Crise tem efeitos perversos, mas ainda está longe de ser comparável a 1929

Embora conseqüências sejam devastadoras, números atuais ainda não permitem paralelos com Grande Depressão

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SÃO PAULO – A crise atual trouxe efeitos devastadores ao mundo: fechamento de centenas de milhares de postos de trabalhos, redução de salários, quebra de instituições financeiras centenárias. Fatos que remetem a paralelos com a crise de 1929.

Entre constantes comparações, há semelhanças evidentes e discrepâncias enormes entre os dois episódios. Em ambos os casos, a crise – por definição – pegou a economia norte-americana de surpresa e os períodos diretamente anteriores ao colapso foram marcados por consumo e empréstimos desenfreados. No lado das diferenças, grande destaque para a posição do Estado.

Até pela lição deixada por 1929, o governo tenta agilizar ao máximo suas intervenções. Já anunciou pacotes e constantemente sugere que novas iniciativas devem ser encaminhadas. Na condução da Grande Depressão que as idéias de Keynes ganharam força, pela resistência do mercado a intervenções, acreditando na mão-invisível que conduziria a economia de volta ao equilíbrio.

Diferença gritante

O episódio atual tem sua raiz facilmente pontuada. É consenso que a origem de todo o problema vem do mercado imobiliário e da ciranda financeira em seu entorno. O consenso que sobra atualmente falta em 1929. Diversas teorias tentam explicar a devastação da economia global naquele período. Há quem aponte para a supervalorização dos ativos e conseqüente quebra da bolsa de Nova York em 1929, para decisão do ministro britânico Winston Churchill em resgatar o padrão-ouro no Reino Unido ou para a condução da política monetária nos Estados Unidos.

A depressão que se espalhou pelo mundo foi espantosa. Para se ter uma idéia, a taxa de desemprego norte-americana atingiu alarmante marca de 24,9% em 1933. No Relatório de Emprego divulgado nesta sexta-feira (5), a mesma taxa foi pontuada em 6,7%, a maior desde 1993, mas praticamente insignificante se comparada aos níveis atingidos naquela época.

O retrato do juro básico norte-americano se assemelha ao atual. De 1929 a 1933, a taxa básica da economia dos EUA passou de 6% a 1,5% ao ano. Apenas um ano passado do surgimento do subprime, a equipe comandada por Ben Bernanke já puxou a Fed Funds Rate de 5,25% para 1% ao ano, evento que exprime a prontidão atual das autoridades monetárias.

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PIB já caiu 13%, em 1932

A recessão atual da maior economia do mundo só foi oficializada no início desta semana pelo National Bureau of Economic Research. O PIB (Produto Interno Bruto) norte-americano recuou 0,5% no terceiro trimestre de 2008. Setenta anos atrás, a atividade econômica dos EUA chegou a cair 8,6% em 1930, 6,4% em 1931 e 13% em 1932. Outra referência de enorme discrepância.

O episódio de 1929 foi marcado por forte retração dos preços. A deflação que atingiu o país puxou os índices de preços em aproximadamente 30% para baixo entre 1929 e 1930. A recuperação da economia mundial veio com a série de estímulos do New Deal aprovado por Franklin Delano Roosevelt, além da entrada do período de guerras, que tornou a economia norte-americana fornecedora às nações européias.

10 recessões, 10 Bear Markets

Diante da instabilidade das bolsas, as comparações se tornaram rotineiras. A crise de 1929 levou os índices acionários 89,5% para baixo. Até o momento, Wall Street recuou aproximadamente 43% este ano.

Mas desde 1940, os Estados Unidos passaram por 10 recessões. Na média, duraram 10 meses cada e levaram a taxa de desemprego a uma média de 7,6%. A bolsa diz a mesma coisa. Passaram por 10 Bear Markets desde o final do período de guerras, com declínio médio de 31,5% cada.

Estrada à frente

Cabe destacar que a comparação dos indicadores é viesada pelo fato da crise atual estar em andamento, não ter prazo de término definido ou idéia de até onde os impactos negativos podem chegar.

Se os dois episódios realmente forem dignos de comparação, a crise atual tem uma longa estrada pela frente.