renato Dolci

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Há uma coisa curiosa acontecendo com as marcas no Brasil: elas não precisam falar de política para virarem política. Basta estar na prateleira, no comercial de fim de ano, no corredor do supermercado ou no vídeo de trinta segundos que passa entre uma rolagem e outra.

De repente, o detergente deixa de ser detergente, o chinelo deixa de ser chinelo, o chocolate deixa de ser chocolate. Tudo vira uma pequena urna simbólica, dessas em que ninguém vota de fato, mas todo mundo declara de que lado está.

Foi mais ou menos isso que aconteceu com a Ypê. O caso começou em torno de uma crise objetiva, ligada à suspensão de produtos e ao debate regulatório, mas rapidamente deixou de caber nesse enquadramento. De repente, a conversa chegou a mais de 400 mil menções, depois de partir de 130 mil menções originalmente coletadas sobre a crise.

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Em dois dias, foram aproximadamente 315 mil novas menções. Mais relevante do que o salto, porém, foi a natureza dele: quando a política entrou, o tema saiu de uma presença inicial de 7% para algo em torno de 44% de toda a conversa.

E a cada nova crise, mais “barulho métrico”. Havaianas, por exemplo, que politizou mais cedo a percepção das pessoas, somou pouco mais de 245 mil menções.

O que esses números talvez mostrem não é apenas que a política aumenta a conversa. Isso seria quase óbvio. O ponto mais interessante é que ela aumenta e esvazia ao mesmo tempo.

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Quando a política entra, a discussão ganha velocidade, mas perde espessura. Há mais gente falando, mas menos gente conversando.

O volume cresce porque o assunto deixa de depender do fato original. Já não é preciso entender a Anvisa, a cadeia produtiva, o lote, o risco, o anúncio, a frase, a agência ou a intenção da marca.

Basta reconhecer o código. Se é “contra nós”, critica-se. Se é “dos nossos”, defende-se. Se é absurdo demais, ironiza-se. Se viralizou, entra-se também.

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A Havaianas oferece um paralelo quase didático. Segundo a Timelens, a campanha de fim de ano com Fernanda Torres foi lida por parte do público como uma provocação política. A frase “não quero que você comece 2026 com o pé direito”, que no roteiro brincava com uma expressão popular de sorte, acabou capturada por outra gramática: a da indireta, do boicote, da militância e da contrarreação.

Leia mais: Entenda polêmica entre direita e Havaianas após comercial com Fernanda Torres

Em dois dias, a Timelens analisou mais de 245.312 menções associadas à marca, à campanha e às narrativas de boicote ou defesa. A carga negativa somou 61,4%, dividida entre 37,8% de crítica à marca e 23,6% de boicote ativo.

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Mas o dado mais revelador talvez esteja no outro lado: o volume positivo não representava exatamente uma defesa apaixonada da campanha; era, em boa parte, ironia contra a politização.

Esse é o mecanismo. A politização cria uma multidão (sempre menor do que achamos que ela é, inclusive), mas essa multidão se organiza em torno de papéis prontos.

Há o indignado, o fiscal da intenção, o consumidor que anuncia que nunca mais compra, o defensor que compra para provar um ponto, o usuário que só quer fazer piada, o influenciador que traduz o episódio para sua audiência e o perfil que chega atrasado, mas ainda encontra um meme em aberto. 

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Não é um fenômeno exclusivo da Ypê ou da Havaianas. O Bis enfrentou tentativa de boicote depois de uma campanha com Felipe Neto, lida por grupos de direita como sinal político da marca. O Boticário, em 2015, virou alvo de polêmica e ameaças de boicote ao exibir casais homoafetivos em uma campanha de Dia dos Namorados.

A Nike, fora do Brasil, passou por dinâmica parecida quando colocou Colin Kaepernick em uma campanha ligada a protestos contra racismo e violência policial, gerando reação conservadora e apoio público de outros consumidores.

Em todos esses casos, há uma mesma pergunta de fundo: a marca disse alguma coisa ou o público precisava que ela tivesse dito?

A hipótese é de que, nas redes sociais, política funciona como acelerador de combustão. Ela reduz a complexidade, dá vocabulário ao conflito e oferece identidade instantânea a quem participa.

O algoritmo gosta disso porque há antagonismo claro; as audiências gostam disso porque o custo de entrada é baixo; os grupos organizados gostam disso porque a marca vira um atalho para falar de algo maior. Mas o efeito colateral é a exaustão. Como todo mundo reconhece rapidamente o roteiro, a curva sobe com força e depois tende a cair também com força.

O assunto infla porque parece dizer tudo sobre o país; esvazia porque, depois de algumas horas, já não diz quase nada de novo.

Talvez seja por isso que essas crises pareçam enormes e frágeis ao mesmo tempo. Enormes na volumetria, frágeis na permanência. Elas ocupam a timeline como se fossem divisores de época, mas muitas vezes envelhecem antes do próximo ciclo de notícias.

No auge, parecem reorganizar a reputação de uma empresa. Dias depois, deixam para trás uma pergunta mais incômoda do que a crise em si: se qualquer marca pode ser convocada para uma guerra cultural, ainda existe conversa pública fora da política?

A resposta, provavelmente, não é simples. Marcas não estão fora do mundo, e consumo sempre carregou valores, gostos, classe, costume e identidade. O novo talvez seja a velocidade com que qualquer elemento banal é convertido em prova de alinhamento. 

No fim, politizar uma crise pode até fazer o número subir. Às vezes, subir muito. Mas número alto não é, necessariamente, debate vivo. Pode ser só o barulho de uma sala lotada em que todos já chegaram sabendo o que vão dizer. A política, quando entra assim, não aprofunda a conversa. Ela a enche. E, justamente por enchê-la demais, começa, na hora, a esvaziá-la.

Nota metodológica
Os dados de Ypê foram usados de forma restrita, entre os dias 9 a 12 de Maio, a partir de X, Tiktok, Facebook, Instagram, Youtube e Threads. Os dados de Havaianas foram extraídos do carrossel público da Timelens indicado pelo usuário, com coleta informada de 20/12 a 22/12, 0h, de 2025.

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Renato Dolci

Renato Dolci é cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital. Já desenvolveu trabalhos em diversos ambientes públicos e privados, como Presidência da República, Ministério da Justiça, FIESP, Banco do Brasil, Mercedes, CNN Brasil, Disney entre outros. Foi sócio do BTG Pactual e atualmente, é diretor de dados na Timelens, CRO na Hike e CEO na Ineo.