Publicidade
O período de promoções da Black Friday foi o principal fator para a alta de 1% nas vendas do varejo em novembro, divulgada nesta quinta-feira (15) pelo IBGE. Produtos farmacêuticos, de higiene e cosméticos, equipamentos de escritório e eletrodomésticos foram os destaques no mês. Os economistas deram ênfase para o forte desempenho dos segmentos mais ligados à renda, enquanto as vendas mais relacionadas ao crédito cresceram menos no mês.
“De acordo com nossas estimativas, o grupo de atividades varejistas sensíveis à renda cresceu 1,2% em termos interpessoais (1,2% ano a ano), o quinto aumento consecutivo. Enquanto isso, o grupo de atividades de renda por crédito subiu 0,4%, embora tenha diminuído 3,0% em relação ao ano anterior”, disse a XP em sua análise.
Ainda assim, as vendas no varejo amplo – métrica que inclui veículos, materiais de construção e atacarejo de alimentos e bebidas — aumentaram 0,7% em novembro em comparação com outubro, ligeiramente acima da previsão da XP (0,5%) e da mediana do mercado (0,4%).
Continua depois da publicidade
Leia também: Black Friday reduz a importância do Natal do calendário comercial, aponta estudo
A XP acredita que a campanha promocional da Black Friday parece ter impulsionado essas atividades. “Por exemplo, os deflatores para vendas de eletrodomésticos e produtos eletrônicos caíram pelo quinto mês consecutivo. Prevemos um retorno parcial nas vendas no varejo em dezembro, mas não o suficiente para evitar um aumento consistente no quarto trimestre”, estima.
Também foi destacado que o atacarejo de alimentos, bebidas e tabaco cresceu pelo terceiro mês consecutivo, após um longo período de 13 resultados em território negativo.
Para a XP, o mercado de crédito está mostrando sinais de resiliência, apesar das altas taxas de juros e dos níveis de endividamento das famílias, e a atividade doméstica está esfriando gradualmente. “A economia brasileira perdeu impulso na segunda metade de 2025, em linha com a política monetária contracionista. No entanto, destacamos a presença de ‘fatores de almofada’”.
Varejo restrito x varejo ampliado
André Valério, economista sênior do Inter, aleta que, mesmo com o forte crescimento no mês, o setor mantém tendência de desaceleração. “O resultado foi acompanhado de alta em 7 das 8 atividades pesquisadas. O único resultado negativo foi em vestuário, que recuou 0,8%. Na ponta oposta, as vendas em supermercados, farmácia, artigos de uso pessoal e móveis foram as atividades com maior impacto positivo no resultado do mês”, detalha.
O economista também cita que, no conceito ampliado, as vendas tiveram avanço de 0,7% na comparação mensal, mas ainda mostraram recuo de 0,3% na comparação com novembro de 2024. “O avanço no varejo ampliado ocorreu a despeito da queda de 0,2% nas vendas de veículos, sendo mais que compensado pelo avanço de 0,8% nas vendas de material de construção.”
Continua depois da publicidade
Valério também atribui o resultado de novembro à influência positiva das promoções de Black Friday, com setores mais sensíveis a esse evento tendo elevado crescimento, como móveis e eletrodomésticos e materiais de escritório, além de artigos de uso pessoal e doméstico, que avançaram 2,3%, 4,1% e 2%, respectivamente.
“Também vemos o mercado de trabalho robusto provendo sustentação para esse resultado, com os setores mais sensíveis à renda avançando 1,1%, acelerando em relação à taxa de outubro, que foi uma alta de 0,34%. Com a massa salarial em nível recorde e crescendo, o varejo restrito deverá continuar tendo um desempenho robusto nos próximos meses.”
Matheus Pizzani, economista do PicPay, concorda e cita que o resultado de novembro é reflexo da combinação entre preços relativamente mais baixos e ganhos em termos de volume de vendas.
Continua depois da publicidade
“Vale destacar também a alta de 1% do grupo de hiper e supermercados, ainda beneficiado pela inflação relativamente baixa dos alimentos, movimento que deve se dissipar gradualmente nos meses subsequentes, especialmente nas medições do início de 2026, quando a pressão sobre o IPCA de alimentos aumenta”, pondera.
Ele projeta uma alta de 0,2% para as vendas em dezembro, com o indicador fechando 2025 em 1,8%. Essa desaceleração na comparação mensal, segundo Pizzani, “se justifica pela devolução estatística parcial dos grupos que apresentaram crescimento mais agudo em novembro, bem como um efeito composição que tende a privilegiar os grupos de hiper e supermercados e combustíveis e lubrificantes, cujo consumo costuma acelerar no período por conta de questões sazonais relacionados às festividades de fim de ano.”
Desacelerando?
Na opinião de Claudia Moreno, economista do C6 Bank, apesar da força mostrada tanto no mês como no trimestre, a leitura geral é de que o varejo perdeu força ao longo de 2025. “Nos segmentos mais sensíveis ao crédito – como veículos, materiais de construção, móveis e eletrodomésticos –, as vendas desaceleraram no ano passado, sentindo os efeitos da Selic em patamar elevado. Considerando este contexto, o varejo ampliado deve ter fechado 2025 praticamente estável em relação a 2024”, destaca.
Continua depois da publicidade
Rafael Perez, economista da Suno Research, concorda com o raciocínio. Ele lembra que, no acumulado de 12 meses, o setor registrou alta de 1,5%, evidenciando uma desaceleração relevante em relação ao início do ano, quando o ritmo de crescimento era de cerca de 4,0%.
“O desempenho expressivo no mês foi fortemente influenciado pela Black Friday, em especial aqueles segmentos mais beneficiados por descontos e promoções, como eletrônicos e eletrodomésticos. (…) Mesmo diante dos juros elevados e crédito mais caro, o setor encontrou suporte em fatores que têm sustentado o consumo, como a solidez do mercado de trabalho, a expansão da renda, a aproximação das festas de fim de ano e da Black Friday, afirma.
Perez diz que a abertura positiva de novembro indica que a atividade mais dependente do consumo continuará exibindo resiliência, evitando uma desaceleração mais forte da economia e reforçando a expectativa da Suno de crescimento de 2,3% para o PIB em 2025.
Continua depois da publicidade
Para 2026, ele espera que o setor seguirá condicionado a um ambiente doméstico desafiador, no qual as condições financeiras apertadas continuarão exercendo pressão negativa sobre o varejo. “Ainda assim, a combinação de alguns elementos, como a aprovação da reforma do Imposto de Renda, o pagamento de precatórios, a expansão do crédito consignado privado e o aumento do salário mínimo devem ampliar a renda disponível das famílias, impulsionando o consumo ao longo do ano”, prevê.
Para o Bradesco, o desempenho das vendas sugere que o consumo das famílias deve ter mostrado melhora no último trimestre de 2025, após permanecer estável no trimestre encerrado em setembro. “Os dados também reforçam que o mercado de crédito segue relevante para sustentar o consumo de bens — especialmente veículos. Mantemos a projeção de uma pequena retração do PIB no quarto trimestre (-0,1%)”, avalia o banco.