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SÃO PAULO – As previsões de crescimento da economia global caíram. Porém, os múltiplos foram empurrados abaixo do que as empresas realmente valem. Ao menos esta é a visão das próprias companhias que, por meio da recompra de ações, lembram ao mercado que o preço dos seus papéis está baixo, subvalorizado.
Os anúncios têm se tornado mais frequentes com a crise financeira internacional. A queda do Ibovespa, principal índice da BM&F Bovespa, já chega a 35% no ano. Apenas nove das 66 ações que compõem o índice ainda apresentam valorização no período. Nenhuma delas com recompras de ações em aberto.
“O ano que mais observamos foi em 1998, logo após a crise asiática. Foi também visto em 1987 e 2001 nos EUA”, explica o pesquisador Marcio Fernandes Gabrielli, mestre em Administração em Empresas pela Fundação Getulio Vargas e autor do estudo “Recompra de Ações: regulamentação e proteção dos minoritários”.
| “Ainda há margem para mais cortes nas taxas de juros nas próximas semanas” |
Cinco empresas entre as dez que figuram na lista das maiores quedas do ano no índice possuem programa de recompra de ações em aberto. “Por estar com o preço das ações muito baixo, com a recompra, a empresa mostra que acredita nos seus negócios”, diz Adriane Almeida, coordenadora do Centro de Conhecimento do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa).
Benefício ao acionista
A crise também impacta a viabilidade dos projetos pensados para sair do papel neste ano ou no próximo. E a recompra de ações aparece como uma saída interessante para o caixa, pois, como lembra Alexsandro Broedel Lopes, Professor do Departamento de Contabilidade e Atuária da Faculdade de Economia da USP, “as empresas têm posição privilegiada e sabem mais sobre a ação do que o mercado”. É o que afirma Sérgio Pedreiro, diretor Financeiro e de Relações com Investidores da ALL, cujas units recuaram mais de 40% no ano: “em nosso ponto de vista as ações estão subavaliadas”.
Ao lado do sinal de confiança no seu investimento, o movimento da companhia também é visto como um benefício direto ao acionista. No caso de cancelamento dos papéis recomprados, as ações que permanecem no mercado passam a representar uma fatia maior do capital total. É também uma forma de remunerar o acionista. “Caso ocorra o cancelamento, os acionistas são beneficiados, porque a participação de cada um aumenta”, argumenta Gabrielli. ” As empresas que fizeram IPOs e estão no Novo Mercado estão repensando os investimentos e têm que devolver de alguma forma para os acionistas, porque o dinheiro está ocioso no caixa”, destaca Adriane.
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| Algumas justificativas para implementar o programa: |
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Vale “O objetivo é a utilização do caixa, tendo em vista os múltiplos de mercado observados nas últimas semanas, maximizando o valor para os acionistas”. Amil
“A Companhia acredita que o atual valor de mercado de suas ações não reflete seus fundamentos em termos de crescimento e rentabilidade”. Bematech
“Essa iniciativa tem como objetivo capturar um potencial importante de criação de Banco Sofisa
O programa visa “maximizar a geração de valor para o acionista na eventualidade de cancelamento das respectivas ações”. |
A decisão da Vale em abrir o programa de recompra levanta o debate de uso do caixa. Em relatório publicado depois do anúncio, a Link Investimentos observa: “o que vemos com esse movimento de recompra é que a Vale está preocupada com a queda de suas ações, e acredita em uma valorização, além disso, está desacelerando investimentos, provavelmente devido à perspectiva de crise no mercado mundial”.
Plano de opções de compra
Duratex, Drogasil, Tecnisa e Iguatemi, estão entre as empresas que justificam a recompra para lastrear o plano de incentivos aos administradores e empregados elegíveis ao programa de opção de compra de ações. Ou seja, disponibilizam a compra das ações à direção da companhia. “O plano de opções é sempre bom para alinhar o interesse dos acionistas e diretores”, diz Adriane.
Este é o caso da SulAmérica. “Com a recompra, a companhia se beneficia do valor da cotação extraordinariamente deprimido e evita que no futuro tenha que fazer um aumento de capital para o programa de opções”, explica Arthur Farme d’Amoed Neto, vice-presidente Corporativo e de Relações com Investidores da empresa.
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Além disso, no Brasil há uma diferença. É mais vantajoso para as empresas distribuírem dividendos por meio de proventos. “Pagar dividendo extra é mais barato do ponto de vista tributário”, diz Gabrielli. Portanto, este ato reforça ainda mais a mensagem que as empresas desejam transmitir: o preço está muito barato. O movimento de pedido de recompras é tão intenso que a BM&F Bovespa divulgou circular na última segunda-feira (13) retirando a exigência de um percentual mínimo de 25% das ações em circulação.
As ressalvas
Há, entretanto, um problema. As empresas que adquirirem ações abaixo deste limite precisarão, no prazo de 18 meses depois do início do programa, se readaptarem à norma. “Se a empresa na hora do ajuste não tiver um plano de investimento que justifique uma distribuição primária, talvez o controlador precise vender uma fatia de sua participação”, lembra a pesquisadora do IBGC. Pode existir o temor da iminência de mais papéis no mercado. É a questão da oferta e demanda.
Outros pontos também são lembrados como ressalvas na ocasião de avaliar uma recompra de ações. Não é saudável que uma empresa utilize recursos provenientes de empréstimos para o programa. Nos EUA, os pesquisadores Massimo Massa, Zahid Rehman e Theo Vermaelen observaram o efeito de imitação. Este tipo de fenômeno ocorre quando uma empresa – em um setor com diversos pares em bolsa – anuncia uma recompra de ações, além de causar impacto positivo nos próprios papéis, cria um movimento negativo nos concorrentes que, para eliminar este fator, também anunciam o seu programa.
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Quando questionado sobre a possibilidade do efeito mímico, Gabrielli, entretanto, diz que este evento ainda não foi percebido no Brasil. Para ele, porém, devido ao surgimento de dúvidas sobre a disponibilidade de caixa dos bancos médios, o programa de recompra pode ter sido uma forma encontrada pelas instituições para reafirmar a sua solidez, sem problema de liquidez.