Por que eu tenho saudade da Faria Lima

Mais do que coletinho, café caro e meme, a Faria Lima foi meu maior campo de treinamento profissional — e o lugar onde entendi que o mercado não cria pessoas, só amplifica quem você é

Adriano Lima

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(Wilfredor/Wikimediacommons)
(Wilfredor/Wikimediacommons)

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Eu sei. Falar bem da Faria Lima não é exatamente popular. Hoje em dia, rende mais likes ironizar, reduzir, transformar em caricatura. É fácil rir do coletinho, da calça de brim, do café caro. Difícil é entender o que realmente acontece ali.

Mas, antes de qualquer julgamento, deixa eu te contar uma coisa: a Faria Lima me salvou. Não no sentido romântico. No sentido duro mesmo. Profissional. Humano. Real.

Eu precisava de um ambiente que me testasse, me exigisse, me confrontasse. Um lugar onde não houvesse espaço para vitimismo, mas também não faltasse humanidade (mais adiante, você vai entender o porquê).

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Esse lugar foi a Faria Lima. Por isso, quando eu passo por ali hoje, seja de bicicleta, seja a caminho de um café, eu não vejo apenas prédios. Eu vejo pessoas. Histórias. Ciclos. Reconstruções. E entendo por que esse lugar provoca tanto amor quanto incômodo.

Agora sim, dá pra continuar.

A Faria Lima virou piada pronta. Virou meme. Virou caricatura.

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O coletinho. A calça de brim. O café caro. A pressa. O dinheiro.

Mas quem resume a Faria Lima a isso nunca viveu a Faria Lima de verdade. Eu vivi. E, de certa forma, continuo vivendo.

Por mais de vinte anos, a Faria Lima sempre esteve presente na minha trajetória profissional. Mesmo quando meu endereço comercial ficava em outras regiões de São Paulo, era ali que muitas reuniões, decisões e conversas importantes aconteciam.

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Mas houve um período especial. Depois dos meus cinquenta anos, entrei na Neon Pagamentos, cujo escritório ficava na região da Faria Lima. E foram quase seis anos somando duas experiências marcantes: primeiro na Neon Pagamentos, depois na Minerva Foods. Curiosamente, foi o meu primeiro período efetivamente trabalhando todos os dias na região da Faria Lima.

E isso aconteceu logo depois do maior período de adversidade da minha vida.

Em 2017, perdi ao mesmo tempo o emprego na DASA e o meu primeiro casamento. Foi quando o carro da vida fundiu o motor. Tudo descarrilhou junto: o pessoal, o profissional, o emocional. E foi exatamente depois desse choque que a Faria Lima entrou de vez na minha história.

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Ela não foi apenas um endereço. Foi um campo de treinamento. Foram anos intensos, acelerados, exigentes e profundamente humanos. E talvez por isso, hoje, olhando para trás, eu consiga dizer sem ironia, sem pose e sem cinismo: que saudade da Faria Lima.

Saudade não do CEP. Saudade da energia.

Ali eu fui trabalhar de bicicleta e de carro blindado. No mesmo ciclo da vida. Às vezes, na mesma semana. Porque a Faria Lima é esse paradoxo vivo: segurança máxima e vulnerabilidade total. É onde se tomam decisões bilionárias enquanto a vida acontece em tempo real, do lado de fora do vidro fumê.

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Quem nunca ficou parado em um daqueles engarrafamentos intermináveis? O carro não anda. O relógio corre. A agenda aperta. Mas, se você olha para o lado, vê aqueles prédios imensos e, logo abaixo, pessoas andando rápido, outras devagar, todas carregando sonhos. Gente indo para reuniões que podem mudar uma empresa. Gente indo para entrevistas que podem mudar uma vida.

A Faria Lima pulsa mesmo quando parece parada.

Eu tomava café no Otávio, conversando sobre negócios, carreira, decisões difíceis. Almoçava no Rascal discutindo estratégia, sucessão, cultura, gente. Tive reuniões no prédio da XP, do Google, no Itaú BBA, em salas onde o futuro passava por planilhas, mas também por valores.

Ali eu sentei à mesa com Guilherme Benchimol, fundador da XP, com Roberto Setúbal, presidente do conselho do Itaú, e aprendi sobre visão de longo prazo, responsabilidade e legado. Trabalhei ao lado de Fernando Queiroz e Edison Ticle na Minerva Foods. Estive com outros em conversas diretas, pragmáticas, sem rodeios — daquele tipo que não romantiza o mercado, mas também não foge da responsabilidade que ele carrega.

