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Existe uma pergunta que escuto com frequência nos meus workshops e treinamentos: “Alessandra, como faço para eliminar meu sotaque?”.
Antes de responder, sempre devolvo outra: por que isso te incomoda? Eu realmente acredito que há algo poderoso no jeito como cada pessoa fala. Antes de qualquer currículo, apresentação ou título, o sotaque entrega de onde você veio, o que viveu, a sua história. É um elemento importante da sua comunicação e parte da sua marca pessoal.
Quando alguém diz que precisa neutralizar a própria voz para parecer mais profissional, eu sinto que é quase como pedir para deixar uma parte da alma do lado de fora da conversa. Vivemos um momento em que autenticidade é um ativo estratégico. Pessoas querem verdade, conexão e naturalidade na comunicação. E o sotaque, quando usado com intenção, pode ser um dos maiores aliados da sua presença.
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Moro em São Paulo há 18 anos, e hoje, meu sotaque é híbrido em mineiro e paulistano. Ele pode soar acolhedor, firme, calmo… depende do contexto e principalmente, da minha intenção de comunicação.
É preciso aprender a ser consciente. É como ajustar a luz de uma foto: os traços continuam sendo os seus, mas a forma como você “ilumina” o foco principal muda completamente a percepção.
O sotaque só se torna um problema quando atrapalha a clareza ou é acompanhado de outros elementos da comunicação que sabotam a intenção de fala. Garantir clareza significa prestar atenção a expressões muito regionais que podem confundir, soar inapropriadas para o ambiente corporativo, observar quando é preciso usar sinônimos, pronunciar melhor cada letra da palavra, … Não é mudança de identidade, mas atenção à expressão.
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Ao longo de mais de 10 anos, tenho atendido clientes com sotaques de diferentes lugares do Brasil e do mundo, e acredite: a sonoridade diferente pode aproximar as pessoas, gerar curiosidade e até despertar a admiração, afinal, um imigrante que aprende uma nova língua, e mais, faz apresentaçòes em público em outro idioma merece todo o nosso respeito.
Sem querer romantizar, sabemos que em alguns ambientes o sotaque desperta preconceitos, daí a importância do seu preparo técnico e emocional, para garantir seu domínio emocional e claro, que será intencional na sua fala, capaz de quebrar estigmas por meio do seu próprio discurso.
Mantenha o foco e até o humor, afinal, brincar com estereótipos, quando feito com respeito, pode desarmar uma sala inteira.
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O que sempre alerto é: jamais deprecie seu próprio jeito de falar. Isso reforça inseguranças e até pode ofender quem compartilha das mesmas origens linguísticas que você. O preconceito linguístico é real e não é assunto para ser tratado com descuido.
Como boa mineira, tenho plena consciência de que tenho uma tendência a engulir algumas letras (e, sim, me policio) para garantir que minha mensagem chegue inteira. Falar rápido demais ou deixar os sons muito abafados dificulta qualquer compreensão.
O mesmo vale para vícios de linguagem que, se usados em excesso, viram ruído. Os “né?”, “pronto”, “oxe?”, “uai?”, “tá?” são parte de quem você é, mas não podem assumir o controle da conversa. Dão um tom de confusão e de insegurança.
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No fim das contas, seu sotaque é parte de quem você é. Só vira problema quando prejudica a clareza. A nossa voz carrega história, identidade, mas também precisa ter intenção. Somos a única espécie com a capacidade de usar a linguagem (não só para descrever o que vemos, provamos e tocamos), mas para influenciar pessoas.
E sem dúvida, a habilidade de falar bem é crucial para os líderes que querem resolver grandes problemas e gerar grandes resultados. O poder da comunicação reside naquilo que ela permite às pessoas fazer: cooperar.