Como evitar sustos com crédito privado em 2026? Economista da Itaú Asset responde

A dispersão entre operações — hoje indo de CDI+1,5% a CDI+6% — reforça o caráter altamente seletivo do momento.

Osni Alves

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O mercado de crédito brasileiro entra em 2026 em um ambiente que exige precisão cirúrgica na escolha dos ativos. Para a head de crédito da Itaú Asset, Fayga Delbem, a fase atual marca uma virada: “A gente está falando de um ano de alfa, onde a escolha de cada nome é crucial para evitar sustos e entregar retorno ao cotista”, afirmou. A dispersão entre operações — hoje indo de CDI+1,5% a CDI+6% — reforça o caráter altamente seletivo do momento.

Fayga acrescenta que, apesar do spread médio mais baixo em relação a 2024, o cenário de juros altos pressiona os balanços corporativos, exigindo cautela. “O micro do crédito se sobrepõe ao tema macro”, destacou. Para ela, empresas de qualidade continuam sendo prioridade absoluta — mesmo em setores difíceis.

Durante participação no Expert Talks, podcast da XP apresentado por Camilla Dolle, head de renda fixa do Research da XP, e Caio Megale, economista-chefe da casa, Fayga participou de uma discussão sobre a evolução do mercado de crédito e as perspectivas para 2026.

Ao comentar os critérios de análise de risco, a executiva reforçou que a qualidade da companhia pesa mais do que o momento do setor. “Eu costumo dizer que posso operar com uma empresa muito boa de um setor difícil, mas não opero com uma empresa mediana de um setor excelente”, destacou.

Mercado amadurece e vive fase de sofisticação

Com mais de R$ 500 bilhões sob gestão em mandatos de crédito, Fayga acompanhou a transformação da indústria ao longo da última década. Segundo ela, o mercado evoluiu de um ambiente “buy and hold” — compras carregadas até o vencimento — para uma dinâmica de gestão ativa, lastreada em maior liquidez no secundário.

“Hoje já negociamos mais de R$ 70 bilhões por mês no mercado secundário, contra R$ 5 bilhões há poucos anos”, afirmou. A ampliação de emissores, instrumentos e participantes — incluindo hedge funds, tesourarias e até a sinalização do Banco Central durante a pandemia — mudou a lógica da renda fixa privada.

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Ela lembra que os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) deixaram de ser vistos como estruturas arriscadas e ganharam tração. “O FIDC pode ter baixíssimo ou altíssimo risco; depende de como é montado”, explicou. O time dela administra R$ 25 bilhões nessa classe.

A profissional defende que os estruturados oferecem relação risco-retorno superior. “Tenho fundos com 20% a 25% em operações estruturadas”, contou.

Do juro alto ao spread comprimido: a radiografia recente

O balanço recente do mercado ajuda a explicar o presente. Em 2023, eventos de crédito provocaram abertura de spreads e forte desvalorização. No segundo semestre daquele ano e ao longo de 2024, o movimento se reverteu: o ambiente foi marcado pelo “beta”, com tendência clara de fechamento de spreads.

Já 2025 trouxe um novo elemento: dispersão. “Passamos a ver operações indo de CDI+1,5% a CDI+6%”, disse Fayga. Para 2026, o fenômeno continua, e favorece gestores capazes de identificar assimetrias.

A head enfatiza que a taxa de entrada — o famoso “carrego” — perdeu protagonismo com a marcação a mercado e a liquidez crescente. “O que importa não é o preço de entrada, mas o retorno entre o preço de compra e o de venda”, resumiu.

O ambiente de juros altos exige olhar minucioso para balanços. “O gestor precisa identificar as boas oportunidades e evitar armadilhas — operações que pagam muito agora, mas vão pagar ainda mais caro depois”, alertou.