A renda fixa brasileira está desatualizada. A próxima década é dos ETFs

No ETF Day da B3, ficou evidente que o futuro da renda fixa brasileira passa pelos ETFs

Danilo Gabriel

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Conta em três múltiplas corretoras, múltiplos produtos de renda fixa tais como CDB de banco médio, LCI sem liquidez, debênture incentivada comprada no lançamento e nunca revisitada, Tesouro IPCA, fundo de crédito com come-cotas, entre outros.

Não é exceção: é a média do investidor brasileiro.

E sobre essa carteira, a maioria, inclusive os sofisticados, não sabe responder perguntas básicas: qual o risco de crédito agregado, qual a tributação efetiva, qual a quebra por fator de risco (pré, CDI, IPCA, crédito, duration) e quanto sai, a que preço, se precisar do dinheiro semana que vem.

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Em 2026, ainda compramos renda fixa do mesmo jeito que comprávamos há muitos anos. A indústria de ações se reinventou, a de fundos se reinventou e a renda fixa, que engloba a maior fatia do bolso do investidor brasileiro, ainda tem muito potencial para evolução.

Lá fora, esse jogo já virou. Em 2003, os Estados Unidos tinham cerca de US$ 5 bilhões em ETFs de renda fixa. Hoje, são mais de US$ 2,3 trilhões, quatrocentas vezes maior do que há duas décadas, e aproximadamente 17% de toda a indústria americana de ETFs.

Dentro de uma indústria que cresceu em tudo, renda fixa foi o segmento que mais cresceu.

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No contexto brasileiro, o assunto está avançando de forma significativa: o BNDES acabou de indicar a XP Asset, em edital recente, para operar um ETF de renda fixa. 

Por que a renda fixa brasileira está parada? Três forças

Fragmentação: mais de R$ 3 trilhões alocados por pessoas físicas em ativos de renda fixa, segundo a Anbima, divididos em milhares de emissores, cada um com vencimento e rating próprios. Para diversificar de verdade, o investidor teria que virar analista de crédito.

Labirinto tributário: diversos regimes coexistindo: tabela regressiva, isenção PF, come-cotas, ganho de capital, o que faz o investidor alocar por imposto, não por risco.

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Opacidade: a marcação na curva vira tela bonita até a hora de vender, quando o spread aparece e já é tarde. Em conjunto com tudo isso, o Brasil ainda tem R$ 950 bilhões parados em poupança, mais de 15% do volume financeiro do varejo, rendendo abaixo da Selic.

Quando o investidor opta por perder dinheiro previsivelmente do que tentar entender o que a indústria oferece, aparece uma oportunidade de uma nova onda de evolução da forma como esse investidor aloca na renda fixa.

O que muda com o ETF de renda fixa. Três mudanças

Um ticker, uma estratégia inteira: caixa, longo prazo, crédito e juro nominal cabem em poucos tickers. Price discovery invertido: em renda fixa brasileira, o subjacente é opaco.

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Quando se coloca uma cesta desses ativos dentro de um ETF aberto, listado, com market maker operando todo dia, o ETF passará a ter mais informação de preço do que o próprio ativo. O ETF deixa de seguir. Passa a guiar.

É infraestrutura de price discovery que esse mercado nunca teve. Empoderamento tributário e perpetuidade: sem come-cotas, com alíquota fixa, imposto só na venda.

E, sobretudo, o ETF não vence, renovando posições internamente, sem evento tributário para o cotista. O juro composto pode rodar para eternidade.

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Onde estamos

Em fevereiro de 2026, pela primeira vez, o estoque de ETFs de renda fixa no Brasil ultrapassou o de ETFs de renda variável. Mas é preciso dimensionar: a Anbima mostra R$ 4,4 trilhões em fundos de renda fixa; a B3, R$ 47 bilhões em ETFs de renda fixa.

O crescimento mensal da indústria de fundos, ao CDI, é da ordem do estoque inteiro de ETFs. Esse é o tamanho do potencial. Apesar de uma evolução importante nos últimos anos, ainda existe muito espaço para evolução de grade para preenchimento da lacuna que diversos instrumentos de renda fixa ocupam.

Além disso, existem dois destravamentos estruturais que ajudariam na evolução dessa indústria: ETF Ativo de renda fixa e distribuição, porque o ETF pede modelos como fee fixo e carteira administrada, onde a alocação se otimiza por mérito de produto e alocação, não de remuneração.

Numa visão de futuro, acredito que daqui a dez anos, o investidor brasileiro de renda fixa não terá múltiplos produtos como tem hoje.

Terá uma cesta pequena de ETFs capaz de cobrir toda a complexidade da classe. Vai pensar carteira por fator: risco de mercado, crédito, duration.

Uma visão em três eixos, com poucas opções em cada trazendo uma diversificação eficiente para o portfólio e uma combinação infinita de carteiras possíveis.

Saiu do “não sabe” para o “sabe”, essa é a grande transformação. No próximo bull market, não tenho dúvidas que o ETF será o grande ganhador da renda variável e o ciclo de alta fará o trabalho de educação no calor da hora. Mas para a renda fixa, não precisamos de bull market. Precisamos do investidor com mais conhecimento.

É exatamente nesse tipo de gap que os gestores estão atuando, que a mídia tem potencializado, a B3 fazendo mais eventos, entre tantas outras iniciativas importantes. A próxima década já começou e ela tem nome: ETF, em especial, ETFs de Renda Fixa.

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Danilo Gabriel

É Sócio e Portfolio Manager na XP Asset Management, onde atua desde 2017 em diversas funções ligadas à gestão de fundos e estratégias passivas e internacionais. Ao longo de sua trajetória na XP, tornou‑se sócio em 2020 e hoje é um dos responsáveis pela área de fundos indexados (ETFs) da gestora.