E, no mesmo dia — poderia ser uma cena cotidiana na minha vida por ali —, um estagiário me abordava pelo LinkedIn pedindo dez minutos para falar de carreira. Ou, às vezes, me paravam na rua:

— “Você é o Adriano do LinkedIn?”

No meio do templo do capital, o reconhecimento vinha, por vezes, não pelo cargo, mas pela troca, pela escuta, pela humanidade. Isso diz muito.

A Faria Lima que quase ninguém mostra também é essa: a da contradição cotidiana. Eu já estive ali empreendendo, entregando envelope na portaria da Klabin para o Sérgio Piza, com aquele frio na barriga de quem está tentando abrir uma porta. E, pouco tempo depois, era recebido pelo presidente de um fundo de private equity para discutir estratégia, oportunidades, gente, crescimento, futuro.

Num dia, a portaria. No outro, a sala de conselho. E tudo isso faz parte da mesma jornada.

Segundo pesquisas recentes, mais de 70% dos profissionais do mercado financeiro no Brasil afirmam querer trabalhar em empresas que gerem impacto positivo para a sociedade, e não apenas retorno financeiro. Isso não é discurso bonito. É algo que eu vi acontecer, todos os dias, ali.

Vi gente jovem, brilhante, bem remunerada e, ainda assim, inquieta. Vi profissionais que ganham bem se perguntando: “É só isso?”. Vi líderes discutindo ESG antes de isso virar buzzword. Vi gente falando de saúde mental, propósito e equilíbrio, enquanto carregava responsabilidades gigantescas. E, claro, vi e vivi gente preocupada só com grana, status e poder.

A Faria Lima não cria pessoas. Ela amplifica quem você é.

E foi ali que eu entendi algo fundamental: a gente não muda essência. A gente se adapta. Mudar é um movimento interno, silencioso, do nosso eu mais profundo. Adaptar é a resposta inteligente ao ambiente em que estamos inseridos.

A Faria Lima foi esse ambiente.

Foi ali que eu troquei o terno pela camiseta. O carro blindado pela bicicleta. O relógio Rolex pelo relógio que uso para correr. Não como crítica a quem usa, e muito menos como julgamento do Adriano do passado, que valorizava outras coisas naquele momento da vida.

Foi uma evolução, não uma ruptura.

Ali eu ganhei musculatura profissional. Mas, mais do que isso, ganhei consciência. Consciência de negócios, de gestão e, principalmente, de gente. No centro financeiro mais simbólico do país, eu me tornei um profissional ainda mais humano.

Foi ali que vivi minha última grande jornada executiva, de 2018 a 2024. E foi exatamente essa jornada que me preparou para o que veio depois: a minha carreira solo.

Hoje, eu continuo frequentando a Faria Lima. Os cafés são outros. Os prédios também. Mas eu também sou outro. Um Adriano em um novo momento, com outra lente, outra liberdade, outra responsabilidade.

E talvez não seja coincidência que essa nova fase comece exatamente aqui: publicando um artigo no InfoMoney.

Porque tudo isso me forjou para a maior missão que carrego hoje: transformar gestores em líderes formadores e inspiradores. Líderes que entendam de números, mas saibam lidar com pessoas. Que entreguem resultado, mas deixem legado. Que façam negócios sem abrir mão da valorização das pessoas.

Talvez esteja na hora de pararmos de rir da Faria Lima… e começarmos a entendê-la.

Porque, goste ou não, boa parte das decisões que moldam o futuro do Brasil passa por aquelas quadras. E, quanto mais humanas forem as pessoas ali dentro, melhor será o país lá fora.

E sim.

Que saudade da Faria Lima.

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Adriano Lima

Adriano Lima é coach executivo formado pela Universidade de Columbia (EUA) e conselheiro de empresas e startups certificado pelo IBGC. Foi executivo C-level por mais de 30 anos em gestão, pessoas, customer service e estratégia em companhias como Itaú Unibanco, Unilever Bestfoods, Neon, Minerva Foods, Mastercard e Dasa. Formado em Psicologia, com MBA Executivo pela Vanderbilt University, é especialista em liderança, change management, turnarounds, cultura organizacional, sucessão e mentoring de executivos C-level. É um dos executivos de RH mais influentes do país, autor do livro “Você em Ação” e criador de conteúdo nas redes sociais como @adrianolimarh