Os desafios e as propostas para o turismo no Rio, que bate recorde de visitantes

Para este verão são esperados 5,7 milhões de brasileiros e estrangeiros, 14% a mais que no ano passado

Agência O Globo

Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ) (Foto: Rafael Catarcione/RioTur)
Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ) (Foto: Rafael Catarcione/RioTur)

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Desde dezembro, não há como deixar de reparar nos bares e restaurantes abarrotados, que espalham mesas e cadeiras por calçadas. Também é perceptível o vaivém em prédios com apartamentos alugados por temporada. Assim como a multidão de pedestres no calçadão da orla de Copacabana, driblando panos estendidos por camelôs. Os sotaques diversos ouvidos em ruas e praias até altas horas confirmam: o Rio está lotado de turistas neste verão. Mas as mesmas cenas da cidade que fervilha também jogam luz sobre os desafios que o turismo tem pela frente. E motivam especialistas, autoridades, visitantes e moradores a proporem medidas para acolher quem chega e, ao mesmo tempo, preservar o bem-estar dos que vivem nesse cobiçado destino.

Os dados são categóricos ao revelarem o crescimento da afluência de turistas, com destaque para o aumento do público estrangeiro. Estudo das secretarias municipais de Turismo e de Desenvolvimento Econômico prevê a passagem pela Cidade Maravilhosa de 5,7 milhões de visitantes nacionais e internacionais ao longo deste verão. A quantidade é 14% superior à registrada na mesma estação há um ano, reafirmando essa vocação do Rio e impulsionando a economia.

17,8 milhões de passageiros: movimentação total de 2025 no Galeão. Um recorde, segundo a concessionária do aeroporto

Não perca a oportunidade!

Ainda não é nada que se assemelhe ao fenômeno do hiperturismo, transtorno verificado em cidades como Barcelona (Espanha) e Roma (Itália), garantem especialistas e autoridades. As dificuldades vistas nos bairros cariocas mais disputados nos períodos de pico de visitação, no entanto, é que motivam as ideias de soluções tecnológicas, mudanças no funcionamento dos transportes, ações de ordenamento mais eficazes, melhoria da segurança e até a volta dos postos avançados da Riotur na Avenida Atlântica.

— Inauguraram esses pontos nos postos de salvamento 2 e 5, em janeiro de 2024. Em abril do ano passado, fecharam. Outro detalhe: o posto da Riotur da Avenida Princesa Isabel não funciona aos domingos — lamenta Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, que também considera deficientes a sinalização turística e a fiscalização de ambulantes ilegais. — Falta trabalho de inteligência. Fica uma corrida de gato e rato entre guardas e camelôs.

Efeitos no dia a dia

De Niterói, Morgana Freitas costuma ficar na casa do namorado e passear em Copacabana aos domingos. A experiência que vive nesses dias a leva a sugerir:

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— A orla está cheia. Por que não estendem o horário da área de lazer até 21h?

Em Ipanema, a moradora Ana Luiza Folly entende o fascínio dos turistas pelo bairro. Mas alguns incômodos não passam despercebidos:

— Tem muita bicicleta nas calçadas. Também nas calçadas, às vezes falta espaço para passar devido aos bares lotados. Acho que poderia haver um pouco mais de ordenamento e de educação.

Presidente da Embratur, Marcelo Freixo ressalta que o turismo está longe de ser um problema no país:

— O turismo internacional é responsável por 8% do PIB brasileiro, e pode crescer muito. Acabamos de ter um aumento que nunca se contabilizou. Em 2025, chegamos a 9,3 milhões estrangeiros no Brasil.

No caso do Rio, porém, diz ele, um desafio é descentralizar o turismo:

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— Não é tirá-lo da Zona Sul, mas fazer com que ele não fique só na região, o que pode gerar mais oportunidade para a cidade como um todo. Uma coisa importante é pensar no interior do estado como destino, fazendo com que o visitante fique mais tempo.

Osiris Marques, pesquisador do Observatório do Turismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) e presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo (ANPTUR), e Felipe Felix, professor de Turismo do Cefet, também descartam o chamado overtourism (hiperturismo). Citam que Barcelona, por exemplo, recebeu 15,6 milhões de turistas em 2024, sendo 12,9 milhões internacionais.

