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Mesmo com o desemprego nos menores níveis da História e a inflação sob controle, as famílias brasileiras estão mais endividadas. O endividamento delas já chega a 49,8%, quase metade de tudo o que elas ganham em um ano.
É o maior nível registrado durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O recorde histórico foi atingido em julho de 2022, sob o governo de Jair Bolsonaro, quando chegou a 49,9%.
É o que mostram os dados mais recentes divulgados pelo Banco Central nesta semana. Na prática, significa que quase metade de tudo o que as famílias ganham ao longo de um ano já corresponde a dívidas — como financiamentos, empréstimos pessoais, crédito consignado e uso do cartão de crédito.
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A inadimplência também aumentou no ano passado, atingindo 6,9% em dezembro no segmento de crédito livre às famílias, alta de 1,7 ponto percentual em 12 meses — um patamar elevado considerando o padrão da série histórica do BC.
Juros altos na base da explicação
Com mais pessoas endividadas, o comprometimento da renda das famílias mensalmente com o Sistema Financeiro Nacional se manteve em 29,3% entre outubro e novembro, máxima histórica da série.
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Para especialistas, o alto patamar dos juros praticados nas operações de crédito — que acompanham a Taxa Selic, hoje em 15% ao ano, maior nível desde julho de 2006 — explicam por quê, mesmo com um cenário macroeconômico mais favorável, a situação financeira das famílias é de aperto.
— Com uma taxa de juros no maior patamar em 20 anos, era de se esperar que isso produzisse efeitos adversos em diversos setores, inclusive nas condições de crédito — avalia Fábio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). — No crédito livre às famílias, a taxa média de juros está ultrapassando 60% ao ano. Não vemos uma taxa dessa no Brasil desde 2017.
Mesmo com os juros mais altos tornando as parcelas mais caras, o crédito às famílias continuou crescendo. O saldo das operações livres para pessoas físicas somou R$ 2,5 trilhões em dezembro, alta de 13,2% no ano passado, ante 12,6% em 2024.
Cartão de crédito lidera
As concessões de crédito às pessoas físicas subiram 8,8% no ano passado, ritmo menor do que o de 2024, mas ainda elevado. O maior destaque veio do cartão de crédito. O volume que as famílias devem nessa modalidade cresceu 17,1% em 2025. Para Bentes, embora a expansão do crédito tenha sido expressiva, isso não se traduziu integralmente no comércio, que teve vendas modestas no período.
— Essa modalidade preocupa. Esse crédito foi tomado para tentar mitigar os efeitos do desequilíbrio orçamentário. (…) O cartão de crédito não cresce por ter taxa atrativa, mas por ser o crédito mais acessível e cômodo para o consumidor no curto prazo, para tentar fechar o orçamento no fim do mês.
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Para a pensionista Maria das Graças Barros, de 64 anos, o cartão de crédito é a alternativa viável para conseguir fechar as contas.
— Às vezes a gente não tem dinheiro e não tem o que fazer. Tem que passar no cartão — conta ela, depois de comprar o material escolar de uma das bisnetas. — Passei tudo no crédito e parcelado porque não dá para pagar tudo de uma vez — explica.
Nos cálculos da Tendências Consultoria, o nível de endividamento das famílias já alcança 54% da renda, acima dos números oficiais do Banco Central. A metodologia da casa inclui, entre as variáveis, o parcelamento no cartão em até dez vezes.
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— No fundo, o juro ficou mais alto e o prazo médio ficou menor. Isso explica o alto endividamento — diz Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria.
‘Uso o crédito para tudo’
Para a vendedora Virgínia da Silva, de 22 anos, que é mãe solo de duas crianças, recorrer ao cartão de crédito também faz parte da rotina financeira.
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— Uso o crédito para tudo, para pagar coisa de casa e também para comprar umas bobeirinhas. Mas às vezes estoura tudo e eu tenho que pedir empréstimo no banco ou até por fora mesmo — relata ela, que recorreu a última vez ao empréstimo há dois meses.
O endividamento das famílias chegou a cair no início do terceiro governo de Lula, até dezembro de 2023, primeiro ano do mandato, quando ficou em 47,7%. Naquele ano, o governo lançou em julho o Desenrola, programa para renegociação de dívidas, que vigorou até maio do ano seguinte.
Mas voltou a subir em meio ao novo ciclo de aperto monetário. A alta da taxa básica de juros, a Selic – iniciada em setembro de 2024 – encareceu o crédito.
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Crédito mais barato em 2026?
Para Bentes, da CNC, seria bem-vindo o governo avaliar a possibilidade de uma reedição do Desenrola para conter a piora das estatísticas de crédito. Ele avalia que o programa chegou a minimizar o efeito do aperto monetário, ainda que a iniciativa – assim como qualquer outra medida econômica – não tenha segurado o aumento da inadimplência.
De todo modo, o economista projeta uma melhora dos indicadores de crédito este ano. A perspectiva de início do ciclo de cortes da Selic a partir de março deve começar a produzir efeitos sobre a economia em setembro.
— Setores que andaram sofrendo com esse crédito apertado tendem a ter ano melhor. Esperamos um aumento entre 3,5% e 4% das vendas do varejo. Não parece alto, mas nos últimos dez anos isso só ocorreu em 2021 como efeito rebote da pandemia. O varejo tem tido dificuldade enorme de crescer acima de 2%.
Já para Alessandra, da Tendências, o papel que o Desenrola teve no passado recente — ao facilitar a quitação de dívidas e proporcionar certo alívio financeiro às famílias —vem sendo parcialmente ocupado agora pelo Crédito ao Trabalhador, plataforma de empréstimo consignado privado, que oferece juros mais baixos em razão do desconto direto em folha.
Ela acredita que o consignado privado ganhará ainda mais tração neste ano, o que deve ajudar a acomodar o nível de comprometimento de renda das famílias. Outros fator que tende a reduzir a pressão sobre o endividamento e a inadimplência são o aumento da renda disponível por conta da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
— E ainda temos a queda dos juros no cenário. Ela ainda demora a parecer, mas alivia o custo do crédito. Ao mesmo tempo, temos um mercado de trabalho que perde tração, mas que ainda é positivo— diz Alessandra, ao ressaltar que o avanço da formalização ampliou o acesso ao crédito no país.
