Com papel central na crise, evolução dos CDS ajuda a esclarecer problemas

Mecanismos são a ligação entre bancos de investimento, seguradoras e agências de classificação de risco

Publicidade

SÃO PAULO – Após dez anos de evolução significativa nos EUA e na Europa, o mercado de CDS (Credit Default Swaps) encontra na crise financeira internacional um reflexo de seus problemas, seja a difícil regulação e crescimento desmedido, seja o desempenho fraco de uma ferramenta fundamental para sua avaliação: as classificações de risco.

Embora os problemas do CDS ajudem a esclarecer a situação difícil de diversas instituições norte-americanas e européias, não são eles os vilões da história. O professor de finanças do Ibmec São Paulo, José Carlos Luxo, relembra que o grande problema não é o CDS e sim a má avaliação do crédito.

O que aconteceu na crise financeira norte-americana, segundo o professor, foi que os créditos de alto risco, chamados sub prime, primeiramente contaminaram os bancos de investimento e, em um segundo momento, também as seguradoras que protegiam essas carteiras de crédito através dos CDS. “Foi o que aconteceu com a AIG”, afirma Luxo, sobre a instituição estatizada pelo governo norte-americano em setembro.

Classificação de risco: um problema

Outros problemas enfrentados pelo mercado de CDS remetem à qualidade da classificação de risco dos créditos. A importância da atuação das agências de rating pôde ser vista no início do ano, com a comoção nos EUA em torno do rebaixamento da classificação de risco de seguradoras de títulos, como MBIA ou Ambac. Como essas instituições são grandes vendedoras de CDS, um corte na sua nota seria uma má notícia para as firmas que compraram a sua proteção, já que afeta seu valor se a seguradora estiver em risco de inadimplência.

O problema é que as agências de classificação de risco, em especial as três mais importantes dos EUA – Fitch Ratings, Moody’s e Standard & Poor’s – tiveram sua performance questionada durante os piores meses da crise, quando instituições com ratings altos declararam falência ou foram estatizadas, como é o caso de Fannie Mae e Freddie Mac.

O problema da regulamentação

Embora não sejam o centro do problema, os derivativos de crédito servem como estímulo à geração de crédito, o que pode levar à má avaliação desses empréstimos. Assim, o mercado pede cautela e melhoras com relação à sua fiscalização. “Existe regulamentação, mas como são operações de balcão, o Federal Reserve acabou perdendo o controle”, afirma o professor José Carlos Luxo.

Continua depois da publicidade

Isso permite um forte movimento de especulação com esses derivativos, com a possibilidade de instituições venderem CDSs sem condições financeiras ou recursos para tanto, o que aumentou a atratividade do mercado. Atualmente o valor nocional já atinge US$ 62 trilhões, de acordo com o INI (Instituto Nacional de Investidores).

Conforme relatório do Instituto, essa cifra não existe, sendo apenas o volume de créditos segurados pelos CDSs. “Nem precisa dizer que não há dinheiro no mundo para pagar esses seguros, caso haja um default generalizado nas companhias americanas e européias”, afirma o instituto.

Por que sobem tanto?

Dado que o valor do CDS é definido pelo risco de default – quanto maior for o risco, maior o prêmio para garantir o crédito – as preocupações com insolvência e iliquidez atualmente vigentes no mercado levam a um aumento expressivo no risco de inadimplência dos tomadores de empréstimo e, consequentemente, nos spreads dos CDSs. O movimento de alta pode ser visto até mesmo nos títulos do governo norte-americano.

“De acordo com dados do CMA DataVision, os CDS de dívida com vencimento em 10 anos aumentaram progressivamente – de 1,6 ponto-base em julho de 2007, passando por 16 pontos-base em março de 2008 e 30 pontos-base em setembro, para mais de 40 pontos-base em 27 de outubro. Em outras palavras, o custo de seguro contra um default do governo norte-americano aumentou em 25 vezes em pouco mais de um ano. Tendências semelhantes foram vistas nos títulos públicos do Reino Unido e da Alemanha”, conta Yves Smith, do Roubini Global Economics.

Brasil

Esses mecanismos, segundo José Carlos Luxo, nasceram em função da alta alavancagem de crédito dos bancos norte-americanos. A grande diferença entre o Brasil e os EUA, ou Europa, está justamente na baixa alavancagem dos bancos brasileiros. Para se ter uma idéia, a relação de crédito com o PIB (Produto Interno Bruto) dos EUA em 2007 era de 140%, enquanto no Brasil, essa relação era de 34%.

“Em termos de CDS, o Brasil ainda está engatinhando”, afirma José Carlos Luxo. Segundo ele, o BC já regulamentou essas operações, mas elas não são muito utilizadas devido à baixa alavancagem. Aliás, ele indica que é por isso também que o País não foi contaminado pela crise do sub prime, como ocorreu com a Europa.