Alta do petróleo: Goldman Sachs eleva projeção da taxa de juros no Brasil; entenda

Os analistas do Goldman Sachs estimam um aumento significativo da inflação para a América Latina como um todo, classificado como um "efeito cascata" do conflito

Victória Anhesini

Refinaria de petróleo (Foto: REUTERS)
Refinaria de petróleo (Foto: REUTERS)

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O prolongamento da crise no Oriente Médio e a interrupção quase total dos fluxos de petróleo pelo Estreito de Ormuz forçaram uma revisão profunda no cenário macroeconômico para 2026. 

Em relatório divulgado nesta quarta-feira (25), a equipe de Commodities do Goldman Sachs projeta o valor do petróleo Brent médio de US$ 85 no ano, mas reforça que a persistência do conflito pode levar a commodity a superar o recorde histórico de 2008. 

Segundo o documento, esse choque energético atua como um “imposto global”, combinando uma inflação resistente com um aperto forte nas condições financeiras, o que classificaria uma diminuição de crescimento da América Latina.

Inflação revisada

Mesmo com a distância geográfica do conflito, a América Latina vai sentir o “efeito cascata” do choque energético. O Goldman Sachs aumentou a previsão de inflação para a região de 6,6% para 7,6% em 2026. 

De acordo com o documento, os analistas do GS dizem que o risco para os preços ao consumidor está se ampliando para além dos combustíveis. As commodities energéticas são insumos imprescindíveis para transporte e geração de energia, o que tem impacto direto nos custos de manufatura.

Um ponto crítico destacado é a pressão vinda da China, onde a previsão de PPI (Índice de Preços ao Produtor) foi revisada para o território positivo, encerrando três anos de deflação que ajudavam a segurar os preços globais de bens. 

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Somado a isso, o aumento nos custos de fertilizantes (atrelados ao gás) e dos fretes e seguros internacionais adiciona pressão de alta nos preços dos alimentos e produtos importados em toda a América Latina.

Taxa de juros e bancos centrais

Quando se trata de política monetária, a expectativa é que os bancos centrais da América Latina tentem “ignorar” o choque de oferta inicial, mas a deterioração das expectativas de inflação e os efeitos secundários vão forçar ajustes.

Especificamente no Brasil, que acabou de ter seu primeiro corte na taxa básica de juros em anos, o cenário de inflação mais alta e expectativas crescentes levou o Goldman Sachs a revisar a taxa Selic para 12,75% ao final de 2026 (ante 12,50% anteriormente). 

Na visão dos analistas, a régua para o Copom elevar as taxas ou interromper bruscamente o ciclo de queda permanece alta, mas o banco agora projeta um caminho de flexibilização muito mais defensivo. 

Já no México, por exemplo, a postura também endureceu: o corte de juros previsto para junho foi adiado para setembro, acompanhando a sinalização do Federal Reserve (Fed) nos Estados Unidos. A Colômbia é citada como o caso mais grave, já imersa em um ciclo de aperto devido a pressões inflacionárias prévias ao choque.

Impacto no crescimento

A guerra no Irã apertou as condições financeiras globais. O Índice de Condições Financeiras (FCI), do Goldman Sachs, subiu cerca de 35 pontos-base desde o final de 2025. O banco estima que o choque atual vai subtrair 0,4 p.p. do crescimento do PIB global no caso base, podendo chegar a 1,2 p.p. em um cenário severamente adverso.

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Para a América Latina, a transmissão desse aperto não é uniforme. De acordo com o relatório, choques de petróleo costumam impulsionar a inflação na região e desencadear respostas mais rigorosas (hawkish) da política monetária: um aumento de 10% nos preços associa-se a uma inflação 0,3 p.p. maior e juros de curto prazo 0,1 p.p. mais altos.

No crescimento, o impacto varia conforme o perfil do país:

Veja a variação de todos os países da América Latina citados no relatório do Goldman Sachs:

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PaísRevisão de Crescimento (PIB 2026)Variação (bps/p.p.)
Brasil1,9%-10 bps
PeruNão mencionado-40 bps
MéxicoNão mencionado-30 bps
ChileNão mencionado-30 bps
EquadorNão mencionado+10 bps
ArgentinaSem alteração0 bps
LA7* (Média)2,0%-10 bps

*Grupo formado por Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Equador

Política fiscal

Outro pilar central da análise é como os governos pretendem decidir sobre a distribuição do custo do petróleo mais caro. O GS afirma que as escolhas fiscais podem moldar a magnitude e a persistência do choque nos preços. 

No Chile e no Peru, a decisão foi de repassar o aumento aos consumidores via mecanismos de suavização, o que protege o balanço do governo mas gera inflação imediata mais forte.

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Já em países como Brasil, México e Colômbia, a tendência é o uso de subsídios diretos e desonerações. “O custo de subsídios diretos aos combustíveis e desoneração fiscal pesará sobre as contas fiscais ou limitará o ganho inesperado de receita nos cofres públicos”, afirma o relatório. 

O banco ainda reforça que, se o choque se intensificar para o cenário “severamente adverso”, os bancos centrais podem ser forçados a mudar o foco da inflação para o crescimento, utilizando intervenções cambiais e políticas comerciais para evitar um colapso maior da atividade econômica.

Dinâmica de preços 

A revisão do GS é baseada em um cenário de interrupção de seis semanas, seguido por uma recuperação gradual de um mês. Em seu caso base, o Brent deve atingir a média de US$ 85 em 2026 e US$ 80 em 2027. 

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Porém, o relatório entra em detalhes nos riscos assimétricos. “Interrupções mais longas poderiam empurrar o óleo bruto acima do recorde de 2008 e elevar a média do Brent para acima de US$ 100 em 2026 – chegando a US$ 115 em um cenário severamente adverso”, diz o documento.

Por outro lado, os analistas também têm a percepção que um fim antecipado das hostilidades militares poderia reduzir rapidamente o prêmio de risco. 

Além do preço imediato, os especialistas esperam que o armazenamento estratégico aumente globalmente em resposta aos riscos de produção concentrada, mantendo os preços pressionados em horizontes mais longos.