Dividendos “gordos” em FIIs exigem atenção, dizem analistas; entenda os riscos

Qualidade dos ativos, alavancagem, geração de caixa estão entre os pontos considerados cruciais na análise de FIIs

Vinicius Alves

Ativos mencionados na matéria

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O recente caso envolvendo o CACR11 (Cartesia Recebiveis Imobiliarios), que suspendeu pagamento de dividendos em maio, retomou um alerta aos investidores: até que ponto olhar apenas para o dividend yield pode esconder riscos relevantes dentro da carteira?

Para Renato Pereira, CFP e sócio-fundador da Private Investimentos, avaliar apenas o dividendo pode levar o investidor a ignorar elementos essenciais da estrutura do fundo. Segundo ele, fatores como qualidade dos ativos, diversificação, contratos, gestão e alavancagem precisam entrar na análise antes da tomada de decisão.

“Alguns indicadores são importantes para um investidor avaliar antes de investir em um FII, como tamanho do fundo, diversificação, localização e qualidade dos ativos, características dos contratos, histórico de gestão, preço sobre valor patrimonial e índice de alavancagem”, afirma Pereira.

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No caso específico dos fundos de CRI, o executivo destaca que a análise precisa ir além da taxa oferecida. Garantias, relação entre dívida e colateral (LTV), agentes envolvidos na operação, indexadores e liquidez fazem parte dos pontos considerados mais cruciais na avaliação de risco.

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Dividendos elevados podem esconder riscos, alertam especialistas

Sylvio Martins, analista de produtos alternativos da Arton Advisors, avalia que muitos investidores acabam olhando apenas para o retorno mensal sem analisar efetivamente o que existe “embaixo do dividendo”.

“O investidor precisa olhar o que está comprando por debaixo. Se é uma carteira de recebíveis, um imóvel alugado ou um ativo de desenvolvimento”, afirma.

Segundo ele, métricas como valor do metro quadrado, cap rate e valor patrimonial dos imóveis ajudam a identificar se o mercado está precificando os ativos de forma coerente ou exagerada. Martins relembra, por exemplo, distorções observadas durante o ciclo de juros baixos entre 2019 e 2020.

“Tinham galpões sendo avaliados a R$ 6 mil por metro quadrado, sendo que você construía um novo por quase R$ 2 mil. Quem parou para fazer conta percebeu que o dividendo estava sendo impulsionado por um cenário artificialmente favorecido pela queda forte dos juros”, comenta.

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É preciso acompanhar geração recorrente de caixa

Outro ponto destacado pelos analistas é a necessidade de acompanhar a geração recorrente de caixa dos fundos.

Uma das ferramentas mais importantes para isso, diz Pereira, é a DRE (Demonstração do Resultado do Exercício), documento que permite verificar se os dividendos distribuídos estão efetivamente sendo sustentados pelas receitas do fundo.

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“As fontes mais comuns são o uso de reserva de resultados acumulados, que é legítimo mas finito; a distribuição de amortizações de principal de CRIs, que é o caso mais delicado porque o cotista recebe o que parece dividendo enquanto o patrimônio do fundo encolhe; ganhos de capital não recorrentes de venda de ativos; ou simplesmente caixa ocioso sendo distribuído para manter o yield aparente”, diz Rafael Morais,
Head de Relações com Investidores da Iridium.

“Identificar quando um dividendo está sendo sustentado por caixa e não pela geração recorrente faz parte da análise de qualquer bom alocador”, pondera Martins.