Confiança é a moeda mais valiosa do mercado 

Ao elevar padrões de integridade, abrimos espaço para um mercado mais eficiente, competitivo e capaz de gerar valor sustentável para investidores e instituições

Tatiana Itikawa

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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O debate sobre a ética nos negócios na maioria das vezes surge como um “cumprir de regras” para evitar punições, ou um tema dentro das estratégias de marketing. É, na verdade, um ativo estratégico, especialmente no mercado financeiro, onde cada decisão depende da credibilidade que os agentes depositam nas pessoas, empresas e no sistema em geral.

A integridade dos participantes do mercado (e a percepção que as pessoas têm sobre ela) proporciona o conforto de que os investidores precisam para permanecer, tomar risco e fazer o capital circular. A ética dá resultado porque aumenta a confiança, e a confiança é a moeda mais valiosa no nosso setor.

A experiência internacional mostra que a conformidade é o primeiro degrau de uma escada muito alta, que envolve enxergar a ética não como um adendo ao negócio, mas como o próprio negócio. 

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Temos avançado em algumas regras que evoluíram na transparência e que expõem certos conflitos de interesse. Essas evoluções ajudaram a iluminar áreas que, historicamente, eram pouco compreendidas pelo público em geral, fortalecendo sua capacidade de tomar decisões com segurança. Quando criadas, tiraram o mercado da zona de conforto. Em poucos anos, soam tão naturais como se sempre tivessem existido.

Mas, podemos ir além.

Em mercados maduros, como os Estados Unidos e os países da União Europeia, o avanço regulatório tem buscado ampliar a responsabilidade dos distribuidores de produtos financeiros, demandando um alinhamento cada vez maior entre o que eles oferecem e o que de fato atende aos anseios e necessidades dos investidores.

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Nos EUA, a Regulation Best Interest, conhecida como Reg BI e norma vigente desde 2020, estabelece que as corretoras priorizem o melhor interesse dos seus clientes, em detrimento do seu próprio ganho, se preciso, ao recomendar investimentos. Foi um avanço sobre o padrão anterior, pelo qual as instituições tinham o compromisso de sugerir produtos condizentes com o perfil de risco dos clientes, mas que poderiam não ser a opção mais vantajosa.

Na União Europeia, a diretiva conhecida como MiFID – principal estrutura regulatória para mercados financeiros, intermediação e proteção ao investidor – dedica várias linhas às ações de combate ao conflito de interesse na oferta de produtos financeiros, chegando a proibir o pagamento de comissões aos distribuidores em algumas situações específicas.

No Brasil, o Código de Distribuição de Produtos Financeiros da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) estabelece princípios como imparcialidade, boa-fé, lealdade e diligência, além de regras para tratar conflitos de interesse, transparência e adequação de produtos. Foi um avanço necessário em um mercado que cresceu rapidamente, impulsionado pela sofisticação da indústria e pela chegada de milhões de novos investidores na última década.

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Agora, o próximo passo precisa ser dado. É hora de aprimorar as práticas na distribuição dos produtos de investimento, fortalecendo a relação entre distribuidores e investidores para que essa parceria seja de muita confiança e a mais longeva possível. Afinal, estamos falando da poupança das pessoas e essa dinâmica só traz ganhos para todos os lados.

Como associação, a Anbima entende a dimensão desse momento. O mercado evoluiu, os investidores evoluíram e a regulação avança em direção ao alinhamento de interesses.

É nossa responsabilidade atuar na próxima etapa desse debate, de forma aberta, técnica e comprometida com o desenvolvimento saudável do ecossistema financeiro brasileiro.

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Se a ética dá lucro, como as evidências indicam, então criar um ambiente de confiança é uma agenda não apenas moral, mas econômica.

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Tatiana Itikawa

É superintendente de Representação de Mercados, Autorregulação e Relações Internacionais da ANBIMA, com mais de 24 anos de experiência nos setores financeiro e de mercado de capitais. Lidera uma divisão estratégica focada na defesa dos interesses dos participantes do mercado brasileiro em nível local quanto internacional, e na elaboração de normas de autorregulação voltadas para elevar as práticas do setor e aprimorar o ambiente de negócios. Representa a ANBIMA em conselhos e grupos de trabalho no Brasil e no exterior, destacando o compromisso com a promoção da inovação e do progresso no setor financeiro. Possui mestrado em Economia pela PUC-SP.