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Allied internacionaliza operação em meio às tarifas de Trump e fatura R$ 1 bi

Empresa de logística e varejo abriu sede em Miami para abastecer mercado latino

Iuri Santos

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Há 10 anos a Allied (ALLD3) sofria um golpe duro. O Governo Federal acabava de reduzir o prazo da “Lei do Bem”, um benefício tributário que isentava PIS e Cofins de produtos eletrônicos e colocava em xeque os planos de expansão da companhia. A empresa do ramo de logística e varejo de tecnologia estava implementando um plano de expansão de lojas e aumento de estoques.

O cenário hoje é bem diferente: depois de levar R$ 890 milhões em créditos tributários com a judicialização da antecipação do fim da “Lei do Bem”, a companhia adicionou mais de R$ 1 bilhão ao seu faturamento anual com uma operação internacional em 17 países da América Latina sediada em Miami, nos Estados Unidos, em meio ao tarifaço imposto por Donald Trump.

Tudo começou a convite da Apple (AAPL34), relata Silvio Stagni, CEO da Allied. A desenvolvedora do iPhone queria que a Allied replicasse o mesmo modelo da parceria de distribuição firmada pelas companhias no Brasil em países como de México a Uruguai.

Grandes fabricantes de aparelhos eletrônicos costumam ter uma carteira de clientes muito pequena. “No Brasil, a Apple deve ter cerca de seis varejistas. A Samsung, uns 50 varejos. Nós vendemos para 600. Compramos desses fabricantes e vendemos para quem eles não vendem”, explica Stagni.

A ideia da operação na América Latina é reproduzir o mesmo modelo, porém com uma adaptação. Diferentemente de países como Brasil, México e Argentina (onde a empresa também opera), que possuem produções nacionais de aparelhos Apple, boa parte dos mercados em que a Allied vende seus produtos são abastecidos via Miami, por onde chegam equipamentos produzidos na Ásia.

Em um comunicado de 2024, quando a nova linha de negócio iniciava, a Allied divulgou ao mercado que esperava vender R$ 600 milhões na nova linha — um aumento de aproximadamente 10% no faturamento da companhia. Quatro meses depois, o valor foi atualizado para R$ 1 bilhão. Antes do fim do ano, a companhia anunciou uma previsão de R$ 1,3 bilhão a R$ 1,5 bilhão na frente internacional.

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Um baque veio no primeiro trimestre de 2025, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou o tarifaço sobre diversos países ao redor do mundo. A sede da Allied está em uma das chamadas “Foreign Trade Zones”, zonas de comércio especiais em que não há tarifa de importação para abastecer mercados estrangeiros.

“Somos isentos de qualquer imposto declarado por Trump lá, mas quando ele aplicou as tarifas no primeiro trimestre do ano passado, a burocracia de compra dos fabricantes mudou totalmente”, conta Stagni. “Foi um trimestre praticamente perdido.”

No primeiro trimestre de 2025, a receita líquida no braço internacional foi de R$ 155 milhões, contra um histórico normalmente acima de R$ 300 milhões por trimestre. A unidade se recuperou no decorrer de 2025, com R$ 305 milhões em receita líquida no segundo trimestre e R$ 408,2 milhões no terceiro trimestre do ano.

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Lojas físicas em declínio

Além da sua linha de distribuição, a companhia atua também no varejo, operando 100 das 220 lojas da Samsung no Brasil. Esse valor já foi maior. Até a pandemia de Covid-19, em 2020, o número chegou a 180.

O que aconteceu foi uma mudança importante no varejo físico: antes do confinamento provocado pela Covid-19, estima-se que 30% do mercado de celulares era online, valor que chega a 45% atualmente. Além disso, as compras online habituaram o consumidor a comparar preços, o que pressiona preços das lojas físicas.

Desde o primeiro trimestre de 2025, a Allied registrou quedas consecutivas de receita na linha de negócio. No terceiro trimestre de 2025 chegou a R$ 116 milhões, queda de 8,6% versus o mesmo trimestre do ano anterior após a venda de 12 pontos de venda no Paraná.

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“Invertendo a lógica da redução no número de lojas, aumentamos o faturamento por ponto de venda. Em 2020, vendíamos R$ 206 mil por unidade ao mês. Em 2025, vendemos R$ 436 mil ao mês”, afirma Stagni. Ele explica que a especialização dos vendedores tem melhorado o valor agregado das vendas.

“A cada dois celulares, vendemos um wearable, como relógios e fones. Dois acessórios como película ou capa por celular. A cada dez celulares, um é vendido com seguro”, aponta.

Entre a “Lei do Bem” e os R$ 890 milhões em créditos tributários

Fundada em 2001, quase toda a história da Allied pelas suas primeiras décadas foi acompanhada pela “Lei do Bem”, benefício tributário que basicamente zerava alíquota de PIS e Cofins sobre certos produtos eletrônicos, criada para estimular o acesso da população à tecnologia.

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Na esteira das medidas de ajuste fiscal adotadas pelo Governo Dilma em seus últimos meses antes do impeachment, a gestão editou Medida Provisória revogando os benefícios fiscais da “Lei do Bem” a partir de 2016 sob o argumento de ganho de R$ 6 bilhões em arrecadação. Até então, a isenção iria até 2018.

“Como a demanda do mercado aumentaria para determinados produtos, o fabricante se preparou para uma capacidade de produção maior”, aponta o CEO da Allied. “Há uma conta de retorno: por quantos anos essa demanda mais alta vai se pagar. Nós tínhamos estoque para um nível de investimento muito maior e, de um dia para o outro, os preços aumentaram com o fim da isenção.”

Além do reflexo do aumento dos preços sobre a demanda por eletrônicos, a Allied projetava a abertura de 45 lojas e quiosques de shopping centers. Sob o argumento de que a mudança abrupta da política pública teria impactado financeiramente os negócios, a companhia ajuizou, à época, um mandado de segurança para proteger seu direito à isenção até 2018.

Esse processo foi transitado em julgado no início de 2025: uma causa que gerou R$ 890 milhões em créditos tributários para a companhia. “Estimamos que até esses direitos creditícios se tornarem dinheiro demoraria cerca de seis anos. Então, resolvemos ir por outro caminho e vender a um fundo com deságio”, conta Stagni.

Sob um deságio de mais de R$ 500 milhões, a empresa vendeu os créditos ao IA Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios, gerido pelo Itaú. O negócio gerou R$ 320 milhões em resultado líquido: “Grande parte do valor distribuímos aos acionistas. No ano passado pagamos R$ 130 milhões de Juros Sobre Capital Próprio (JCP), mais R$ 180 milhões de redução de capital. Foram R$ 310 milhões distribuídos aos acionistas”.

A distribuição ajudou a levar o dividend yield — rentabilidade dos investimentos pagos por uma companhia — da Allied a 44% em 2025. Com R$ 617,7 milhões em caixa em setembro de 2025, a empresa julga que os recursos em créditos tributários não precisariam ser usados para alavancar negócios como a própria expansão internacional.

Iuri Santos

Repórter de inovação e negócios no IM Business, do InfoMoney. Graduado em Jornalismo pela Unesp, já passou também pelo E-Investidor, do Estadão.