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SÃO PAULO – Poucos são os que ainda duvidam que a economia norte-americana se encontra imersa em recessão – no terceiro trimestre, o PIB (Produto Interno Bruto) do país retraiu 0,5%. Dados como este não ocasionam mais surpresa nos mercados.
Mercados que, aliás, freqüentemente reagem de forma otimista a números essencialmente negativos, em uma contradição facilmente explicada pelo viés da política monetária – maior a deterioração do cenário econômico, maior a probabilidade de mais cortes na Fed Funds Rate. Nesse contexto, o declínio da atividade econômica vem sendo ameaçado em seu posto de maior preocupação dos economistas e investidores por outro aspecto: o comportamento dos preços – mais especificamente, o de uma deflação.
Para os analistas do Société Générale, uma tendência de queda geral dos preços deve ser encarada pelo Federal Reserve como a maior ameaça à estabilidade do ambiente macroeconômico norte-americano. E a equipe não está errada em seu alerta: indicadores recentemente divulgados no país, como o índice de preços ao produtor e ao consumidor, trouxeram recuos maiores que o esperado pelo mercado.
De volta aos anos 1930
Antes de se debruçar à análise das medidas efetuadas até então pelo Tesouro e pelo Fed, a equipe de analistas do Société Générale propõe uma volta no tempo. Quando se fala em “deflação”, quase que automaticamente vem à mente o caso da Grande Depressão iniciada com a crise de 1929. Afinal, junto com o Japão dos anos 1990, estes foram os dois únicos episódios de pressões deflacionárias prolongadas na história econômica moderna.
Mas na visão do banco francês, embora semelhanças de fato existam entre a atual crise e a que se abateu sobre o mundo no final dos anos 1920 e começo dos anos 1930, diferença crucial reside na postura adotada pelas autoridades em cada momento. “Há um certo consenso entre os economistas de que a Grande Depressão foi produto de uma série de erros de política monetária”, afirmam os analistas. A crise de 1929 pode ter sido mero estouro de uma bolha. Mas a passividade do Fed e do governo à época foi quem estendeu seus impactos em direção à economia, dando origem à severa deflação que se instalou.
Além da idéia básica de auto-regulação dos mercados, havia à época as chamadas teses “liquidacionistas”. Para seus adeptos, se a especulação era a raiz dos problemas, então a falência de bancos não era negativa, mas até mesmo desejada, já que fortaleceria o sistema financeiro. A tese pode parecer absurda hoje. Mas julgar fatos é fácil – difícil é prevê-los. Ao menos ficou a dura lição de que deixar as instituições à deriva em tempos de crise traz resultados nada positivos.
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Desta forma, o Société Générale procura amenizar as comparações entre a Grande Depressão e a atual crise, uma vez que as autoridades hoje estão mais conscientes da necessidade de uma postura ativa no combate às turbulências.
Injeções, garantias, pacotes…
De fato, o Tesouro dos EUA, o Federal Reserve e a FDIC podem estar qualquer coisa, menos passivos frente à atual crise. Resgates, pacotes, ações conjuntas com autoridades de outras partes do mundo, injeções de capital – muitas foram as manobras utilizadas pelas autoridades por ora. Confira a tabela abaixo com algumas das medidas efetuadas até agora.
| Socorros, resgates e intervenções – o que foi feito até agora? | |
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Fed – Programas de liquidez como TAF, TSLF, PDCF, entre outros – Solvência e liquidez às agências Fannie Mae e Freddie Mac – Aquisição da IndyMac por US$ 8,9 bilhões |
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Entre tantas medidas, cadê a eficácia?
Entretanto, a eficácia de muitas de tais medidas é discutida pelo Société Générale, que indo a fundo em sua análise, reflete ainda sobre qual seria o uso ideal dos recursos restantes do Tarp (Trouble Asset Relief Program), que a princípio impressionava por seus US$ 700 bilhões, mas que já viu tal montante cair pela metade e, no entanto, ainda não surtiu grande efeito em seu objetivo de aplacar as turbulências no sistema financeiro.
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Para o Société Générale, a mudança de foco do pacote foi bem-vinda, já que injeções de capital provaram-se, no caso do Japão nos anos 1990, mais eficazes do que a aquisição de ativos podres. No entanto, a alteração na estratégia fez com que a confiança dos norte-americanos no Tarp fosse erodida, dando origem a uma sensação de que o governo estava abandonando o cidadão comum em detrimento das grandes corporações de Wall Street.
Na visão do banco, as injeções de capital devem continuar como tática principal do Tarp. Todavia, esforços mais incisivos na contenção do ciclo de execuções hipotecárias deveriam ser adotados pelas autoridades norte-americanas.
Não se anime com cortes no juro
Por fim, o Société Générale desmistifica o otimismo do mercado quanto à continuidade do ciclo de flexibilização monetária nos EUA. Não que o Federal Reserve não vá implementar novos cortes no juro básico do país. Mas para os analistas, à medida que a Fed Funds Rate se aproxima do zero, a efetividade de reduções na taxa fica cada vez mais comprometida.
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De fato, a taxa efetiva de juro nos EUA já se encontra quase nula. “Cortes no juro sozinhos têm feito pouco na restauração dos fluxos de crédito nos mercados. E cortes adicionais trarão poucos benefícios econômicos”, opina a equipe, para quem se 2008 foi o ano da flexibilização monetária, 2009 deverá ser o ano da flexibilização quantitativa.
“O próximo passo poderia tornar oficial tal postura quantitativa. O Fed poderia estabelecer um alvo em seu excesso de reservas e só removê-lo com o fim da tendência de queda dos preços dos imóveis, elemento-chave da deterioração dos balanços contábeis dos bancos”, sugere o Société Générale.