Conteúdo editorial apoiado por

Como tensão no Estreito de Ormuz encarece seguros marítmos e pode pesar no seu bolso

Cancelamento de coberturas de guerra para navios que passam pela região eleva custos com logística, pressiona cadeias globais de suprimentos e pode impactar preços no Brasil

Vitor Oliveira

Publicidade

A escalada do conflito no Oriente Médio colocou o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo — no centro das atenções do mercado global.

Com ataques a embarcações, retenção de navios e risco crescente à navegação, seguradoras marítimas passaram a cancelar coberturas contra riscos de guerra ou suspender novas apólices para operações na região.

A decisão, prevista em contrato, já eleva custos logísticos e pode impactar o consumidor final.

O que está acontecendo no Estreito de Ormuz?

Situado entre Irã e Omã, o Estreito de Ormuz é um corredor estratégico por onde passa cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e gás.

Mas desde o início dos confrontos na região, em 28 de fevereiro, com os ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, a região teve forte redução no tráfego marítimo e aumento de risco para embarcações.

Os dados mostram a dimensão. Segundo levantamento da empresa britânica de dados marítimos Lloyd’s List Intelligence, entre 1º e 11 de março de 2025, mais de 1.200 embarcações cruzaram o estreito. No mesmo período recente, foram apenas 77 travessias .

Além disso, o ambiente de risco se deteriorou rapidamente. Desde o início de março, ao menos 20 embarcações comerciais relataram ataques ou incidentes na região, incluindo petroleiros, de acordo com a agência britânica UKMTO.

A Organização Marítima Internacional (OMI) também confirmou múltiplos episódios envolvendo navios de transporte de energia.

Leia mais: Dados de tráfego mostram que 15 navios transitaram pelo Estreito de Ormuz em 3 dias

Continua depois da publicidade

Por que seguradoras estão cancelando coberturas?

A retirada de cobertura para embarcações marítimas é uma resposta direta ao aumento abrupto do risco. Em regiões de conflito, cresce a probabilidade de perdas simultâneas e de grande escala, o que pressiona a capacidade financeira das seguradoras.

“Na prática, os seguradores passam a enxergar risco de perdas severas e correlacionadas: ataque a casco, carga, tripulação, poluição, bloqueio de rota, retenção de embarcação e múltiplos sinistros quase ao mesmo tempo”, afirma Denis Teixeira, vice-presidente sênior de Transportes e Logística da Alper Seguros.

Na avaliação de Tatiana Algodoal, sócia da área consultiva da Schalch Sociedade de Advogados, especialista em seguros e resseguros, os ataques a embarcações transformam um risco antes considerado apenas “potencial” como algo “concreto, atual e de elevada severidade”.

Continua depois da publicidade

“O que diferencia o caso do Estreito de Ormuz é a combinação de fatores: a velocidade da escalada, a relevância sistêmica da rota, a concentração de ativos de alto valor, a existência de ameaças diretas e públicas à navegação e o efeito agregado sobre seguradoras e resseguradoras em escala global”, explica.

Quer saber mais sobre seguros? Inscreva-se na Segura Essa: a newsletter de Seguros do InfoMoney.

Cancelamento é quebra de contrato?

Apesar do impacto econômico, o cancelamento do seguro não costuma ser considerado descumprimento de contrato, segundo os especialistas ouvidos pelo InfoMoney.

Continua depois da publicidade

“Esses contratos costumam incluir cláusulas específicas que permitem às seguradoras revisar, suspender ou cancelar a cobertura mediante aviso prévio. Ou seja, a possibilidade de cancelamento já faz parte da arquitetura contratual desse tipo de seguro.”

— explica Denis Teixeira, da Alper Seguros

Na prática, o ponto central não é se a seguradora pode cancelar, mas se o cancelamento foi feito respeitando as regras previstas na apólice (contrato de seguro).

Segundo Algodoal, os contratos de seguro marítimo incorporam cláusulas padrão internacionais — como a Institute War Cancellation Clause — que autorizam o cancelamento da cobertura de guerra mediante aviso prévio, normalmente de 7 dias ou 72 horas. Mas só é válido se o prazo de aviso seja respeitado e a cobertura seja mantida para riscos já iniciados antes da data efetiva do cancelamento.

“Embarques realizados antes da eficácia do aviso, permanecem cobertos. Embarques posteriores a data do cancelamento, ficam sem a cobertura para riscos de guerra”, diz Algodoal.

Continua depois da publicidade

Como isso impacta o consumidor brasileiro?

Mesmo distante do conflito, o Brasil não fica imune. O impacto chega de forma indireta, via aumento de custos, dizem os especialistas.

“Sem cobertura de risco de guerra, o navio não navega, ou apenas navega mediante renegociação onerosa e excepcional, com efeitos econômicos e jurídicos que acabam por afetar todos que estão na operação de transporte marítimo.”

— comenta Tatiana Algodoal, do Schalch Advogados

Leia mais: Entenda em 6 pontos as mudanças do novo Marco Legal do Seguro para o segurado

Segundo ela, esse movimento tende a se refletir, em primeiro lugar, em combustíveis mais caros, o que já está acontecendo.

Nesta terça-feira (17), os índices de referência do petróleo bruto do Oriente Médio atingiram recordes históricos, tornando-se os mais caros do mundo.

O preço do petróleo Dubai foi avaliado em um recorde de US$ 157,66 (R$ 824,56) para cargas de carregamento de maio, informou a S&P Global Platts, superando o recorde histórico dos futuros do barril Brent, referência mundial, de US$ 147,50 em 2008.

Rodrigo Protasio, CEO da Gallagher Retail no Brasil e especialista em Grandes Riscos, destaca que a volatilidade financeira e a pressão sobre os preços do petróleo geram um efeito cascata.

“Conflitos prolongados pressionam o preço do petróleo e ampliam os custos de energia, alimentando a inflação global. Isso impacta o setor de seguros ao elevar custos de sinistros [ocorrência do risco previsto no contrato] e valores segurados”, diz.

Teixeira, da Alper, explica que quando sobe o prêmio de seguro (valor pago pelo cliente à seguradora ao contratar a proteção), sobe também o custo total do transporte marítimo. “Esse repasse acaba entrando no custo Brasil e, em muitos casos, no preço final ao consumidor”, pontua o especialista.

Esse encarecimento se propaga pela cadeia produtiva, afetando o custo de produção e distribuição de bens essenciais. Por exemplo: alimentos tornam‑se mais caros em razão do aumento do preço de fertilizantes, energia e frete. Produtos importados, por sua vez, sofrem reajustes decorrentes do maior custo logístico e da menor previsibilidade das entregas.

“O efeito não se limita a um setor específico, mas alcança diferentes segmentos do consumo cotidiano”, diz Algodoal.

Na perspectiva de Leonardo Coelho, CEO para o Brasil na Aon, as implicações para energia e cadeias de suprimentos dependerão fortemente da duração e da escalada.

“Qualquer interrupção prolongada começa a afetar o suprimento, coloca pressão crescente sobre os preços e cria efeitos subsequentes nas cadeias de suprimentos globais muito além da região”, diz.

Tem alguma dúvida sobre o tema? Envie para leitor.seguros@infomoney.com.br que buscamos um especialista para responder para você!