Wall Street começa a montar apostas contra o crédito privado americano

Instrumentos que permitem apostar no calote de fundos surgem dias após lançamento de índice que acompanha setor, revela o Financial Times

Paulo Barros

Pedestres em Wall Street perto da Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) em Nova York (Michael Nagle/Bloomberg)
Pedestres em Wall Street perto da Bolsa de Valores de Nova York (NYSE) em Nova York (Michael Nagle/Bloomberg)

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JPMorgan, Barclays, Morgan Stanley e Citigroup passaram a negociar credit default swaps (CDS) sobre fundos de gigantes do crédito privado americano, como Blackstone, Apollo Global e Ares Management, revelou o Financial Times nesta sexta-feira (17).

Os CDS são derivativos que pagam ao comprador em caso de inadimplência dos fundos. Também podem ser usados por quem simplesmente aposta que o risco percebido do setor vai aumentar, o que já faz os preços subirem, mesmo sem calote efetivo.

Os contratos começaram a ser negociados logo após a S&P Global lançar, em 13 de abril, o índice CDX Financials, que inclui os três gestores ao lado de bancos, seguradoras e empresas imobiliárias. O principal alvo dos novos instrumentos é o Blackstone Private Credit Fund, o maior do setor, com US$ 83 bilhões em investimentos. Desde o lançamento do índice, os spreads de CDS dos três fundos recuaram, e estrategistas do JPMorgan esperam compressão adicional no spread do fundo da Blackstone.

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O timing é delicado. A indústria de crédito privado, avaliada em US$ 2 trilhões, enfrenta uma onda de pedidos de resgate de investidores. Apesar disso, grandes bancos dos EUA ainda não veem ruptura. Em nota publicada na quarta-feira (16), o Goldman Sachs reforçou visão construtiva sobre bancos, que estariam protegidos do cenário sensível no crédito atualmente, apontando o aumento dos spreads como movimento técnico.

Já o setor de software parece estar mais exposto. Tanto o Goldman Sachs quanto o JPMorgan chegaram a explorar total return swaps para apostar contra empréstimos a empresas de software, mas as operações não foram executadas de forma relevante, segundo o FT. O Bank of America chegou a propor a clientes posições contra ações expostas a choques no crédito privado, mas acabou retirando a recomendação, acrescentou o jornal.

“Na medida em que há preocupações percebidas com o risco, a atividade em CDS aumenta”, disse Nicholas Godec, chefe de renda fixa negociável e commodities da S&P, ao FT. “É um ciclo de retroalimentação similar ao que levou à criação desse índice.”

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)