Governo Lula aguarda decreto de Trump sobre Irã e vê risco concentrado no agronegócio

Resposta dependerá de alcance da medida, ainda não detalhada pela Casa Branca

Agência O Globo

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva 
23/11/2025
REUTERS/Esa Alexander
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva 23/11/2025 REUTERS/Esa Alexander

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O governo brasileiro aguarda a publicação da ordem executiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que deverá formalizar o anúncio de imposição de uma sobretaxa de 25% a países que mantenham relações comerciais com o Irã, para analisar como responder ao que é tratado internamente como uma ameaça concreta aos interesses comerciais do país. A avaliação preliminar é que qualquer reação dependerá do alcance jurídico e operacional da medida, ainda não detalhada pela Casa Branca.

Interlocutores do governo avaliam que a iniciativa se insere no tarifaço de Trump — um conjunto mais amplo de sobretaxas e restrições comerciais — e observam que seus efeitos potenciais sobre o Brasil estão sendo examinados em paralelo às negociações em curso com Washington, que buscam mitigar ou encerrar as tarifas já anunciadas contra produtos brasileiros. Há dúvidas, por exemplo, se a nova medida amplia o grau de incerteza dessas tratativas.

Apresentada por Trump como parte da estratégia de endurecimento das sanções americanas contra Teerã, a decisão amplia a pressão econômica dos EUA não apenas sobre o regime iraniano, mas também sobre países parceiros. O anúncio reforça a linha adotada pelo presidente americano desde o início do novo mandato, marcada pelo uso de instrumentos comerciais como ferramenta central de política externa.

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No caso brasileiro, a avaliação é que o agronegócio tende a ser o setor mais diretamente afetado. Diante desse cenário, existe a expectativa de o setor continuar buscando a preservação dos negócios com os iranianos, especialmente no comércio de commodities agrícolas, consideradas estratégicas para o escoamento da produção nacional. Como a sinalização de Trump é de que todos os produtos seriam alcançados pela sobretaxa — com impacto relevante também sobre bens industriais —, uma leitura preliminar em Brasília é que a estratégia americana consiste em punir coletivamente os países parceiros para forçar governos a se movimentarem no sentido de coibir a atuação de seus setores privados.

O Brasil mantém uma relação comercial relevante com o Irã. Em 2025, as importações brasileiras somaram US$ 84,5 milhões. Já as exportações alcançaram US$ 2,9 bilhões, com forte concentração em produtos do agronegócio, o que garantiu um bilionário superávit do lado do Brasil.

A pauta exportadora brasileira ao mercado iraniano é dominada por commodities agrícolas produzidas em abundância no país. O milho responde por 67,9% das vendas, seguido pela soja, com 19,3%, além do açúcar e da carne bovina. Do lado das importações, predominam os fertilizantes, que representam 79% do total comprado do Irã, além de frutas e nozes, com 11%.

A eventual aplicação da sobretaxa americana acende um alerta no setor agrícola e entre formuladores de política externa, ao elevar o risco de encarecimento das exportações brasileiras ou de maior tensão nas relações comerciais com os EUA. O mais provável é que o tema deverá ser tratado no âmbito das negociações bilaterais com Washington, que seguem em andamento.

O anúncio de Trump ocorre em meio a um agravamento da crise interna no Irã. Desde o fim de dezembro, o país enfrenta uma escalada de protestos desencadeada pela deterioração das condições econômicas, marcada por inflação elevada, forte desvalorização da moeda e dificuldades crescentes para comerciantes e trabalhadores urbanos. O movimento começou com paralisações localizadas, mas rapidamente ganhou alcance nacional e caráter político, com críticas diretas ao regime e às autoridades religiosas que concentram o poder.

A resposta do Estado iraniano tem sido de repressão severa, com mobilização das forças de segurança, prisões em larga escala e restrições ao acesso à internet e às comunicações. Organizações de direitos humanos relatam mortes e milhares de detenções, em um contexto de censura e controle rígido da informação.

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No plano externo, Trump afirmou publicamente que foi procurado por autoridades iranianas, que sinalizaram disposição para retomar negociações sobre um acordo nuclear. Segundo o presidente americano, Teerã indicou interesse em discutir limites para seu programa nuclear como forma de reduzir a pressão internacional. Trump respondeu que não descartava conversas, mas deixou claro que os EUA poderiam agir antes de qualquer negociação formal caso a situação se agravasse.

O Irã é governado desde 1979 pela República Islâmica, instaurada após a revolução que derrubou o xá Mohammad Reza Pahlavi. O poder máximo é exercido pelo aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo desde 1989, com autoridade sobre as Forças Armadas, o Judiciário, os órgãos de segurança e as diretrizes da política externa. Embora mantenha instituições formais como Presidência e Parlamento, o sistema é rigidamente controlado por instâncias religiosas. Entre suas características centrais estão a repressão à dissidência política, o papel central da Guarda Revolucionária e o tratamento restritivo imposto às mulheres, submetidas a severas limitações legais e sociais, o que tornou essa política um dos símbolos mais visíveis do caráter autoritário do regime.