Acordo UE-Mercosul: o tratado que Trump fez acontecer

O Mercosul era uma opção, não uma necessidade. Trump mudou esse tabuleiro.

Walter Maciel

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Na semana passada, em Assunção, no Paraguai, Mercosul e União Europeia assinaram o maior acordo de livre-comércio do mundo. São 720 milhões de pessoas, PIB de € 21,7 trilhões e 26 anos de negociação. Os discursos celebraram multilateralismo, cooperação e rejeição ao protecionismo, com críticas veladas – e algumas nem tanto – ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A ironia é que o acordo só existe por causa dele. Durante 25 anos, a União Europeia não teve pressa. Podia exigir cláusulas ambientais inalcançáveis, proteger agricultores franceses e adiar indefinidamente. O Mercosul era uma opção, não uma necessidade. Trump mudou esse tabuleiro.

As tarifas americanas forçaram a Europa a buscar alternativas. O acordo EUA–China deslocou exportadores europeus. A captura de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, sinalizou que Washington voltou a agir com força no hemisfério. De repente, a União Europeia precisava diversificar. Precisava de aliados. Precisava do Mercosul.

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O tratado não é uma vitória do multilateralismo sobre Trump. É uma reação a Trump. É a Europa correndo para não ficar isolada em um mundo que Washington está redesenhando.

E o Brasil? O país foi protagonista ao longo de décadas de negociação. Lula, segundo o presidente do Paraguai, foi essencial para que se chegasse a este dia. Ainda assim, não apareceu para assinar. Mandou o chanceler. Foi o único líder do Mercosul ausente.

Por quê? Porque dividir a foto com o presidente argentino Javier Milei – que elogiou Trump e acusou Maduro de ser narcoterrorista – seria politicamente tóxico. Lula preferiu evitar a imagem. Optou pela narrativa doméstica em detrimento do momento histórico.

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Enquanto isso, Milei discursava em defesa do livre-comércio e criticava as salvaguardas protecionistas impostas pela Europa. Mecanismos que permitem investigar produtos do Mercosul se forem 5% mais baratos que os europeus. Livre-comércio com asterisco: vale até sermos competitivos demais. Milei apontou a contradição. Lula não estava lá para responder.

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, falou em “comércio justo em vez de tarifas”. Santiago Peña, presidente do Paraguai, defendeu a rejeição ao “unilateralismo e egoísmo”. Yamandú Orsi, presidente do Uruguai, mencionou “consensos duradouros”. Todos miravam Trump. Mas foi ele quem criou a urgência que viabilizou o acordo.

O Brasil ainda não parece ter clareza sobre seu melhor parceiro estratégico. Passa anos cortejando a China – que nos compra soja e nos vende manufaturados, perpetuando nossa condição de exportador primário. Flerta com regimes autoritários que oferecem pouco além de solidariedade retórica. E, quando o maior acordo comercial de nossa história é assinado, o presidente não aparece.

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Trump não é necessariamente nosso inimigo. É o catalisador de uma reorganização global. Quem entender isso a tempo pode se posicionar. Quem não entender ficará reclamando de tarifas enquanto o tabuleiro muda sem ele.

O acordo UE–Mercosul é uma boa notícia. Mas sua principal lição não está no texto, e sim no contexto: o mundo está se movendo — e sob pressão americana. O Brasil pode fingir que isso é injusto. Ou pode acordar e usar a nova realidade a seu favor.

A assinatura do acordo mostra que, quando pressionada, até a Europa se move. A pergunta é: e o Brasil? Vai continuar mandando o chanceler enquanto a história acontece? Ou vai finalmente entender quem está moldando o mundo — e agir de acordo?

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Walter Maciel

CEO da AZ Quest desde 2011