O dia em que descobri que todo mundo virou um robô

Por que todo mundo de repente decidiu falar como se estivesse apresentando um TED Talk para robôs?

Renato Dolci

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Imagem gerada com IA/Renato Dolci
Imagem gerada com IA/Renato Dolci

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Peço desculpas, mas hoje eu não vou falar de dados. Não tive, em nenhuma das minhas colunas por aqui, qualquer outra que eu não tenha não falado sobre, mas hoje decidi escrever um testemunho.

Outro dia, com meu café na mão, resolvi dar aquela olhada rápida no Instagram. Sabe como é, aquele scroll infinito para ver as novidades. Mas a verdade é que comecei a reparar num padrão um tanto bizarro. Não era só um post ou outro; era uma verdadeira enxurrada de palavras que pareciam ter saído do mesmo gerador automático de palestras motivacionais.

Parei no post de um amigo meu, um cara super tranquilo, que de repente estava escrevendo sobre “a revolução estratégica do mercado atual”. Revolução? Estratégica? Desde quando ele usa essa palavra “estratégica” no dia a dia? E não parou por aí. O texto dele dizia: “Não é sobre trabalhar mais — é sobre trabalhar de forma mais inteligente.” Ah, o clássico “não é isso, é aquilo”. Aquele cacoete que a gente já sabe de cor. E o pior: ele usou a palavra “estrutural” umas três vezes num único parágrafo. “Estrutural”, eu diria.

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Mas espera aí, a coisa fica melhor. Continuei descendo o feed e me deparei com uma daquelas listas estruturadas. “5 Passos Disruptivos para Mudar seu Mindset”. Sério, disruptivo? A única coisa disruptiva ali era a minha vontade de não jogar o telefone na parede. O texto era cheio daquelas transições forçadas — “Aqui está o ponto” ou “Deixe-me ser claro”, “Vou ser direto com você”. E eu fiquei pensando: por que todo mundo de repente decidiu falar como se estivesse apresentando um TED Talk para robôs?

E é aí que entra a parte engraçada da história. Comecei a ler tudo com aquela voz de assistente virtual na cabeça. “Você já parou para pensar que a inovação não é uma escolha, mas uma necessidade crucial?” Eu quase podia ouvir o clique do teclado mecânico gerando aquilo. E as perguntas retóricas? “Você concorda?” “O que você acha?” “Deixe seu comentário abaixo se você também teve um insight hoje.” Juro, eu estava quase respondendo: “Não, eu só tive um insight de que ‘chega de internet por hoje’.”

O mais bizarro é que, no fundo, a gente sabe. A gente bate o olho e já reconhece aquele padrão sintético — aquela tentativa de parecer profundo usando palavras como “impactante” e “crucial” para descrever, sei lá, uma nova rotina matinal e entre travessões, claro. A inteligência artificial, por sua própria natureza de processar bilhões de textos, faz exatamente isso: ela achata as ideias, calcula a média do conhecimento humano e cospe o consenso. Ela não cria, ela apenas faz uma média de tudo que já existe.

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E aí, depois de rir sozinho da situação, percebi a ironia de tudo isso. A IA nos vendeu a promessa de que todos seríamos produtores de conteúdo geniais, capazes de escrever textos perfeitos em segundos. Mas esquecemos de um detalhe crucial: a verdadeira relevância não vem de escrever perfeitamente o que todo mundo já diz, mas de contar algo que só você sabe ou viveu. É a sua cicatriz, o seu erro, a sua perspectiva enviesada que gera valor. Quando todo mundo vira produtor de conteúdo usando a mesma ferramenta que calcula a média do pensamento humano, a gente não democratiza a genialidade: a gente só democratiza a mesmice.

Agora, a pergunta que não quer calar: Você gostaria que eu terminasse meu texto com mais uma reflexão sobre a mesmice digital? Você quer que eu faça uma lista com mais três palavras estratégicas para você evitar no seu próximo post? Como você gostaria que eu concluísse essa análise? Posso ajudar com mais alguma coisa?

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Renato Dolci

Renato Dolci é cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital. Já desenvolveu trabalhos em diversos ambientes públicos e privados, como Presidência da República, Ministério da Justiça, FIESP, Banco do Brasil, Mercedes, CNN Brasil, Disney entre outros. Foi sócio do BTG Pactual e atualmente, é diretor de dados na Timelens, CRO na Hike e CEO na Ineo.