Churrasco ‘salgado’: inflação da carne e da cerveja supera IPCA em 12 meses

Enquanto o IPCA registrou 4,14% até março, carnes e bebidas saltaram mais de 5,5%; alta do dólar, custos de insumos e estiagem explicam o encarecimento no varejo.

Élida Oliveira

Ativos mencionados na matéria

(Foto: Emerson Vieira / Unsplash)
(Foto: Emerson Vieira / Unsplash)

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A inflação do “kit churrasco” pesou mais no bolso do consumidor brasileiro nos últimos 12 meses, superando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do país. Entre março de 2025 e março de 2026, enquanto o IPCA geral acumulou alta de 4,14%, os preços da carne avançaram 5,68% e os da cerveja, 6,06%.

Segundo Fernando Gonçalves, gerente do IPCA no IBGE, o movimento reflete gargalos nas cadeias produtivas de ambos os setores. A pressão nos preços pode ser explicada por uma combinação de fatores.

No caso da cerveja, o preço final sofre influência da alta nos custos de produção, como do alumínio usado nas latas, além de insumos agrícolas que tiveram redução na oferta global.

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Em relação à carne, os preços são pressionados pelos efeitos da estiagem nas pastagens, pelo aumento dos custos de produção (como ração) e pela valorização do dólar, que estimula as exportações e encarece o produto no mercado interno.

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Histórico de pressão nos preços

Ampliando a janela de análise, a carne também superou o IPCA no acumulado de 12 meses encerrados em janeiro de 2025 (disparada de 21,17%) e no mesmo período até janeiro de 2021 (alta de 22,82%).

Gonçalves explica que, no segundo semestre de 2020, houve um salto nas exportações e elevação nos custos da ração devido à seca. O cenário de estiagem se repetiu em 2024, voltando a puxar os preços para cima na virada para 2025.

Por outro lado, em janeiro de 2024, a carne registrou deflação acumulada de 8,87%, refletindo o maior descarte de matrizes (abate de bovinos) em 2023, o que aumentou a oferta no mercado.

Por outro lado, em janeiro de 2024, a carne registrou deflação acumulada de 8,87%, refletindo o maior descarte de matrizes (abate de bovinos) em 2023, o que aumentou a oferta no mercado.

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Já a cerveja vem superando o índice geral há mais tempo. O item ficou acima do IPCA nos acumulados de 12 meses até janeiro de 2026 (alta de 5,39% contra 4,44% do índice geral), janeiro de 2025 (4,74% contra 4,56%) e janeiro de 2023 (10,55% contra 5,77%).

IPCA – Variação acumulada em 12 meses (%)
jan/21jan/22jan/23jan/24jan/25jan/26mar/26
Índice geral4,5610,385,774,514,564,444,14
Carnes22,829,980,04-8,8721,171,75,68
Cerveja3,77,8310,554,014,745,396,06
Fonte: IBGE – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo

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O impacto nas empresas e na Bolsa

Paulo Petroni, diretor-geral da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), pondera que, em um recorte de dez anos, a inflação da cerveja ficou cerca de 4% abaixo do índice geral. Ele destaca que a forte concorrência impede as cervejarias de repassarem integralmente a alta de custos aos consumidores, sob o risco de perderem mercado.

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A dificuldade de repasse e o ambiente macroeconômico já aparecem nos balanços. Os resultados consolidados de 2025 da Ambev (ABEV3) mostraram uma queda de 4,5% no volume total de cerveja vendido no Brasil. Segundo o relatório da companhia, “condições climáticas adversas e um ambiente de consumo mais desafiador reduziram as ocasiões de consumo, especialmente nos canais ligados à socialização”.

A Heineken relatou cenário semelhante em 2025, com recuo no volume de vendas no país justificado por uma demanda mais fraca e ajuste de estoques nos revendedores.

Para compensar o volume menor, a estratégia do setor tem sido focar em marcas premium, que garantem margens de lucro melhores.

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Já os frigoríficos ficam divididos entre mercado interno e externo. Do lado da proteína animal, a inflação da carne também reflete a dinâmica das gigantes do setor listadas na B3, como JBS (JBSS3), Marfrig (MRFG3), BRF (BRFS3) e Minerva (BEEF3).

Se por um lado o dólar valorizado beneficia as receitas de exportação dessas companhias, por outro, os custos de pastagem e o boi gordo mais caro pressionam as margens operacionais das vendas voltadas para o consumidor brasileiro, que já sofre com o poder de compra achatado pela inflação.