Chanceler iraniano vai ao Paquistão em meio a bloqueio naval dos EUA

Abbas Araghchi deve desembarcar em Islamabad nesta sexta-feira (24) e é esperada uma segunda rodada de negociações de paz entre EUA e Irã

Bloomberg

Chanceler iraniano Abbas Araqchi em Moscou
 17/12/2025   REUTERS/Ramil Sitdikov
Chanceler iraniano Abbas Araqchi em Moscou 17/12/2025 REUTERS/Ramil Sitdikov

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O chanceler do Irã deve chegar ao Paquistão, hoje o principal mediador entre Teerã e Washington, embora ainda não esteja claro se ele vai se encontrar com autoridades americanas.

Abbas Araghchi deve desembarcar em Islamabad nesta sexta-feira (24), e uma segunda rodada de negociações de paz entre EUA e Irã é dada como certa por autoridades paquistanesas ouvidas pela reportagem. Elas, porém, não detalharam quando as conversas devem acontecer nem em qual nível.

Segundo a imprensa iraniana, Araghchi está em uma “gira regional” que inclui ainda Omã e Rússia. A Casa Branca não respondeu de imediato aos pedidos de comentário sobre a possibilidade de uma nova rodada de negociações de paz e, até o momento, não há sinais de que o vice-presidente JD Vance, principal negociador dos EUA, esteja prestes a viajar ao Paquistão.

O anúncio ocorre em meio ao aumento da pressão de Washington sobre Teerã, com um bloqueio naval para tentar levar o regime iraniano à mesa de negociações, enquanto Israel e Líbano devem prorrogar por mais três semanas o cessar-fogo em vigor.

O presidente Donald Trump ordenou à Marinha dos EUA que atire contra qualquer embarcação que coloque minas no Estreito de Ormuz, depois de militares americanos interceptarem dois superpetroleiros que tentaram driblar as restrições ao tráfego de e para os portos iranianos.

A medida de Trump, que acusa o Irã de instalar minas navais no estreito, faz parte da estratégia da Casa Branca de cortar as exportações de petróleo do país, sufocando sua economia e tentando forçar concessões que ajudem a encerrar a guerra.

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O secretário de Defesa de Trump, Pete Hegseth, disse nesta sexta-feira que um segundo porta-aviões deve se juntar ao bloqueio nos próximos dias.

“Tenho todo o tempo do mundo, mas o Irã não — o relógio está correndo!”, escreveu Trump em uma postagem na Truth Social.

Aliados do presidente afirmam que o bloqueio deve obrigar o Irã a começar a reduzir a produção de petróleo — sua principal fonte de divisas — em cerca de duas semanas. Analistas do JPMorgan, no entanto, estimam que os EUA podem levar mais perto de um mês para atingir esse objetivo.

A operação naval dos EUA já levou muitos navios ligados ao Irã a darem meia-volta em vez de atravessar o Estreito de Ormuz. Ainda assim, alguns continuam fazendo a travessia, segundo empresas de rastreamento de embarcações, o que pode dar a Teerã alguma margem para suportar as restrições por mais tempo.

Um superpetroleiro sancionado pelos EUA e carregado com petróleo iraniano aparentemente interrompeu sua passagem pelo Estreito de Ormuz nesta sexta-feira.

O tráfego na rota marítima — por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo — segue praticamente paralisado.

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Esse quadro alimenta o temor de novas altas nos preços de combustíveis e de uma consequente desaceleração da economia global.

O petróleo subiu pelo quinto dia consecutivo nesta sexta-feira, com o Brent em torno de US$ 106 o barril. O referencial global avançou 17% na semana, acumulando alta de 46% desde o início da guerra. Ataques dos EUA e de Israel ao Irã deflagraram o conflito no fim de fevereiro.

A Casa Branca deu mais 90 dias de prazo a uma isenção para o transporte marítimo que facilita a movimentação de petróleo, combustíveis e fertilizantes nos EUA, na mais recente tentativa de conter os choques de oferta provocados pela guerra.

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O preço médio da gasolina nos postos americanos já supera US$ 4 por galão, o maior nível desde 2022, o que ajuda a reforçar a impopularidade do conflito entre a maioria dos eleitores.

Segundo a Bloomberg, alguns assessores de Trump avaliam que a retórica dura e provocativa do presidente nas redes sociais, somada à manutenção do bloqueio, está atrapalhando as chances de um acordo de paz com o Irã. Negociadores iranianos afirmam que as postagens de Trump têm o objetivo de humilhar a liderança em Teerã e reduzirem a disposição do regime para fechar um entendimento, de acordo com autoridades envolvidas nos esforços diplomáticos.

Autoridades iranianas chegaram a anunciar, na última sexta-feira, a reabertura do estreito para todo o tráfego comercial. A decisão, porém, foi revertida rapidamente quando ficou claro que os EUA não suspenderiam o bloqueio em paralelo.

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O impasse mantém o risco de retomada dos combates. A guerra, na qual o Irã atacou Israel e países árabes do Golfo com milhares de drones e mísseis, já deixou mais de 5.000 mortos.

“O bloqueio naval dos EUA ao Irã parece menos hermético do que Washington afirma”, disseram analistas da Bloomberg Economics Becca Wasser, Chris Kennedy e Dina Esfandiary, em nota. “Isso tende a reduzir seu impacto como ferramenta de pressão econômica e a minar seu objetivo central: forçar Teerã a abrir mão do controle do Estreito de Ormuz e voltar à mesa de negociações.”

Trump afirmou, no fim da quinta-feira (23), que Israel e Líbano vão prorrogar o cessar-fogo que terminaria no domingo (26), retirando um dos obstáculos ao fim da guerra com o Irã.

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O presidente anunciou o acerto em uma postagem nas redes sociais após se reunir com enviados israelenses e libaneses na Casa Branca. Ele disse ainda que pretende receber em breve o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente libanês, Joseph Aoun. Nenhum dos líderes confirmou, e o encontro seria politicamente sensível, já que os dois países não mantêm relações diplomáticas.

Israel trava uma guerra contra o Hezbollah, grupo militante apoiado pelo Irã no Líbano. Trump quer evitar a retomada dos ataques no país árabe porque Teerã condiciona um acordo de paz mais amplo com os EUA à manutenção da trégua.

Israel invadiu o sul do Líbano e lançou bombardeios sobre a capital, Beirute, e outras regiões depois que o Hezbollah, em solidariedade ao Irã, passou a disparar foguetes contra o território israelense no início de março. Mais de 2.000 libaneses morreram na guerra e mais de 1 milhão foram deslocados, segundo o governo local.

Israel argumenta que os ataques e a ocupação de áreas do sul do Líbano são necessários para proteger suas comunidades no norte. O cessar-fogo na região está em vigor desde 16 de abril e, em linhas gerais, vem sendo respeitado, embora os dois lados se acusem mutuamente de violações pontuais.

A trégua não prevê a retirada das tropas israelenses do Líbano.

Nesta sexta-feira, Netanyahu informou, em comunicado separado, que passou recentemente por um tratamento bem-sucedido contra um câncer e que está “em excelente condição física”.

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