Publicidade
SÃO PAULO – O dólar rompeu o piso de R$ 1,60 na semana passada, após ter testado insistentemente a cotação. Não é de agora que a moeda norte-americana vem perdendo valor, a tendência se mantém predominante desde outubro de 2002 – quando atingiu o topo de R$ 3,99 – contudo, a taxa de câmbio favorecendo o real está rompendo não somente mínimas, mas também projeções.
O primeiro relatório Focus do ano trouxe uma estimativa média do mercado de dólar a R$ 1,80 ao final de 2008. Já o levantamento divulgado na última segunda-feira (30) aponta projeções de agentes com a divisa fechando o ano a R$ 1,67.
A taxa cambial pendendo para a valorização do real já preocupa há muito tempo o governo por conta da pressão que exerce sobre o setor exportador e medidas para tentar conter o derretimento do dólar já foram tomadas, porém, seus impactos pouco contiveram a trajetória declinante da divisa, que não se restringe à relação com a moeda brasileira e se mostra fenômeno global.
Déficit em conta corrente
Entre as tentativas de interferir no câmbio está o aumento de tributos cobrados sobre investimento estrangeiro em renda fixa, assim como a já rotineira atuação do Banco Central no mercado à vista, cujas aquisições de dólares levaram as reservas internacionais a ultrapassar a marca recorde de US$ 200 bilhões.
Dessa forma, diante da atual conjuntura econômica, surge a questão: até quando a depreciação da divisa norte-americana se sustentará? A aceleração do aprofundamento no déficit das transações correntes do País era um dos fatores que indicavam um possível enfraquecimento do real, contudo os dados do Balanço de Pagamentos de maio mostraram que a conta de transações correntes marcou um saldo negativo de US$ 649 milhões, muito inferior a projeções que apontavam um saldo negativo de cerca de R$ 1,1 bilhão.
Sidnei Nehme, diretor executivo da corretora de câmbio NGO, explica que o resultado nas contas externas do Brasil em maio foi um “ponto fora da curva”, já que o déficit diminuiu por questões sazonais. Porém, mesmo com saldo negativo nas transações com o exterior, os investimentos estrangeiros, principalmente os diretos, devem compensar no fluxo cambial, prevê o economista.
Continua depois da publicidade
Piso resistente e fundamentos econômicos
Para Nehme, a cotação da moeda norte-americana não deve situar-se abaixo de R$ 1,60 por muito tempo, sendo este valor um “piso de sustentação”, pois, “não há interesse de que seja rompido de forma contundente, o esforço será para mantê-lo neutralizado neste ponto”, explica.
Para o economista, o dólar abaixo deste patamar traz risco ao investidor, tendo em vista os danos à economia doméstica e ao setor exportador.
Já o banco Santander divulgou análise em que afirma: “Acreditamos que este
movimento tenha mais a ver com um enfraquecimento do dólar do que com os fundamentos do real”. O dólar vem se desvalorizando em âmbito mundial na medida em que a economia norte-americana demonstra sinais de fraqueza.
Continua depois da publicidade
Já Nehme acredita que os fundamentos internos que derrubam o dólar e alavancam o real continuam fortes – entre eles a entrada de investimento estrangeiro, que principalmente após o investment grade, deve tornar-se mais consistente.
“O dólar pouco reflete o que acontece lá fora, o que derruba o dólar aqui é o juro alto, se a taxa brasileira não fosse tão alta, o dólar poderia estar enfraquecido, mas não tanto”, avalia o economista.
Mudanças nas políticas monetárias
Ainda que o diferencial de juro possa reduzir-se no País, uma vez que além do Banco Central brasileiro outras autoridades monetárias, entre elas o Federal Reserve e o Banco Central Europeu, já manifestaram desejo de subir suas respectivas taxas básicas para combater as ameaças de inflação, o juro pago aqui ainda é um dos mais altos do mundo.
Continua depois da publicidade
Segundo Miriam Tavares, diretora de câmbio da corretora AGK, “a fraqueza externa do dólar deve se somar às expectativas de aumentos mais agressivos da Selic, o que pode fazer com que as cotações se sustentem abaixo do patamar de R$1,60, caminhando em direção aos R$1,55 no curtíssimo prazo”.
“No médio prazo, no entanto, acreditamos que a elevação do juro por parte do Fed deverá sustentar uma recuperação da moeda americana no mercado internacional, o que, somada à redução da demanda externa em virtude da desaceleração da atividade global, devem fazer com que o dólar volte para perto de R$1,70 até o fim do ano”, completa Tavares.
Por sua vez, Nehme, da NGO, afirma que o dólar não deve passar de R$ 1,65 em 2008.