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O fundador da Bridgewater Associates, Ray Dalio, afirmou a líderes globais e executivos que parem de fingir que as regras antigas ainda valem. Em conversa com Kamal Ahmed, da Fortune, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, Dalio fez um alerta duro sobre o cenário geopolítico atual e disse que o destino da ordem global do pós-Segunda Guerra — amplamente debatido em meio à investida do presidente Donald Trump sobre a Groenlândia e ao abalo na Otan — já está decidido.
“Não sejamos ingênuos e digamos: ‘Ah, estamos quebrando o sistema baseado em regras’”, afirmou Dalio. “Ele já acabou.”
O bilionário, fundador do maior hedge fund da história, acrescentou que, como estudioso da história financeira, acompanha de perto os ciclos econômicos dos últimos 500 anos e vê padrões que se repetem ao longo do tempo.
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“E o que aprendi com esse exercício é que a mesma coisa acontece repetidamente”, disse. “Para mim, é como um filme. É como assistir ao mesmo filme de novo.”

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Segundo Dalio, cinco forças específicas interagem para mover a trama, tendo o “ciclo de dinheiro e dívida” como o elemento que dá início aos eventos. As raízes da instabilidade atual, explicou, estão nas decisões monetárias tomadas ao longo das últimas décadas. Desde 1971, quando os EUA, sob o presidente Richard Nixon, romperam o vínculo do dólar com o ouro, os governos têm optado de forma recorrente por “imprimir dinheiro” em vez de permitir que crises de dívida sigam seu curso natural.
Isso ocorre quando o serviço da dívida cresce mais rápido do que a renda, comprimindo o consumo. Após mais de meio século desse comportamento, argumentou Dalio — repetindo um alerta frequente em suas falas públicas — o mundo assiste agora a um “colapso da ordem monetária”, evidenciado pela mudança na composição das reservas dos bancos centrais e pela compra de ouro.
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Guerras de capital
No dia anterior, em entrevista ao Squawk Box, da CNBC, à margem do encontro anual em Davos, Dalio disse que moedas fiduciárias e dívida como reserva de valor “já não estão sendo mantidas pelos bancos centrais da mesma forma”. Ele apontou uma dissociação em que os mercados dos EUA passaram a ter desempenho inferior ao de mercados estrangeiros em métricas específicas, tendência visível nos balanços dos bancos centrais globais.
O núcleo da preocupação de Dalio está na transição de disputas comerciais para o que ele chama de “guerras de capital”. Ele lembrou que os títulos do Tesouro dos EUA foram, por décadas, a base das reservas globais, mas afirmou que o volume de dívida emitida pelos Estados Unidos agora colide com um apetite global menor para mantê-la.
“Há um problema de oferta e demanda”, observou Dalio, acrescentando: “Não dá para ignorar a possibilidade de que talvez não exista a mesma disposição para comprar dívida americana”.
Essa relutância é impulsionada por fricções geopolíticas. Segundo Dalio, em períodos de conflito internacional, “nem mesmo aliados querem manter a dívida uns dos outros”, preferindo direcionar capital para moedas fortes. Esse movimento obriga o emissor da dívida a monetizá-la, fenômeno que Dalio resumiu de forma direta: “Estamos comprando cada vez mais o nosso próprio dinheiro. Essa é a lição de tudo isso”.
A força bruta de Trump
Enquanto Dalio falava na segunda-feira, os mercados enfrentavam uma venda global após a revelação de que o presidente Donald Trump estaria exigindo que os EUA assumissem o controle da Groenlândia em resposta a não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz de 2025.
Segundo relatos confirmados no fim de semana, Trump teria enviado mensagens irritadas ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, apesar de o Comitê Nobel funcionar de forma independente do governo norueguês. Já na terça-feira, as declarações de Dalio ocorreram em um ambiente de mercados mais calmos, após Trump reiterar o pedido pela Groenlândia, mas afirmar que não autorizaria o uso da força para obtê-la.
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Essa instabilidade econômica alimenta diretamente o colapso das normas políticas, disse Dalio à Fortune. Ele argumentou que a ordem multilateral criada em 1945 — marcada por instituições como a ONU e a Organização Mundial do Comércio — já nasceu, em certa medida, como um “sistema ingênuo”, por depender de representação sem mecanismos garantidos de execução.
“O que acontece quando a potência líder não quer acatar a votação?”, questionou Dalio. “Você realmente espera que uma votação na ONU ou um tribunal internacional resolva essas questões?”
O resultado, segundo ele, é uma mudança clara de um sistema multilateral para um unilateral. A questão central do nosso tempo passou a ser, na visão de Dalio: “Quem faz as regras, quem as impõe e como lidar com isso?”
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Talvez o aspecto mais inquietante de sua análise seja a erosão da autoridade legal em favor da força bruta. “O poder importa mais” do que a lei, disse à Fortune, observando que conflitos são cada vez mais decididos por quem controla as Forças Armadas, a polícia e a Guarda Nacional. Essa tendência aparece não apenas no plano internacional, mas também dentro dos países, onde a democracia é ameaçada pelo populismo e pela crença crescente de que o sistema é corrupto.
Questionado se essa ruptura deveria assustar conselhos de administração e CEOs que por décadas confiaram em regras globais estáveis, Dalio respondeu que ignorar a realidade é ainda mais perigoso.
“O que sempre me assusta é a falta de realismo”, afirmou.
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Líderes devem se concentrar em ‘questões de jurisdição’
Dalio aconselhou líderes a parar de depender de um sistema baseado em regras que está se dissolvendo e a focar em “questões de jurisdição”, buscando locais onde as pessoas sejam “afins” e se apoiem mutuamente. Seja em fronteiras internacionais ou em regulações domésticas, ele insiste que as empresas precisam encarar a dura realidade de que a era da proteção legal garantida está chegando ao fim.
“A lei vai prevalecer?”, perguntou Dalio. “No plano internacional, todos estão tendo de lidar com essa questão.”
Com a confiança nas instituições, no próprio direito e na dívida denominada em moedas fiduciárias em queda, Dalio destacou à CNBC o retorno silencioso, porém relevante, do ouro. Ele ressaltou que o metal não deve ser visto apenas como ativo especulativo, mas como “a segunda maior moeda de reserva” do mundo. No ano anterior, observou, o ouro foi o mercado que mais se valorizou e teve desempenho muito superior ao das ações de tecnologia, à medida que bancos centrais diversificaram suas reservas.
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O CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, fez comentários semelhantes em entrevista à Fortune durante a conferência Most Powerful Women, em outubro, ao dizer que, pela primeira vez em sua vida, passou a ser “semi-racional” ter ouro na carteira.
Apesar do tom duro, a visão de Dalio não é inteiramente defensiva. Ele afirmou enxergar a atual fase como uma bifurcação entre uma ordem monetária em decadência e uma “maravilhosa revolução tecnológica”, ecoando declarações feitas por Trump no palco, mais cedo naquele dia, sobre um “milagre econômico” em curso. Nesse aspecto, ao menos, a força pode acabar se impondo.
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