Como a Europa está aprendendo a dizer “não” a Trump na guerra do Irã

Quase três semanas após o início da guerra, chanceleres e primeiros-ministros europeus descartam enviar tropas ou navios ao Estreito de Ormuz e priorizam o impacto econômico do conflito

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Pessoas retiram escombros de uma casa no distrito de Beryanak, em Teerã, após ela ter sido danificada por ataques com mísseis dois dias antes, em 15 de março.

Fotógrafo: Majid Saeedi/Getty Images
Pessoas retiram escombros de uma casa no distrito de Beryanak, em Teerã, após ela ter sido danificada por ataques com mísseis dois dias antes, em 15 de março. Fotógrafo: Majid Saeedi/Getty Images

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A Europa está aprendendo a dizer “não” a Donald Trump em relação à sua guerra no Irã.

Quase três semanas após o início do conflito em expansão, líderes europeus deixaram de tergiversar e passaram a dizer abertamente ao presidente dos EUA que não vão ajudar em sua campanha ao lado de Israel.

“Não participaremos dessa guerra”, disse o chanceler alemão Friedrich Merz na noite de segunda-feira. “Não faremos isso.”

“A resposta simples é não”, ecoou o primeiro-ministro grego Kyriakos Mitsotakis em um evento da Bloomberg em Atenas, na terça-feira.

“A Noruega não fará isso”, concordou o primeiro-ministro Jonas Gahr Store em Oslo.

É uma trajetória marcante desde o início da guerra, quando líderes europeus evitavam perguntas sobre direito internacional e despejavam críticas sobre o regime iraniano. Merz chegou a dizer inicialmente que estava “na mesma página” que Trump. Agora, as críticas se voltam diretamente ao próprio Trump.

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“Precisamos de informações deles sobre quando os objetivos militares serão considerados alcançados”, disse o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, na terça-feira.

A retórica mais dura é uma aposta de alto risco para a Europa. Embora os líderes estejam em terreno político sólido internamente — muitos europeus detestam Trump e se opõem à guerra — o presidente há tempos reclama das garantias de segurança oferecidas pelos EUA à Europa e já ameaçou “consequências muito ruins” para a Otan se não for atendido.

“É muito injusto com os Estados Unidos, não comigo, mas com os Estados Unidos”, disse Trump na terça-feira, sentado ao lado do líder irlandês Micheal Martin, no Salão Oval.

“Obviamente, temos de levar a sério tudo o que o presidente dos Estados Unidos diz”, ponderou o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, em entrevista à Bloomberg Television na segunda-feira.

Mudança de tom

O ponto de virada foram as exigências de Trump para que Europa e Ásia enviassem navios a fim de ajudar a retomar o fluxo de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, a rota comercial vital que praticamente parou por medo de ataques iranianos.

“Se não houver resposta ou se for uma resposta negativa, acho que será muito ruim para o futuro da Otan”, ameaçou Trump no domingo, em entrevista ao Financial Times.

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Mas, em vez de considerar educadamente os pedidos de Trump — ou até de tentar agradá-lo, como fizeram no passado — muitos líderes europeus ofereceram uma resposta bem mais sucinta: não.

“Não participaremos de garantir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz por meios militares”, disse Merz.

A negativa de Merz ajudou a consolidar a posição mais ampla da Europa, já que o chanceler alemão não apenas lidera a maior economia do continente como também comanda uma grande expansão militar. Na tarde de terça-feira, tanto a Grécia quanto a Polônia, dois parceiros militares próximos dos EUA, também tinham deixado claro o desinteresse em ajudar Trump.

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“Temos outras tarefas dentro da Otan, e nossos aliados entendem isso”, afirmou o primeiro-ministro polonês Donald Tusk, antes de uma reunião de gabinete em Varsóvia.

Até o presidente francês Emmanuel Macron, de quem Trump disse acreditar que teria ajuda, já estava dizendo não na terça-feira.

“Não somos parte do conflito”, declarou Macron. “A França jamais participará de operações para abrir ou liberar o Estreito de Ormuz no contexto atual.”

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Recado dado

No fim da manhã de terça-feira, em Washington, Trump já havia captado o recado.

“Não ‘precisamos’ mais, nem desejamos, a assistência dos países da OTAN — NUNCA PRECISAMOS!”, escreveu em sua rede social Truth Social. “NÃO PRECISAMOS DA AJUDA DE NINGUÉM!”

A abordagem direta da Europa reflete um cálculo em evolução na relação com os EUA.

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Quando Trump voltou ao poder no ano passado, líderes europeus, em grande medida, cederam a seus caprichos para tentar mantê-lo por perto em relação à Ucrânia, à Organização do Tratado do Atlântico Norte e às negociações comerciais.

Eles concordaram quando Trump exigiu que aliados da Otan gastassem 5% do PIB em defesa, chegando a cobri-lo de elogios. Aceitaram uma tarifa de 15%, em parte, para mantê-lo engajado na Ucrânia.

Agora, cresce a sensação de que tal estratégia só deixará a Europa de mãos queimadas — sem sequer conseguir conter Trump.

No caso do Irã, em especial, os europeus têm pouco a ganhar e muito a perder. O caos pode desencadear uma nova onda de refugiados rumo à Europa, poucos anos após o último surto migratório vindo do Oriente Médio. Há também o temor de que até mesmo um envolvimento percebido no conflito iraniano possa ressuscitar ataques terroristas que chocaram a Europa há uma década.

A guerra, disse Merz na segunda-feira, “tem potencial para deflagrar uma migração em larga escala”.

O foco, defendem líderes europeus, deveria estar em lidar com os impactos financeiros da guerra. Com o Estreito de Ormuz praticamente fechado, os preços de energia dispararam, deixando governos preocupados com inflação, desaceleração industrial e até riscos ao abastecimento de alimentos.

“Acho que a Europa não será envolvida militarmente, mas certamente precisa se concentrar nas repercussões econômicas da crise”, disse Mitsotakis.

O recado maior da Europa, porém, pode ser de que Estados Unidos e Israel precisam acertar seus planos — entre eles.

Os EUA e Israel “não têm um plano sobre como faremos as fases dois, três e quatro”, afirmou Store, o líder norueguês. Os dois países, acrescentou, “não parecem ter objetivos idênticos”.

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