— Aqui, as imagens da praia lotada no verão não ocorrem necessariamente por causa do turismo. Como o calor está cada vez mais forte, as pessoas vão mais à praia. E há muita gente da Baixada e de outros municípios da Região Metropolitana — destaca Marques.

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214 mil visitantes: público do Museu do Amanhã no verão de 2024/2025. No verão anterior, foram 203 mil

Exemplos de fora

O número expressivo de turistas no Rio, afirma Felix, indica, por outro lado, a necessidade de algumas iniciativas, como soluções tecnológicas:

— Uma ideia seria criar um aplicativo que dê a dimensão, em tempo real, do volume de visitação de uma atração, para que o turista possa organizar seu roteiro. Outro projeto, implantado em Dubrovnik, na Croácia, seria bom para o Rio: um sistema de monitoramento do fluxo de visitantes, que subsidia o poder público na identificação de áreas de pressão turística, permitindo que sejam adotadas medidas.

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Quanto à mobilidade, ele sugere que metrô e trens tenham esquemas especiais em fins de semana e feriados ensolarados do verão para evitar aglomeração. Para esses dias, ele defende ainda um plano de contingência de limpeza urbana. Felix também considera importante que o aluguel por temporada seja regulamentado, levando em conta a segurança dos moradores, normas de convivência para visitantes dos prédios e a geração de receita para o município:

— Hoje, não vejo necessidade de medidas radicais no Rio. Em Barcelona, já falam em eliminar o Airbnb até 2028.

Em alguns cartões-postais da cidade, contudo, algumas ações já são planejadas. Secretária municipal de Turismo, Daniela Maia confirma para março o começo das obras do projeto para a Escadaria Selarón, que prevê fechamento e melhorias para a Rua Teotônio Regatas e parte da Rua Joaquim Silva, na Lapa. O local recebeu mais de 1,5 milhão de visitantes (incluindo moradores do Rio) no ano passado.

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O vice-prefeito Eduardo Cavaliere, por sua vez, cita iniciativas da prefeitura, como a divulgação de um calendário turístico ao longo do ano, a fim de reduzir a concentração de visitantes no verão.

Mas, como poderia acontecer na maioria dos centros turísticos do mundo, continuam ocorrendo situações que exigem paciência. Carioca e hoje residindo em São Paulo, Liriel Barboza visitou a cidade este mês e, na manhã de domingo passado, decidiu tomar um café no Forte de Copacabana.

— Na fila lá de fora eu fiquei 50 minutos. Agora, estou na fila há dez minutos. Isso só para pegar um número para entrar em outra fila, a de espera. A previsão, segundo o garçom, é de uma hora até conseguir mesa. Vim achando que seria café da manhã e está quase virando lanche da tarde — brincava ela enquanto aguardava.

Se ainda há pontos que podem melhorar, os números mostram que o Rio está nos planos de turistas do mundo todo. Segundo dados do Observatório do Turismo da Secretaria municipal de Turismo, embora os visitantes nacionais sejam maioria (83,1% dos 12,5 milhões que visitaram o Rio ano passado, 10,5% a mais que em 2024), o destaque foi o aumento dos turistas internacionais (de 44,8%, de 2024 para 2025).

Píer Mauá: 28 gigantes

Nesse cenário, o Píer Mauá é um dos lugares a todo vapor. Na atual temporada (outubro de 2025 a abril de 2026), vão atracar no local 28 navios gigantes, 21 com roteiros estrangeiros. A previsão é que o número de visitantes alcance a marca de 240 mil. Gerente de operações do Píer Mauá, Marcello Chagas ressalta que, “para se sentir bem na cidade, o turista precisa ter uma experiência geral positiva”:

R$ 193,3 milhões na economia: estimativa de gastos na cidade dos passageiros dos navios que vão atracar no Rio nesta temporada

— Essa experiência positiva depende dos que operam serviços de turismo e também do governo. “Basta atender bem” é um clichê que precisa ser levado a sério.

Diretor comercial e de operações da Rede Othon, Jorge Chaves também tem sua receita para garantir que turistas e cariocas fiquem satisfeitos com a cidade cheia:

— É importante planejar os picos com antecedência, integrar mobilidade, segurança, limpeza e ordenamento urbano e comunicar bem o que vai acontecer em datas críticas.