Como os mercados no Brasil e no mundo serão afetados pelo ataque dos EUA ao Irã?

Analistas projetam uma abertura de aversão ao risco na segunda-feira, além de alta do petróleo, mas com consequências diversas no médio prazo

Lara Rizério Camille Bocanegra

Ativos mencionados na matéria

Miniatura impressa em 3D do presidente dos EUA, Donald Trump, com a bandeira iraniana ao fundo - 09/01/2026 (Ilustração: REUTERS/Dado Ruvic)
Miniatura impressa em 3D do presidente dos EUA, Donald Trump, com a bandeira iraniana ao fundo - 09/01/2026 (Ilustração: REUTERS/Dado Ruvic)

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O tão alardeado ataque dos EUA ao Irã ocorreu neste sábado (28), visando a liderança iraniana e mergulhando o Oriente Médio em um novo conflito que, segundo o presidente Donald Trump, acabaria com uma ameaça à segurança dos EUA e daria aos iranianos a chance de derrubar seus governantes.

Analistas de mercado já se preparam para turbulências após os EUA confirmarem o lançamento de “grandes operações de combate”, podendo levar a consequências muito maiores para o mercado do que a recente onda de tensões geopolíticas.

“Isso definitivamente tem ramificações maiores do que a Venezuela”, disse Florian Weidinger, co-diretor de investimentos da Santa Lucia Asset Management, para a CNBC. “A Venezuela era… realmente relevante apenas para quem se importa com aquele petróleo bruto pesado específico”, complementou. Assim, espera que o preço do petróleo suba um pouco mais bruscamente na próxima semana como resultado do ataque dos EUA ao Irã.

O Irã produz cerca de 3,3 milhões de barris de petróleo por dia, apesar das sanções internacionais em vigor. O país tornou-se mais hábil em contornar essas restrições, enviando cerca de 90% de suas exportações para a China.

As maiores reservas de petróleo estão localizadas em Ahvaz, Marun e no complexo de Karun Ocidental, todos na província de Khuzistão.

A localização do Irã é um pontos de grande atenção, uma vez que a preocupação global é por conta da manutenção da rota marítima pelo Estreito de Ormuz. O estreito fica localizado entre o Irã e o Omã e tem de 55 a 95 km de largura, sendo por ele que se passa cerca de 20% do consumo global diário de petróleo e do fornecimento mundial de gás natural liquefeito.

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Cerca de 13 milhões de barris de petróleo bruto por dia transitaram pelo Estreito em 2025, representando aproximadamente 31% do fluxo global de petróleo bruto transportado por via marítima, segundo dados da empresa de inteligência de mercado Kpler.

“O risco é que caso haja uma escalada da guerra, por estar na frente, o Irã comece a bombardear navios, tanques de petróleo, não deixando o petróleo ou o gás passar. Só que isso também não é uma coisa fácil, porque o porta-aviões americano está lá na frente do Estreito de Ormuz, por isso que toda vez que tem qualquer tipo de tensão entre o Irã e os Estados Unidos, esse risco está sempre na mesa”, afirma Pedro Rodrigues, diretor do CBIE.

Conforme destaca Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, em eventos passados, a restrição ao estreito de Ormuz influenciou o aumento da inflação na Europa, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, impactando a perspectiva de cortes nas taxas de juros.

Cabe destacar que, em junho de 2025, quando Israel atacou instalações nucleares iranianas, o mercado teve um movimento de aversão a risco na abertura, recuperando-se em seguida, após a confirmação de que o estreito não havia sido bloqueado.

“Esse é o padrão que os mercados irão observar na segunda-feira”, disse Kenneth Goh, diretor de gestão de patrimônio privado da UOB Kay Hian em Singapura. Ele projeta que que pode haver uma busca por segurança com o fortalecimento do dólar americano, do iene japonês e uma corrida ao ouro.

Na mesma linha, Cruz avalia que as bolsas de valores tendem a apresentar reações negativas, as curvas de juros sobem e observa-se um movimento de busca por ativos considerados mais seguros, como o dólar, o iene e o franco suíço.

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Cenários para o petróleo e ações do setor

Alicia García-Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico da Natixis, projeta uma abertura “turbulenta e com aversão ao risco” para os mercados globais na segunda-feira, com as ações globais potencialmente caindo de 1% a 2% ou mais, os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA caindo e o petróleo subindo de 5% a 10%. Contudo, alerta ser preciso aguardar as consequências das respostas do Irã.

Assim, olhando para o Brasil, o mercado se atentará mais uma vez ao impacto direto principalmente para as petroleiras, com destaque para Petrobras (PETR3;PETR4), PRIO (PRIO3), PetroRecôncavo (RECV3), que viram suas ações subirem entre 7% e 12% em fevereiro guiadas por uma alta do petróleo em meio às tensões geopolíticas entre EUA-Irã. O petróleo brent, referência global, fechou o mês a US$ 72 o barril, nas máximas em seis meses.

Em relatório às vésperas do conflito, o JPMorgan ressaltou que o Brasil aparece na análise como relativamente protegido de um choque energético internacional. Segundo dados publicados pelo banco, o país se posiciona como exportador líquido de energia, com exportações equivalentes a 2,6% do PIB e importações de 1,6%.

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Apesar disso, o relatório alerta que grande parte dos mercados emergentes não está preparada para um choque severo nos preços de energia, considerado um “risco de cauda”. Nesse contexto, o Brasil tende a ter impacto mais moderado, mas ainda pode sentir efeitos secundários, como aumento na volatilidade financeira global.

No médio prazo, a perspectiva para o petróleo pode ser diferente, avalia Cruz, da RB Investimentos.

Em 2017, quando as sanções econômicas contra o Irã foram implementadas, o país produzia 4,1 milhões de barris de petróleo por dia. Atualmente, a produção é de 3,2 milhões de barris diários, uma redução significativa.

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“Diferentemente da Venezuela, onde a infraestrutura da PDVSA enfrentou desafios, o Irã possui uma infraestrutura petrolífera em condições satisfatórias”, aponta.

Assim, caso haja uma mudança política e o país se alinhe aos Estados Unidos, é plausível que a produção iraniana aumente, possivelmente atingindo mais de 4 milhões de barris por dia até o segundo semestre.

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Desta forma, embora o preço do petróleo possa subir no curto prazo, a médio prazo, com o aumento da oferta, o preço de equilíbrio tenderia a diminuir. Portanto, a perspectiva para o segundo semestre de 2026 seria de preços mais baixos para o petróleo, com um possível efeito desinflacionário, dado o impacto indireto do petróleo sobre diversos setores, avalia Cruz.

“No âmbito do mercado financeiro, essa análise é crucial. Adicionalmente, vale notar que o ex-presidente Trump, em momentos de pressão interna, como no caso Epstein e na queda de popularidade, pode adotar estratégias que visem desviar o foco, realinhando seus apoiadores e direcionando a atenção para questões externas, como a relação com o Irã. Esse tipo de ação pode ser interpretado como uma tentativa de fortalecer sua posição política”, conclui o estrategista.

(com agências internacionais)

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.