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Sell America seguirá? Ibovespa inicia semana em compasso de espera após recordes

Brasil segue como um dos mercados emergentes mais observados, mas sessão foi "sem graça" para o mercado doméstico

Lara Rizério

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Painel eletrônico mostra cotações de ações na B3, em São Paulo 05/08/2024 REUTERS/Carla Carniel
Painel eletrônico mostra cotações de ações na B3, em São Paulo 05/08/2024 REUTERS/Carla Carniel

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O benchmark da Bolsa brasileira – Ibovespa – fechou a última sexta-feira (23) na casa dos 178.859 pontos, com novos recordes, acumulando alta de 8,5% em reais e 10,3% em dólares. Já nesta segunda-feira (26), após abrir em alta, o índice passou a alternar entre leves perdas e ganhos e fechou em leve baixa de 0,08%, a 178.721 pontos, não renovando assim a máxima de fechamento, algo recorrente nas últimas sessões.

Na reta final de janeiro, haverá a Super Quarta, com decisões sobre juros nos Estados Unidos e no Brasil. No exterior, ainda sairão balanços de empresas norte-americanas, como Boeing, petrolíferas e cinco das Sete Magníficas – Microsoft, Meta, Amazon, Apple e Tesla.

Enquanto isso, a expectativa para a Bolsa segue positiva, dando sequência ao movimento recente nos mercados acionários, apelidado de “Sell America” (de vender ativos dos EUA) entre muitos investidores, avalia a Ágora Investimentos. Assim, diante da maior aversão a risco acontece a intensificação da saída de ativos americanos.

O JPMorgan aponta que o Brasil entra em 2026 como um dos mercados emergentes mais observados, com os novos recordes refletindo fluxos extraordinários.

Para o futuro, há dois principais fatores desencadeadores: o esperado ciclo de cortes na taxa de juros e a próxima eleição presidencial.

“O Banco Central provavelmente começará a cortar as taxas em março, com uma redução total de 350 pontos-base prevista para o ano. Historicamente, o mercado brasileiro tem respondido bem aos ciclos de afrouxamento monetário, mas esta é a primeira vez que o país enfrenta cortes de juros simultaneamente a eleições. Taxas mais baixas devem impulsionar setores como o industrial, o de serviços públicos, o financeiro e o imobiliário. Ao mesmo tempo, a eleição presidencial em outubro adiciona uma camada de volatilidade”, avalia a equipe de estratégia do JPMorgan.

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O banco aponta que o presidente Lula concorre à reeleição, mas a oposição permanece dividida e a visibilidade é incerta até pelo menos abril. “As pesquisas atuais mostram Lula na liderança, mas ele também enfrenta altos índices de rejeição, enquanto o senador Flávio Bolsonaro ganha terreno. Diante desse cenário, a estratégia recomendada é focar em grandes empresas de alta qualidade e evitar assumir grandes riscos. Recomenda-se aos investidores que sejam pacientes e seletivos, pois a volatilidade provavelmente permanecerá alta até que haja mais clareza no cenário político”, ressalta.

O Bradesco BBI reforça que o cenário global permanece positivo, à medida que o “excepcionalismo americano” [ideia dos EUA como um país único e até mesmo superior] continua a perder força, impulsionando uma nova rotação para mercados emergentes.

Neste cenário, o interesse dos investidores no Brasil supera em muito sua participação de 4% no MSCI de emergentes, considerando sua liquidez, avaliação e assimetria. “O Brasil é nossa principal escolha, com exposição overweight (acima da média) com a proximidade do ciclo de afrouxamento monetário e a continuidade do apoio global, focado em setores sensíveis a taxas de juros, mercados de capitais e empresas estatais”, aponta.

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Leia mais: Bolsa dispara em 2026: ainda dá tempo de aproveitar o rali do Ibovespa?

Para os analistas do BBI, a narrativa mudou das taxas de juros para as eleições: “o campo de concorrentes [eleitorais] e, acima de tudo, a perspectiva fiscal é fundamental para a durabilidade da estrutura macroeconômica do Brasil”.

Enquanto isso, avalia o banco, os EUA são cada vez mais percebidos como um “mercado emergente populista”. Essa comparação — antes anedótica — tornou-se mais comum entre os investidores, desde a pressão política sobre o Federal Reserve até a sinalização de políticas que se assemelha ao antigo intervencionismo no estilo dos mercados emergentes, completou.

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Para os mercados emergentes, essa mudança é amplamente favorável: aumenta a probabilidade de um DXY (índice de moedas frente os emergentes) mais fraco, taxas de juros americanas mais acomodativas e amplia os horizontes dos alocadores americanos fora dos EUA – especialmente após o forte desempenho superior dos mercados emergentes em 2025, aponta.

Próximos dias

Já olhando mais para o curto prazo, nesta semana, no front econômico, o foco recai sobre o Federal Reserve, que inicia sua reunião de dois dias amanhã (27). O consenso aponta para a manutenção das taxas, mas a atenção volta-se ao tom do comunicado e à coletiva de Jerome Powell. “Há uma percepção de que o banco central pode adotar postura cautelosa diante da volatilidade geopolítica e da resiliência dos dados de inflação e emprego”, avalia a Monte Bravo.

Quanto ao Copom, a expectativa é de manutenção da taxa Selic em 15,00% ao ano. Porém, alguns analistas estimam que o colegiado sinalize no comunicado quando pretende iniciar o processo de quedas dos juros. A maioria aposta que o primeiro corte virá em março.

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“Se o Copom reforçar cautela, os juros continuarão altos por mais tempo”, estima em Eduardo Amorim, especialista em investimentos da Manchester Investimentos, em relatório.

Na sessão, enquanto o minério de ferro fechou em queda de 0,95% hoje em Dalian, a Vale (VALE3) teve baixa de 2,29%, a R$ 83,07, o que também pressionou o Ibovespa.

Ainda no radar, há a possibilidade crescente de nova paralisação do governo dos EUA, uma vez que parlamentares democratas podem se recusar a votar o Orçamento sem mudanças nas provisões para a segurança nacional, devido aos conflitos em Minneapolis. Há ainda expectativa pela escolha do novo presidente do Fed e receios com a autonomia da nova composição do BC americano. Além disso, Trump ameaçou impor tarifas de 100% ao Canadá se ele avançar em um acordo com a China.

(com Reuters e Estadão Conteúdo)

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.