Dólar recua e abre janela rara para empresas: o problema é que poucos estão preparados para aproveitá-la

Alívio cambial recente, impulsionado por fatores geopolíticos, expõe um velho desafio do empresariado brasileiro: reagir menos e se antecipar mais em um cenário de volatilidade constante

Vivian Sesto

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O dólar nunca é só o dólar. Ele carrega medo, expectativa, política, guerra e, principalmente, impacto direto no caixa das empresas. Nos últimos dias, a moeda americana voltou a recuar e rondar a casa dos R$ 4,90, um movimento que, à primeira vista, parece apenas um respiro. Mas, olhando mais de perto, é uma janela.

Parte dessa queda está associada ao alívio no cenário geopolítico, especialmente com sinalizações de possível distensão entre Estados Unidos e Irã, reduzindo tensões no Estreito de Ormuz, uma região estratégica para o fluxo global de petróleo. Menos tensão, menos pressão sobre commodities, menos aversão ao risco e o câmbio responde.

Mas vale lembrar: não faz tanto tempo que o dólar superava os R$ 6,00. Em 2024, chegou próximo de R$ 6,13. Quem, naquele momento, apostaria em um patamar abaixo de R$ 5 no curto prazo? Esse é o ponto. O câmbio não é previsível, ele é cíclico, volátil e, muitas vezes, contraintuitivo.

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E é exatamente aí que mora um dos maiores desafios das pequenas e médias empresas brasileiras: operar como se o cenário fosse estável, quando ele, por natureza, não é.

Na prática, o que se observa em reuniões com empresários é um padrão recorrente. Quando o dólar sobe, há uma corrida por proteção e quando cai, surge a sensação de alívio. Poucos tratam o câmbio como variável estratégica contínua. A maioria reage e quase ninguém se antecipa.

Para empresas importadoras, o momento atual pode representar uma oportunidade concreta de ganho de eficiência. Antecipar pagamentos, renegociar contratos atrelados ao dólar, recompor margens ou até estruturar operações de hedge para travar custos futuros são movimentos que podem transformar volatilidade em previsibilidade. Não se trata de “apostar” na queda, mas de aproveitar janelas para reduzir exposição.

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Já para exportadores, o cenário exige mais atenção do que ação imediata. A valorização do real pode pressionar margens, especialmente em setores mais sensíveis a preço internacional. Aqui, estratégias de proteção cambial e revisão de estrutura de custos passam a ser ainda mais relevantes para preservar competitividade.

Mas, independentemente do lado da operação, há uma reflexão mais profunda: empresas saudáveis não são aquelas que acertam o timing do dólar, e sim aquelas que constroem mecanismos para não depender dele.

E isso passa, inevitavelmente, por gestão financeira: fluxo de caixa projetado, acompanhamento rigoroso de receitas e despesas, análise de exposição cambial, uso consciente de instrumentos como derivativos e, principalmente, disciplina na tomada de decisão. São esses elementos que permitem ao empresário sair do modo reativo e entrar em uma postura estratégica.

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Nesse contexto, um instrumento ainda pouco explorado por muitas PMEs, mas essencial, é o uso de hedge por meio de derivativos. Mais do que uma estratégia sofisticada, trata-se de uma prática básica de gestão de risco: proteger parte da exposição cambial para reduzir a imprevisibilidade do caixa. Não significa eliminar ganhos potenciais, mas evitar perdas relevantes em cenários adversos. Empresas que estruturam uma política clara, deixam de depender exclusivamente do humor do mercado.

E aqui entra um ponto fundamental: entender essas soluções e contar com o apoio de um parceiro financeiro qualificado faz toda a diferença. Porque, no fim, gestão cambial eficiente não é sobre prever o dólar, mas sobre garantir que ele não comprometa o futuro do negócio.

Outro ponto que não pode ser ignorado é o efeito indireto do câmbio sobre inflação, custo de insumos e preço de commodities. Mesmo empresas que não operam diretamente com importação ou exportação sentem o impacto, seja no custo da matéria-prima, seja na pressão sobre preços ao consumidor. O câmbio, nesse sentido, é transversal e atravessa toda a cadeia.

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O cenário global continua carregado de incertezas: conflitos geopolíticos, ciclos de juros, movimentações de capital e agendas políticas, inclusive eleitorais. Entender que volatilidade é um fato previsível, é o que faz a diferença no planejamento financeiro corporativo.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “para onde vai o dólar?”, mas sim: como a sua empresa está se preparando para qualquer direção que ele tome?

Porque, no fim do dia, o câmbio pode até ser incontrolável. Mas a forma como sua empresa se posiciona diante dele não é.

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Vivian Sesto

Partner XP INC e Head de Ações Comerciais XP Empresas, Palestrante do Banco de Atacado XP, colunista InfoMoney e mentora XP Educação Profissional com certificação internacional de planejadora financeira CFP, com MBA em Gestão de Negócios pelo Insper. Especialista em gestão de investimentos para PJ´s, com mais de 18 anos de experiência junto as maiores instituições financeiras do país.