Universitária, adolescente e pai de duas filhas morreram durante protestos no Irã

Casos de jovens baleados em protestos revelam dimensão da repressão contra manifestantes

Estadão Conteúdo

Manifestantes iranianos bloqueiam rua durante protesto em Teerã – 08/01/2026 (Foto: Stringer/WANA via REUTERS)
Manifestantes iranianos bloqueiam rua durante protesto em Teerã – 08/01/2026 (Foto: Stringer/WANA via REUTERS)

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Milhares de manifestantes foram mortos nas últimas duas semanas em meio à repressão do governo iraniano a protestos que tomam as ruas do país. Entre as vítimas está a estudante Rubina Aminian, de 23 anos, que cursava Design Têxtil e Moda na Faculdade Shariati, instituição de ensino superior dedicada apenas a mulheres, em Teerã. A organização Iran Human Rights, com sede na Noruega e integrantes dentro e fora do Irã, informou que Rubina foi morta em 8 de janeiro, após sair da faculdade para participar de um protesto. Ela foi baleada na cabeça à queima-roupa, pelas costas.

Pessoas próximas à estudante disseram à Iran Human Rights que ela era “uma jovem cheia de alegria de viver e apaixonada por moda e design de roupas, cujos sonhos foram enterrados pela violenta repressão da República Islâmica”.

A família de Rubina mora em Kermanshah, a cerca de 500 quilômetros de Teerã. Após tomar conhecimento do ocorrido, os familiares viajaram até a capital iraniana para tentar localizar o corpo da jovem, mas enfrentaram dificuldades.

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Segundo a organização, eles foram levados a uma área próxima à faculdade, onde encontraram centenas de corpos de jovens mortos por tiros na cabeça e no pescoço. A maioria tinha entre 18 e 22 anos.

“Inicialmente, a família não foi autorizada a identificar o corpo de Rubina e, posteriormente, foi proibida de levá-lo consigo”, disseram pessoas próximas à família da estudante.

Após muita insistência, os familiares conseguiram levar o corpo para Kermanshah. Ao chegarem à cidade, no entanto, descobriram que a casa da família estava cercada por autoridades da força de inteligência do Irã, e que não tinham permissão para enterrar Rubina.

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Ainda de acordo com a organização, a jovem precisou ser sepultada em uma estrada entre Kermanshah e Kamyaran. A família, de origem curda, tentou realizar uma homenagem em mesquitas na cidade de Marivan, cuja população é majoritariamente curda, mas foi informada de que os templos não estavam autorizados a sediar a cerimônia.

Pai de duas crianças e adolescente também foram mortos

Outra vítima da repressão é o manifestante Ali Dehghan-Joghan, de 55 anos, segundo o jornal independente Iran Wire, especializado em direitos humanos no Irã.

Dehghan-Joghan foi baleado na cabeça em 9 de janeiro, em Teerã, durante um protesto. Ele tinha duas filhas pequenas, era irmão da ativista Masoumeh Dehghan e cunhado do advogado Abdolfattah Soltani, que ajudou a advogada Shirin Ebadi, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2003, a fundar o Centro de Defensores dos Direitos Humanos (DHRC, na sigla em inglês).

Um dia antes, o adolescente Sina Eshkeboosi, de 17 anos, também foi baleado em Teerã, segundo o Iran Wire. Ele chegou a ser encaminhado a um hospital, mas não resistiu aos ferimentos.

A tia de Eshkeboosi, Samira Shahsavari, que mora no Canadá, disse ao jornal que só soube da morte do sobrinho na terça-feira, 13, quando a conexão telefônica internacional foi reestabelecida após dias de bloqueio de comunicação no Irã. A internet foi suspensa em 8 de janeiro e ainda não foi retomada.

Ela afirmou que a família foi obrigada a assinar um termo para garantir que o sepultamento ocorresse em completo silêncio. Samira contou ainda que Eshkeboosi era filho único e planejava se mudar para o Canadá. “Ele tinha uma vida confortável, mas era um menino responsável, e foi por isso que participou dos protestos”, acrescentou.

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Protestos em mais de 180 cidades e milhares de mortos

Segundo a organização Human Rights Activists News Agency (HRANA, na sigla em inglês), o Irã viveu na terça-feira, 13, o 17º dia de protestos, com a interrupção da conexão com a internet como um dos elementos definidores da crise.

Dados da HRANA mostram que, ao todo, 614 manifestações ocorreram em 187 cidades iranianas. O número de mortes confirmadas chegou a 2.403, embora a organização alerte que o total pode ser ainda maior, devido à dificuldade de coletar informações. A HRANA estima também que 1.134 pessoas estejam gravemente feridas.

Segundo o jornal The New York Times, um funcionário do Ministério da Saúde do Irã, sob condição de anonimato, afirmou que cerca de 3 mil pessoas foram mortas em todo o país.